O STF DE ALEXANDRE DE MORAES ESTÁ DERROTANDO LULA?
Crise no Supremo amplia a desconfiança da população, fortalece o discurso da oposição e deixa o presidente em situação de empate técnico com Flávio Bolsonaro
Leitura Rápida — 1 Minuto
A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal, o ministro Alexandre de Moraes e as investigações relacionadas ao Banco Master começa a produzir consequências políticas que preocupam a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva.
A pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira, 14 de setembro, mostra Flávio Bolsonaro com 42% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 40% de Lula.
Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados. Entretanto, é a primeira vez que Flávio aparece numericamente à frente do presidente nesse levantamento.
Lula ainda lidera o primeiro turno, com 36%, contra 31% de Flávio. Mas a distância entre os dois diminuiu, enquanto aumentou a desconfiança dos brasileiros em relação ao STF.
Segundo a Quaest, 56% dos entrevistados afirmam não confiar no Supremo. Em agosto, eram 46%. Apenas 9% dizem confiar muito na Corte.
Não é possível afirmar que a crise do STF seja a única responsável pelo enfraquecimento eleitoral de Lula. Porém, politicamente, a associação entre o presidente, Alexandre de Moraes e os problemas enfrentados pelo Supremo está beneficiando a oposição.
A pergunta que começa a circular em Brasília é inevitável:
O STF que Lula protegeu está ajudando a derrotá-lo?
Leitura Integral
O tribunal que deveria proteger a democracia virou um problema eleitoral
Durante os últimos anos, Lula e seus principais aliados apresentaram o Supremo Tribunal Federal como uma barreira institucional contra os excessos do bolsonarismo.
Alexandre de Moraes transformou-se no principal símbolo dessa atuação. Foi tratado por setores governistas como defensor da democracia, enquanto seus críticos passaram a acusá-lo de concentrar poderes excessivos.
Agora, porém, essa proximidade política e simbólica começa a cobrar seu preço.
A crise relacionada ao Banco Master, às mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao confronto entre Alexandre de Moraes e André Mendonça colocou o STF no centro da campanha eleitoral.
Flávio Bolsonaro percebeu rapidamente a oportunidade e passou a associar Lula ao ministro Alexandre de Moraes.
A estratégia é clara: transformar a eleição presidencial também em um julgamento popular sobre a atuação do Supremo.
Flávio passa Lula no segundo turno da Quaest
A pesquisa Quaest, realizada entre os dias 10 e 13 de setembro de 2026, ouviu presencialmente 2.004 eleitores.
No primeiro turno, o resultado foi:
- Lula: 36%;
- Flávio Bolsonaro: 31%;
- Augusto Cury: 7%;
- Renan Santos: 4%;
- Ronaldo Caiado: 4%;
- Romeu Zema: 1%.
Lula permanece na liderança. O sinal de alerta aparece na simulação de segundo turno:
- Flávio Bolsonaro: 42%;
- Lula: 40%.
Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, o resultado representa empate técnico. Não se pode afirmar, portanto, que Flávio esteja estatisticamente na frente.
Mesmo assim, a movimentação política é preocupante para o governo. Na rodada anterior, os dois apareciam com 41%. Agora, Flávio oscilou um ponto para cima e Lula, um ponto para baixo.
A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-03607/2026.
A confiança no STF despenca
Outro número talvez seja ainda mais importante do que a própria disputa eleitoral.
A Quaest aponta que 56% dos entrevistados não confiam no Supremo Tribunal Federal. Em agosto, esse percentual era de 46%.
Somente 9% afirmam confiar muito no STF, enquanto 30% dizem confiar pouco.
Trata-se de um desgaste institucional grave. A Corte continua sendo reconhecida como necessária à democracia, mas uma parcela expressiva da população considera que seus ministros acumularam poderes excessivos.
O Datafolha também encontrou essa contradição:
- 76% consideram que os ministros do STF possuem poderes excessivos;
- 71% avaliam que o Supremo é essencial para a democracia;
- 77% acreditam que a população confia menos na Corte atualmente.
Esses números mostram que a maioria dos brasileiros não deseja o fim do Supremo. O que existe é uma cobrança por limites, transparência, equilíbrio e respeito às regras do Estado Democrático de Direito.
O desgaste de Moraes atinge Lula?
Até agora, não existe prova estatística suficiente para afirmar que Alexandre de Moraes esteja, sozinho, derrotando Lula.
O Datafolha mostrou que 85% dos entrevistados não mudaram nem pretendem mudar o voto por causa das acusações envolvendo Moraes. Outros 7% mantiveram a escolha, mas passaram a ter dúvidas. Apenas 4% declararam ter trocado de candidato.
Portanto, seria incorreto atribuir toda a movimentação eleitoral exclusivamente à crise do Supremo.
Entretanto, eleições apertadas são decididas por pequenas parcelas do eleitorado. Uma mudança de 4%, ou mesmo o surgimento de dúvidas entre 7%, pode fazer diferença considerável em uma disputa tecnicamente empatada.
A crise também ajuda a oposição de outras maneiras:
- retira o foco das propostas do governo;
- fortalece o discurso contra os privilégios das autoridades;
- aumenta a preocupação com a corrupção;
- reforça a narrativa de que Lula representa a continuidade do atual sistema;
- aproxima eleitores independentes do campo oposicionista.
A questão não é apenas quantas pessoas afirmam ter mudado diretamente o voto. O problema está no ambiente político criado pela crise.
Flávio cresce entre mulheres, no Sudeste e na classe média
A pesquisa também revela movimentos importantes dentro do eleitorado.
Entre as mulheres, Lula caiu de 47% para 41%, enquanto Flávio Bolsonaro passou de 35% para 38%.
No Sudeste, a vantagem de Flávio sobre Lula aumentou de dois para 16 pontos percentuais.
Entre os eleitores com renda familiar de dois a cinco salários mínimos, Flávio ampliou sua vantagem de dois para dez pontos.
Esse último resultado atingiu diretamente o governo. Lula esperava crescer nessa faixa depois das medidas econômicas e tributárias anunciadas durante sua administração.
O benefício econômico, entretanto, não se transformou automaticamente em voto.
Lula continua fazendo uma campanha analógica
Integrantes do governo e pessoas próximas à campanha reconhecem que a comunicação de Lula permanece excessivamente tradicional.
Enquanto a oposição trabalha com vídeos curtos, frases diretas, indignação e forte presença nas redes sociais, o governo insiste na apresentação de números, programas administrativos e discursos longos.
Dados são importantes. Porém, eleições não são vencidas somente com tabelas e estatísticas. O eleitor também decide com base em confiança, identificação, medo, esperança e percepção de justiça.
O discurso governista sobre “soberania” também não estaria produzindo o resultado esperado. Ao mesmo tempo, temas como violência, corrupção, privilégios e abusos de autoridade ocupam cada vez mais espaço entre as preocupações dos brasileiros.
Lula protegeu demais o Supremo?
Esse é o ponto político mais delicado.
Durante muito tempo, Lula evitou criticar publicamente Alexandre de Moraes e outros ministros do STF. O presidente acreditava que defender o Supremo significava defender a própria democracia.
Mas democracia não significa silêncio diante de dúvidas legítimas.
Uma instituição forte precisa aceitar questionamentos, prestar esclarecimentos e investigar seus integrantes quando existirem elementos concretos.
Ao permitir que sua imagem fosse permanentemente associada à de Alexandre de Moraes, Lula assumiu um risco. Agora, qualquer desgaste do ministro pode ser usado pela oposição como desgaste do próprio presidente.
O STF não pertence a Alexandre de Moraes, a Lula, a Flávio Bolsonaro nem a qualquer partido político.
O Supremo pertence à República.
O STF está derrotando Lula?
A resposta mais responsável é: ainda não é possível afirmar isso de maneira definitiva.
Lula continua liderando o primeiro turno e aparece em empate técnico com Flávio Bolsonaro no segundo. Outros levantamentos divulgados no mesmo período apresentam resultados diferentes, também dentro das respectivas margens de erro.
Porém, o Supremo está se transformando em um enorme problema político para o presidente.
A crise:
- aumenta a rejeição às instituições;
- fortalece o discurso eleitoral da direita;
- enfraquece a narrativa governista de defesa da democracia;
- impede Lula de controlar a agenda política;
- provoca dúvidas em uma parcela decisiva do eleitorado.
Se o presidente não conseguir separar sua candidatura da imagem desgastada do Supremo, poderá chegar ao segundo turno carregando uma crise que não começou no Palácio do Planalto, mas que pode terminar dentro das urnas.
Editorial
O Brasil não pode aceitar que ministros sejam condenados antecipadamente e sem provas. Mas também não pode admitir que autoridades permaneçam acima de qualquer investigação.
Alexandre de Moraes tem direito à defesa, ao devido processo legal e à presunção de inocência. Esses são direitos que devem ser garantidos a todos os brasileiros.
Da mesma maneira, os fatos relacionados ao Banco Master precisam ser investigados com independência, transparência e igualdade.
Lula cometeu um erro político ao permitir que a defesa da democracia fosse confundida com a defesa pessoal de ministros do Supremo.
Defender o STF não significa proteger seus integrantes de questionamentos. Significa preservar a instituição, exigir transparência e garantir que a lei seja aplicada igualmente.
O tribunal não pode ter lado político.
Se a população acreditar que existe um “STF de Alexandre de Moraes” aliado ao governo, Lula poderá pagar eleitoralmente por uma instituição que deveria permanecer independente.
A urna dará a resposta final.
Mas o sinal amarelo já acendeu — e está ficando vermelho para o presidente.
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Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 14 de setembro de 2026.




















































