Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 11 de setembro de 2026.
Em uma metrópole acostumada a consumir o fenômeno da cultura pop asiática pelas batidas frenéticas do K-pop ou pelas maratonas de novelas e séries no streaming, a literatura e as artes visuais da Coreia do Sul reivindicam seu espaço no solo paulistano para discutir questões urgentes: a opressão social, o machismo estrutural e a imaginação poética como forma de sobrevivência.
A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, montada no pavilhão do Distrito Anhembi, na Zona Norte, e um circuito paralelo de equipamentos culturais públicos na capital recebem nesta semana duas das mais celebradas vozes da literatura sul-coreana contemporânea: a ilustradora e autora Suzy Lee — laureada com o prestigiado prêmio mundial Hans Christian Andersen — e a romancista Lee Hong, que lança no Brasil o aclamado suspense psicológico “A Dama de Gangnam”.
A ENGRENAGEM DO FATO: O desembarque das autoras em São Paulo estrutura-se em uma dinâmica que extrapola os limites da feira comercial no Anhembi. A escritora Lee Hong apresenta ao leitor brasileiro a tradução inédita de sua obra, que mergulha nas entranhas da sociedade hipercompetitiva de Seul para acompanhar a derrocada da protagonista Oh Miná diante de cartas anônimas, chantagens e violência na vizinhança mais ostentosa da Ásia.
Além da participação nos painéis da Arena Cultural e no estande da Skeelo — ao lado da quadrinista e artista visual paulistana Ing Lee —, a escritora sobe ao palco da Universidade de São Paulo (USP), no Butantã, na próxima terça-feira (15), para um debate acadêmico gratuito e aberto ao público sobre personagens femininas que desafiam as amarras do patriarcado asiático.
Simultaneamente, Suzy Lee consolida uma verdadeira maratona formativa com leitores paulistanos. A artista visual comanda oficinas infantis na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no bairro do Bom Retiro — polo histórico de acolhimento da comunidade coreana em São Paulo —, abre uma exposição de ilustrações autorais no Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), na Avenida Paulista, e divide debates conceituais no Salão de Ideias da Bienal ao lado do consagrado escritor brasileiro Roger Mello, com encerramento previsto para a sede do Itaú Cultural.
Diferente do acesso pago nos pavilhões da feira comercial, a esmagadora maioria das atividades paralelas em museus, centros comunitários e na universidade pública ocorre de forma gratuita por ordem de chegada, permitindo que estudantes da rede pública e leitores da periferia participem sem a barreira do ingresso comercial.
VOZES E ANÁLISE: Para tradutores literários, pesquisadores de estudos asiáticos e educadores da rede básica de ensino, o intercâmbio com autoras contemporâneas desmonta a visão folclorizada e
superficial que o mercado do entretenimento costuma empurrar sobre o país asiático.
“A onda Hallyu muitas vezes é vendida como um produto estético pronto para o consumo rápido e padronizado. Quando trazemos nomes como Lee Hong e Suzy Lee para a universidade pública e para os centros de bairro, mostramos a verdadeira espinha dorsal da sociedade coreana: mulheres que escrevem com crueza sobre pressão social, saúde mental, isolamento urbano e maternidade. São dores e lutas que dialogam intimamente com a rotina de qualquer mulher trabalhadora de São Paulo”, destacam pesquisadores em literatura comparada e linguística da USP.
Entre os jovens leitores e entusiastas que lotam os auditórios do Bom Retiro e da Avenida Paulista, a presença física das escritoras rompe a distância geográfica: “A gente cresce achando que livro premiado internacionalmente é exclusividade de autores ocidentais que custam caro nas livrarias de shopping. Ver escritoras de Seul no palco de um centro cultural público e gratuito no Centro da nossa cidade prova que a literatura universal tem que circular onde o povo está”, comemoram estudantes e frequentadores dos encontros.
DADOS OFICIAIS:
- Evento Central: 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo (Distrito Anhembi, Avenida Olavo Fontoura, 1.209 – Santana, Zona Norte).
- Autoras Internacionais Confirmadas: Lee Hong (autora de “A Dama de Gangnam”) e Suzy Lee (autora e ilustradora, vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen).
- Obras em Foco: “A Dama de Gangnam” (thriller psicológico traduzido para o português por Bruna Giglio) e títulos do acervo infantil e poético de Suzy Lee.
- Locais de Encontros Gratuitos em SP: Centro Cultural Coreano no Brasil (Avenida Paulista), Complexo Cultural Oswald de Andrade (Bom Retiro), Cidade Universitária da USP (Butantã) e Itaú Cultural.
- Painéis Principais: Arena Cultural da Bienal, debate com a artista visual Ing Lee e conferência sobre literatura e protagonismo feminino contra normas sociais na FFLCH-USP.
- Regras de Acesso Externo: Entrada franca sujeita à capacidade dos auditórios por ordem de chegada nos centros culturais e espaços acadêmicos parceiros.
- Base Legal e Diretriz Cultural: Artigo 215 da Constituição Federal (garantia dos direitos culturais, proteção e difusão das manifestações e intercâmbio internacional) e Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de São Paulo (Lei Municipal nº 16.333/2015).
O RIGOR DA CULTURA: A cultura literária não pode ser privilégio enclausurado em bienais corporativas que cobram ingressos caros e empurram livros a valores proibitivos para a imensa maioria dos lares brasileiros. Livro bom é livro que circula, que instiga e que atinge o jovem da escola pública e o trabalhador que cruza a cidade no vagão do metrô.
A chegada de pensadoras e artistas sul-coreanas a São Paulo ganha relevância pública legítima justamente quando fura a bolha dos estandes comerciais e ocupa a Oswald de Andrade, a Paulista e as salas de aula da universidade pública sem cobrar um único centavo de pedágio do cidadão.
O poder público municipal e estadual tem a obrigação intransigível de apoiar e expandir circuitos dessa natureza: abrir as portas do patrimônio coletivo para debates profundos sobre igualdade, arte e formação crítica é o melhor antídoto contra o empobrecimento intelectual promovido pelo consumo raso das telas digitais.
A literatura existe para desassossegar o pensamento e conectar o ser humano à verdade do outro, seja em Seul ou na periferia de São Paulo.
AGORA A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR:
Você avalia que eventos literários e feiras do livro deveriam ser permanentemente gratuitos e descentralizados nas periferias da capital, ou a cultura e o hábito da leitura continuarão travados pelas barreiras de preços da indústria tradicional?
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