Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 11 de setembro de 2026.
Em meio à corrida para viabilizar a transferência da máquina pública estadual para o novo complexo dos Campos Elíseos, o Palácio dos Bandeirantes colocou na mira do mercado imobiliário privado alguns dos edifícios mais representativos da memória arquitetônica paulistana.
Entre os alvos da primeira leva de alienações figuram o antigo Hotel Esplanada (obra centenária de Joseph Gire colada ao Theatro Municipal), o lendário edifício do Cine Marrocos e o emblemático palacete em estilo art déco do antigo Banco de São Paulo.
Sob o argumento de arrecadar cerca de R$ 600 milhões para pagar desapropriações do megaprojeto de R$ 6,1 bilhões do novo Centro Administrativo, a gestão estadual aposta na venda com encargos contratuais de destinação, entregando a agentes privados propriedades que pertencem à coletividade do povo paulista.
A ENGRENAGEM DO FATO: O plano prevê que os primeiros leilões ocorram ao longo de 2027, atingindo pastas com quadros menores que podem ser realocadas antecipadamente. O caso mais chamativo é o do antigo Hotel Esplanada, na Praça Ramos de Azevedo. Inaugurado em 1923 pelo mesmo arquiteto que desenhou o Copacabana Palace, o prédio foi adquirido pelo governo em 2012 e abriga hoje as secretarias de Agricultura e Abastecimento e de Turismo e Viagens, com 621 servidores. A diretriz contratual desenhada pelo Estado pretende forçar o comprador a reativar o imóvel como empreendimento hoteleiro.
A poucos passos dali, na Rua Conselheiro Crispiniano, o Cine Marrocos — inaugurado em 1951 como um dos cinemas mais luxuosos da América do Sul e desativado desde os anos 1990 — também integra o pacote. A intenção governamental é exigir a transformação da imensa sala de exibição de quase 2 mil lugares em espaço de espetáculos, liberando a torre de 12 andares para uso habitacional e um galpão contíguo para demolição e nova construção civil.
Na Praça Antônio Prado, o antigo edifício do Banco de São Paulo, erguido em 1938 em imponente art déco com mosaicos, vitrais e mármores nobres, abriga atualmente a Secretaria de Esportes com 185 servidores e também deverá ser repassado ao capital privado. Para etapas posteriores, o governo estuda incluir o edifício Saldanha Marinho (atual sede da Secretaria da Segurança Pública, no Largo de São Francisco), enquanto o emblemático edifício Caetano de Campos, na Praça da República, foi retirado da lista de vendas após fortes reações do setor educacional, devendo ser convertido em escola modelo da rede estadual.
VOZES E ANÁLISE: Para urbanistas, historiadores e arquitetos do Instituto de Arquitetos do Brasil
(IAB-SP), a decisão do poder público de alienar patrimônio de alto valor histórico representa um erro estratégico grave que favorece a especulação financeira.
“O Estado possui instrumentos modernos e consolidados, como concessões de uso de longo prazo e fundos imobiliários públicos, capazes de atrair restauro e dinamismo privado sem transferir a propriedade definitiva dos bens. Vender imóveis dessa magnitude no Centro Histórico em um momento de desvalorização conjuntural significa abrir mão da valorização futura gerada pela própria requalificação urbana, transferindo 100% dos lucros imobiliários ao capital privado. O patrimônio do povo deve ser gerido para garantir moradia popular, cultura acessível e serviços sociais permanentes”, advertem especialistas em patrimônio edificado e planejamento metropolitano.
Nas ruas do Centro e entre servidores das secretarias afetadas, a sensação é de apreensão quanto ao futuro da zeladoria e do acesso aos espaços: “O trabalhador vê a história da cidade ser fatiada como se fosse mercadoria de balcão. Esses prédios foram pagos com recursos públicos ao longo de décadas. O governo não pode simplesmente bater o martelo e entregar marcos cívicos para redes hoteleiras de luxo enquanto falta teto digno e cultura para quem vive na labuta diária no coração da capital”, criticam trabalhadores e lideranças sindicais do funcionalismo público.
DADOS OFICIAIS:
- Medida Anunciada: Projeto de leilão de edifícios públicos históricos e tombados no Centro Histórico de São Paulo.
- Objetivo Financeiro Declarado: Amortizar custos de desapropriações (estimadas em R$ 600 milhões) para a construção do novo Centro Administrativo nos Campos Elíseos (obra de R$ 6,1 bilhões).
- Imóveis Centrais na 1ª Etapa: Antigo Hotel Esplanada (1923, secretarias de Agricultura e Turismo), Edifício Cine Marrocos (1951, antiga sala de cinema e torre de 12 andares) e Edifício Banco de São Paulo (1938, marco art déco, Secretaria de Esportes).
- Imóveis em Análise Posterior: Edifício Saldanha Marinho (sede da Secretaria da Segurança Pública, no Largo de São Francisco).
- Imóvel Preservado do Leilão: Casa Caetano de Campos (Praça da República, projetado por Ramos de Azevedo em 1894), com previsão de se tornar escola modelo pública.
- Modelo Previsto: Venda com encargos e destinação pré-definida em edital (hotelaria, cultura, eventos e habitação).
- Base Legal: Artigo 216 da Constituição Federal (proteção ao patrimônio cultural e material), legislação estadual de alienação de ativos públicos e resoluções de tombamento do Conpresp e Condephaat.
O RIGOR DA CIDADE: O patrimônio histórico edificado de São Paulo não é entulho burocrático para ser liquidado no balcão de negócios imobiliários nem moeda de troca para fechar contas de megaobras de gabinete.
Cada fachada esculpida, cada vitral e cada laje de mármore do Hotel Esplanada, do Cine Marrocos e do Banco de São Paulo pertencem à identidade cultural da população e foram erguidos com o suor de gerações. Entregar prédios dessa relevância de forma definitiva à iniciativa privada, sob a promessa frágil de que novos donos cumprirão cláusulas de destinação, é renunciar ao dever de soberania sobre a gestão do Centro.
A revitalização autêntica da região central exige que o poder público mantenha a titularidade dos seus tesouros, utilizando parcerias e concessões rigorosas que garantam preservação arquitetônica, habitação de interesse social e equipamentos culturais abertos ao povo trabalhador. A história da maior metrópole do país não pode ser vendida ao melhor lance para saciar o apetite das incorporadoras.
AGORA A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR:
Você considera que o Governo de São Paulo deve vender prédios históricos como o Hotel Esplanada e o Cine Marrocos para cobrir gastos do novo Centro Administrativo, ou o Estado tem a obrigação de manter a propriedade pública dessas joias da arquitetura em benefício da população?
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