Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 10 de setembro de 2026.
Com data confirmada para o dia 26 de setembro de 2026 — primeiro sábado após o início oficial da primavera —, o Parque Estadual da Cantareira, na Zona Norte, realiza uma nova edição da tradicional Caminhada Noturna. O percurso de cerca de oito quilômetros leva os participantes por dentro da Mata Atlântica até o topo do mirante da Pedra Grande.
Contudo, a tabela de cobrança estabelecida pela concessionária privada Urbia Parques reacende a indignação popular: os ingressos para participar da trilha custam nada menos do que R$ 150,00 por pessoa (ou R$ 75,00 na meia-entrada legal), transformando uma atividade básica de ecoturismo e contemplação pública em um programa financeiramente inviável para famílias assalariadas da própria periferia da Zona Norte.
A ENGRENAGEM DO FATO: A programação divulgada prevê a concentração dos caminhantes a partir das 16h no piso térreo do Museu Florestal Octávio Vecchi, localizado no Parque Alberto Löfgren (Horto Florestal). A largada ocorre no entardecer, com o objetivo de permitir que o grupo alcance o platô da Pedra Grande a tempo de acompanhar o pôr do sol sobre o horizonte da metrópole, antes de iniciar o trajeto noturno de descida entre a mata fechada, encerrando as atividades por volta das 21h.
Ao todo, o circuito soma aproximadamente oito quilômetros de caminhada em terreno pavimentado e de terra batida, com desnível acentuado de subida. A concessionária disponibiliza guias e educadores ambientais que transmitem noções sobre a fauna noturna, os remanescentes de mata e a importância hídrica da Serra da Cantareira para o abastecimento da Grande São Paulo.
O problema central reside no modelo de comercialização: ao impor a barreira tarifária de R$ 150,00 por cabeça na plataforma eletrônica Urbia Pass, um casal com dois filhos que resida na Vila Brasilândia, no Tremembé ou no Jaçanã precisaria desembolsar cerca de R$ 450,00 a R$ 600,00 apenas para caminhar em vias de um parque pertencente ao patrimônio do Estado, sem incluir despesas com alimentação e locomoção.
VOZES E ANÁLISE: Para coletivos ambientalistas, defensores do direito à cidade e frequentadores históricos do Horto, o avanço da exploração comercial sobre áreas de preservação aprofunda a segregação do lazer na capital.
“O Parque Estadual da Cantareira e o Horto Florestal sempre foram o quintal ecológico da classe trabalhadora da Zona Norte. Quando a gestão concedida à iniciativa privada passa a cobrar R$ 150 para uma caminhada em grupo guiada por estradas que foram abertas pelo poder público há décadas, o patrimônio natural é sequestrado como produto gourmet. Educação ambiental e vivência na floresta não podem ser vendidas como artigo de luxo”, destacam lideranças comunitárias e analistas de políticas públicas ambientais.
Entre pedestres e praticantes de caminhada que utilizam o parque no horário convencional, a crítica é generalizada. Moradores vizinhos ao Horto Florestal cobram a adoção de contrapartidas sociais reais, como cotas 100% gratuitas para estudantes da rede pública e moradores de bairros vulneráveis do entorno, evitando que o verde da Cantareira sirva de vitrine apenas para elites esportivas enquanto os jovens da região permanecem excluídos do contato guiado com a floresta.
DADOS OFICIAIS:
- Evento Divulgado: Caminhada Noturna em Trilha Urbana do Parque Estadual da Cantareira.
- Data e Horário: Sábado, 26 de setembro de 2026, das 16h00 às 21h00 (início da primavera).
- Local de Concentração: Museu Florestal Octávio Vecchi (Rua do Horto, 931 – Horto Florestal / Tremembé, Zona Norte de São Paulo – SP).
- Percurso Estimado: Cerca de 8 km (ida e volta entre o Horto Florestal e o Núcleo Pedra Grande).
- Valores das Inscrições: R$ 150,00 (inteira) e R$ 75,00 (meia-entrada legal para estudantes, idosos e beneficiários da lei).
- Canal de Comercialização: Plataforma digital Urbia Pass (reserva antecipada sujeita a vagas limitadas).
- Gestão e Operação: Urbia Parques (concessionária do bloco Cantareira / Horto Florestal).
- Base Legal: Artigo 225 da Constituição Federal (direito de todos ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e dever do poder público de promover a educação ambiental) e legislação de concessão de unidades de conservação do Estado de SP.
O RIGOR DA LEI: A floresta da Cantareira não brotou das pranchetas de investidores privados: ela é um patrimônio natural sagrado do povo de São Paulo, preservado pelo esforço de gerações e mantido com o suor coletivo da sociedade.
A concessão de parques estaduais à iniciativa privada foi defendida com o discurso de que modernizaria as estruturas e melhoraria o acolhimento, jamais para transformar o acesso ao meio ambiente em barreira financeira elitista. Cobrar mais de 10% do salário mínimo para um trabalhador subir a pé até o mirante da sua própria cidade é um retrocesso civilizatório inaceitável.
A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado e os órgãos de fiscalização têm a obrigação intransigível de intervir nos contratos de concessão: o ecoturismo e as visitas educativas noturnas em áreas públicas devem ter preços condizentes com a realidade popular e garantir cotas abertas à comunidade, assegurando que o encanto da mata pertença a todos, e não apenas a quem pode pagar o preço de ouro da catraca privada.
AGORA A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR:
Você considera justo que uma caminhada noturna guiada em parque público estadual cobre R$ 150 por pessoa, ou a concessionária e o Governo de SP deveriam garantir gratuidade e tarifas populares para permitir o acesso de toda a população trabalhadora?
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