CHEIRO DE PIZZA NO STF?
Fachin tira caso Moraes das mãos de Mendonça, centraliza crise na Presidência e Supremo pode decidir na terça se investiga ministro — ou se anula material da PF
Mário Marcovicchio
LEITURA RÁPIDA — 1 MINUTO
Às vésperas daquela que promete ser uma das sessões mais tensas da história recente do Supremo Tribunal Federal, o presidente da Corte, Edson Fachin, fez uma mudança decisiva no tabuleiro.
Na noite deste sábado, 12 de setembro, Fachin determinou que a Petição 16.662, até então relatada por André Mendonça, passasse para a Presidência do STF. É esse processo que reúne os elementos relacionados às mensagens encontradas pela Polícia Federal envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.
Na terça-feira, 15 de setembro, às 10 horas, os ministros deverão decidir se os elementos levantados pela Polícia Federal podem ser utilizados e se há base para uma investigação formal envolvendo Moraes. A Procuradoria-Geral da República sustenta que parte do procedimento deve ser anulada.
É daí que surge a pergunta que já circula nos bastidores políticos:
há cheiro de pizza no STF?
Por enquanto, é apenas uma pergunta. Mas o risco de o plenário não chegar ao mérito das mensagens e encerrar a controvérsia por questões processuais existe e estará no centro da sessão de terça-feira.
LEITURA INTEGRAL
FACHIN ASSUME O COMANDO DO CASO MORAES
A mudança ocorreu poucas horas antes de um julgamento capaz de colocar o próprio Supremo diante de uma questão raríssima: deve um de seus ministros ser formalmente investigado a partir de elementos encontrados em outra investigação criminal?
Fachin determinou que a relatoria da Petição 16.662, até então sob responsabilidade de André Mendonça, fosse transferida para a Presidência.
O fundamento apresentado pelo presidente envolve as regras internas do STF e a possibilidade de impedimento decorrente daquilo que vier a ser decidido pelo plenário.
Isso produz uma mudança importante.
Na sessão extraordinária de terça-feira, Fachin não será apenas o presidente responsável por abrir os trabalhos.
Ele será também o relator.
Caberá ao próprio Fachin apresentar o relatório do processo e iniciar a votação.
MENDONÇA SAI DA RELATORIA
André Mendonça vinha conduzindo o procedimento que levou ao plenário os elementos produzidos pela Polícia Federal.
Com a decisão de sábado, ele deixa de ser o relator da Petição 16.662.
Mendonça encaminhou os autos à Presidência em cumprimento à determinação anterior de Fachin segundo a qual procedimentos que possam envolver investigação de ministros do próprio Supremo devem passar previamente pela Presidência da Corte.
Esse é um dos pontos que tornam a movimentação politicamente explosiva.
O ministro que trouxe a questão ao plenário não será mais aquele que conduzirá o processo quando os onze integrantes do STF se reunirem.
E O BANCO MASTER E O INSS?
Aqui é necessária uma precisão.
Fachin não retirou de André Mendonça, neste momento, a relatoria das investigações principais sobre o Banco Master e as fraudes envolvendo descontos do INSS.
O que ele determinou foi que os processos relacionados fossem remetidos à Presidência.
Segundo informações divulgadas sobre a decisão, essas apurações permanecem formalmente vinculadas a Mendonça, mas ficam submetidas à centralização institucional enquanto se aguarda o resultado da discussão de terça-feira.
Na prática, isso reduz temporariamente o espaço para novas decisões individuais capazes de mudar o curso da crise.
O CELULAR DE VORCARO VIROU O CENTRO DA GUERRA
Outro capítulo decisivo envolve o celular apreendido de Daniel Vorcaro.
Fachin deu 24 horas à Polícia Federal para informar onde o material está custodiado e em que condições se encontram os dados extraídos do aparelho.
Mas atenção: Fachin não determinou ainda a entrega integral desses dados aos ministros.
Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin estão entre os ministros que defenderam acesso mais amplo ao conteúdo.
André Mendonça argumentou, por outro lado, que uma abertura indiscriminada do material poderia comprometer investigações ainda em andamento relacionadas ao Banco Master.
O celular de Vorcaro, portanto, transformou-se em uma espécie de caixa-preta da crise institucional.
O QUE O STF REALMENTE JULGARÁ NA TERÇA?
O plenário não vai julgar na terça-feira se Alexandre de Moraes é culpado ou inocente de alguma acusação.
Essa distinção é fundamental.
O que estará em discussão é anterior a qualquer julgamento criminal.
Os ministros terão de examinar a legalidade do procedimento determinado por Mendonça, a validade dos elementos produzidos pela Polícia Federal e o que deve ser feito com as informações que alcançaram Moraes.
A PGR sustenta que a medida que permitiu aprofundar a identificação dos interlocutores de Vorcaro foi irregular porque alcançou um ministro do STF sem prévia comunicação à Presidência da Corte.
Se essa tese prevalecer, parte do material poderá ser considerada inválida.
Se for rejeitada, poderá ser aberto o caminho para uma investigação formal.
É AÍ QUE APARECE O “CHEIRO DE PIZZA”
A expressão é popular e provocativa, mas o questionamento tem origem em uma possibilidade processual concreta.
Depois de semanas de revelações, relatórios policiais, acusações cruzadas entre ministros e uma crise que chegou à cúpula da Polícia Federal, o STF poderá concluir que o procedimento usado para obter determinados elementos foi juridicamente irregular.
Nesse cenário, a discussão poderá acabar antes mesmo de o Tribunal enfrentar profundamente o conteúdo das mensagens.
Isso não significaria necessariamente um acobertamento. A exclusão de provas consideradas ilícitas ou irregularmente produzidas faz parte das garantias do processo legal.
Mas politicamente o resultado certamente produziria uma pergunta inevitável:
o país conhecerá integralmente o que existe no material de Vorcaro ou tudo terminará numa disputa sobre quem poderia ter determinado o quê?
É neste sentido — e somente neste sentido — que o título “Cheiro de pizza no STF?” encontra respaldo jornalístico.
FACHIN DIZ QUE NÃO HAVERÁ OMISSÃO
O próprio presidente do Supremo já afirmou publicamente que a gravidade da crise exige respeito ao devido processo e que a Corte não poderia agir nem com precipitação nem com omissão.
Em manifestação oficial, Fachin declarou que nenhuma autoridade está acima da Constituição e afirmou que a resposta institucional seria rigorosa.
Agora essas palavras serão colocadas à prova.
TERÇA-FEIRA, 10 HORAS: O DIA DA VERDADE
A sessão extraordinária está marcada para terça-feira, 15 de setembro, às 10 horas.
Fachin presidirá e relatará o processo.
O plenário terá diante de si uma decisão que ultrapassa Alexandre de Moraes, André Mendonça ou Daniel Vorcaro.
Está em jogo também a maneira pela qual o próprio Supremo reage quando suspeitas e investigações chegam aos seus integrantes.
O STF poderá permitir que os fatos sejam aprofundados.
Poderá entender que houve ilegalidades e anular parte do procedimento.
Ou poderá construir uma solução intermediária.
Só depois do voto dos ministros será possível afirmar qual dessas portas foi escolhida.
Até lá, “pizza” é uma suspeita política, não um fato consumado.
Mas Brasília estará olhando para o forno.
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Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 13 de setembro de 2026.




















































