UNIÃO EUROPEIA BARRA CARNE BRASILEIRA E OUTROS PRODUTOS; AVES E MEL JÁ TÊM SINAL POSITIVO PARA RETOMADA
Restrições entraram em vigor em 3 de setembro por exigências sobre uso de antimicrobianos; auditoria europeia aprovou controles brasileiros para aves e mel, mas liberação ainda depende de decisão formal
Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 5 de setembro de 2026
Mário Marcovicchio
LEITURA RÁPIDA — 1 MINUTO
A União Europeia passou a aplicar, desde 3 de setembro de 2026, novas regras que retiraram o Brasil da lista de países autorizados a enviar ao bloco determinadas categorias de animais e produtos de origem animal.
A decisão atinge bovinos, equídeos, aves de capoeira, produtos da aquicultura, mel e tripas. O motivo apresentado pela Comissão Europeia foi a ausência, dentro do prazo estabelecido, de garantias consideradas suficientes de que o sistema brasileiro atenderia integralmente às novas regras europeias sobre o uso de medicamentos antimicrobianos.
As normas da União Europeia proíbem o uso de antimicrobianos para promover crescimento ou aumentar rendimento dos animais e também restringem medicamentos considerados reservados para o tratamento de determinadas infecções em seres humanos.
O impacto econômico é relevante. As exportações dos produtos atingidos representaram aproximadamente US$ 1,84 bilhão por ano, sendo cerca de US$ 1,05 bilhão em carne bovina e US$ 763 milhões em carne de frango em 2025.
Mas surgiu uma primeira sinalização favorável ao Brasil.
Em 4 de setembro, o Ministério da Agricultura informou que uma auditoria das autoridades europeias considerou satisfatórios os controles sanitários brasileiros nas cadeias de aves e mel.
A avaliação representa avanço, mas a volta das exportações ainda depende da reinclusão formal do Brasil na lista europeia.
LEITURA INTEGRAL
Restrição europeia já está valendo
A União Europeia colocou em vigor, na quinta-feira, 3 de setembro, novas exigências para a importação de animais e produtos de origem animal destinados ao consumo humano.
A nova regulamentação retirou do Brasil autorizações relacionadas a bovinos, equídeos, aves de capoeira, aquicultura, mel e tripas.
Segundo as autoridades europeias, não haviam sido apresentadas, dentro do prazo exigido, garantias consideradas suficientes de que o Brasil teria implementado todas as medidas necessárias para atender às normas sobre antimicrobianos.
É importante esclarecer que a medida não decorreu da descoberta de carne brasileira contaminada ou imprópria para consumo.
O problema é regulatório.
A União Europeia exige garantias oficiais de que os países exportadores cumpram suas regras durante todo o processo produtivo, especialmente quanto ao uso de determinados medicamentos antimicrobianos.
O que a União Europeia exige
As regras fazem parte da política europeia de combate à resistência aos antimicrobianos.
Para exportar alimentos de origem animal à União Europeia, países de fora do bloco precisam demonstrar que não utilizam determinados antimicrobianos como promotores de crescimento ou para aumentar a produtividade animal.
Também existem restrições ao uso de medicamentos considerados essenciais para determinados tratamentos em seres humanos.
Somente os países que apresentarem garantias consideradas suficientes permanecem nas listas de fornecedores autorizados.
Brasil adotou novos procedimentos
O Brasil vinha negociando com as autoridades europeias antes mesmo da entrada em vigor das restrições.
O governo brasileiro passou a adotar novos procedimentos de controle do uso de antimicrobianos na cadeia de proteínas e de produtos de origem animal.
Os protocolos foram apresentados às autoridades sanitárias europeias.
A avaliação, entretanto, não foi concluída a tempo de impedir que as restrições entrassem em vigor no dia 3 de setembro.
Aves e mel recebem sinal positivo
A situação começou a mudar já no dia seguinte.
Na sexta-feira, 4 de setembro, o Ministério da Agricultura informou que uma missão de autoridades sanitárias da União Europeia havia concluído uma auditoria no Brasil dedicada às cadeias produtivas de carne de aves e mel.
De acordo com o governo brasileiro, os controles sanitários e procedimentos oficiais apresentados foram considerados satisfatórios pelas equipes europeias.
A auditoria incluiu visitas a estabelecimentos produtivos e órgãos oficiais brasileiros.
O resultado, entretanto, não significa que as exportações já tenham sido automaticamente liberadas.
A União Europeia ainda precisa cumprir os procedimentos administrativos necessários para alterar oficialmente a relação de países e produtos autorizados.
Portanto, até este sábado, 5 de setembro de 2026, aves e mel ainda dependem dessa formalização para que o comércio seja integralmente restabelecido.
Carne bovina pode enfrentar caminho mais longo
A situação da carne bovina é considerada mais complexa.
Isso ocorre porque o ciclo de criação do gado é muito mais longo do que o das aves.
Enquanto um frango chega ao abate em poucas semanas, bovinos normalmente levam mais de dois anos para atingir a idade de comercialização.
Esse fator torna mais demorada a demonstração de que as exigências europeias foram observadas durante todo o ciclo de vida dos animais.
Algumas estimativas mencionam a possibilidade de um processo prolongado para o setor bovino.
Entretanto, não existe uma data oficial estabelecida pela União Europeia para a retomada das exportações brasileiras de carne bovina.
O País poderá voltar à lista de fornecedores quando apresentar as garantias exigidas e conseguir aprovação das autoridades europeias.
Prejuízo potencial chega a US$ 1,84 bilhão
As restrições atingem um comércio importante para o agronegócio brasileiro.
Os produtos envolvidos movimentaram aproximadamente US$ 1,84 bilhão em exportações anuais.
Em 2025, apenas a carne bovina representou aproximadamente US$ 1,05 bilhão, enquanto a carne de frango respondeu por cerca de US$ 763 milhões.
Além do volume financeiro, a União Europeia é especialmente importante porque compra cortes de maior valor agregado.
Por esse motivo, a perda temporária desse mercado não pode ser compensada automaticamente apenas com o redirecionamento das exportações para outros países.
Exportadores brasileiros reagem
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes manifestou preocupação com a interrupção das vendas para o mercado europeu.
A entidade informou que empresas brasileiras habilitadas para exportar à União Europeia aderiram a protocolos específicos de controle de antimicrobianos.
Os exportadores defendem que a questão é de natureza regulatória e não representa alteração na qualidade ou na segurança da carne brasileira.
A prioridade do setor passou a ser demonstrar às autoridades europeias que os mecanismos adotados pelo Brasil atendem às novas regras e conseguir a reinclusão do País na relação de fornecedores autorizados.
Governo brasileiro reage
A controvérsia ultrapassou a área sanitária e chegou também ao terreno diplomático e comercial.
O governo brasileiro informou que pretende continuar negociando com a União Europeia.
Brasília também sinalizou que, caso não seja encontrada uma solução considerada satisfatória, poderá avaliar instrumentos comerciais disponíveis, inclusive medidas baseadas no princípio da reciprocidade.
A questão ganha importância adicional porque alguns dos produtos atingidos fazem parte das negociações comerciais entre Mercosul e União Europeia.
O que acontece agora
A disputa entra agora em uma fase decisiva.
Para aves e mel, o Brasil conseguiu um avanço importante com o resultado favorável da auditoria encerrada em 4 de setembro.
O próximo passo é obter a alteração formal da lista europeia.
Para a carne bovina, o processo poderá ser mais complexo devido ao ciclo de produção dos animais e à necessidade de demonstrar conformidade com as regras europeias durante toda a cadeia produtiva.
Não existe, neste momento, uma data oficial para o encerramento das restrições.
A velocidade da retomada dependerá da análise técnica da Comissão Europeia, das garantias apresentadas pelo governo brasileiro e das negociações diplomáticas entre Brasília e Bruxelas.
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