EDITORIAL: O BRASIL É UM SÓ
A crise recente entre Supremo Tribunal Federal e Polícia Federal expõe um problema maior: a erosão das fronteiras entre Justiça, política e disputa eleitoral
25NEWS-BRAZIL
Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 10 de setembro de 2026
Por Mário Marcovicchio
Nas últimas duas semanas, o Supremo Tribunal Federal passou a ocupar o centro do debate nacional.
Decisões conflitantes sobre a Polícia Federal, investigações de grande repercussão e operações envolvendo personagens de diferentes campos políticos levaram para o Judiciário uma parcela crescente da disputa nacional.
O episódio mais recente resume esse ambiente.
O ministro André Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal. Flávio Dino decidiu em sentido contrário. Diante do conflito, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as duas decisões e levou a questão ao plenário.
Mais importante do que discutir agora o mérito jurídico de cada medida é observar a imagem produzida pelo conjunto.
Quando decisões individuais da Suprema Corte se chocam em poucas horas, o problema deixa de ser apenas jurídico. Passa a atingir a previsibilidade e a confiança nas instituições.
Uma Corte Constitucional não se sustenta somente pela força de suas decisões. Sua autoridade também depende de coerência, equilíbrio e independência.
E isso ganha ainda mais importância em ano eleitoral.
STF e Polícia Federal passaram a produzir fatos capazes de alterar diariamente o ambiente político. Isso não significa interromper investigações ou impedir decisões sobre questões sensíveis.
Significa apenas que, quanto maior o impacto de uma medida, maior deve ser o cuidado com o rito, a fundamentação e a imparcialidade.
A Polícia Federal enfrenta o mesmo desafio.
Suas operações atingem pessoas de diferentes grupos políticos. Em princípio, isso deveria demonstrar autonomia. Mas, em um país polarizado, cada investigação passou a ser julgada de acordo com o alvo.
Quando atinge um adversário, muitos enxergam Justiça.
Quando atinge alguém próximo, falam em perseguição.
A reação à operação relacionada ao filme Dark Horse mostrou exatamente isso.
Houve apoio à investigação, críticas ao momento da operação, acusações de seletividade e cobranças para que outros casos recebam o mesmo tratamento.
Essas manifestações não representam uma pesquisa de opinião. Mas revelam algo importante.
Parte da população já não pergunta apenas se um fato deve ser investigado.
Pergunta quem investiga, quem autorizou, quem é o alvo e quem poderá ganhar politicamente com isso.
Nesse momento, o fato jurídico deixa de ser visto apenas como questão de Justiça e passa a integrar a disputa política.
Esse talvez seja um dos maiores problemas do Brasil atual.
A polarização saiu das urnas e passou a influenciar a interpretação dos próprios acontecimentos.
O mesmo fato produz duas realidades completamente diferentes.
Democracias convivem com conflitos entre tribunais, governos, parlamentos e órgãos policiais. O que preserva uma democracia é a existência de limites claros.
Tribunais julgam.
Polícias investigam.
Governos administram.
Parlamentos legislam e fiscalizam.
Partidos disputam eleições.
O risco começa quando essas funções se misturam.
Enquanto isso, os problemas reais do país perdem espaço.
O Brasil deveria estar discutindo crescimento econômico, segurança, saúde, educação, infraestrutura, equilíbrio fiscal e políticas sociais.
Mas grande parte da agenda nacional vem sendo consumida por crises institucionais.
É nesse momento que a frase “O Brasil é um só” deixa de ser apenas um slogan.
Podemos ter muitos partidos, candidatos e projetos.
Podemos discordar profundamente.
O que não podemos ter são dois padrões de Justiça, dois critérios de investigação ou duas interpretações de legalidade dependendo de quem esteja envolvido.
As instituições não pertencem à esquerda.
Não pertencem à direita.
Pertencem ao Brasil.
E sua credibilidade dependerá justamente da capacidade de demonstrar isso.
Governos passam.
Ministros mudam.
Diretores são substituídos.
Maiorias parlamentares desaparecem.
O Estado permanece.
A democracia brasileira será julgada pela capacidade de suas instituições atravessarem este período sem se transformarem em instrumentos da disputa política.
Porque o Brasil pode ter milhões de opiniões.
Mas existe uma só Constituição.
E o Brasil continua sendo um só.
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