Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 11 de setembro de 2026.
Quem cruza a Avenida São João ou busca conexão nos terminais de ônibus da região central muitas vezes não repara no tesouro histórico que resiste, entre grades e o vaivém de pedestres, no coração da Praça Júlio Mesquita: a Fonte Monumental.
Popularizada pela memória afetiva da cidade com o apelido pitoresco de “Fonte das Lagostas”, a estrutura inaugurada em 1927 não é apenas uma imponente obra de arte talhada em mármore nobre; ela carrega o peso cívico de ser o primeiríssimo monumento público da maior metrópole do país idealizado e assinado pelas mãos de uma mulher: a brilhante escultora paulista Nicolina Vaz de Assis.
No entanto, prestes a completar um século de existência, o monumento que já inspirou versos de Adoniran Barbosa sintetiza o abandono das calçadas centrais e o descaso crônico do poder público com a preservação da memória escultórica paulistana.
A ENGRENAGEM DO FATO: A criação da obra remonta aos anos 1910, em pleno surto modernizador da capital do café, quando a Prefeitura de São Paulo encomendou uma fonte artística monumental destinada inicialmente a ocupar a Praça da Sé. A tarefa foi confiada a Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto (1874–1941), uma das poucas mulheres de sua época a desafiar as barreiras do meio artístico dominado por homens, com formação acadêmica no Brasil e temporada de aperfeiçoamento em ateliês de Paris.
Com a reurbanização da cidade e a inauguração da Praça Vitória — rebatizada em 1927 como Praça Júlio Mesquita —, o monumento encontrou ali o seu endereço definitivo. Esculpido em blocos maciços de mármore branco de Carrara e sustentado por granito, o conjunto desenvolve uma temática marinha e mitológica repleta de movimento: no topo, a figura vigorosa de um pescador munido de arpão domina o platô rochoso, ladeado por tritões, sereias, querubins aquáticos e grandes conchas receptoras.
O elemento que eternizou a peça no imaginário popular, contudo, foram os adornos originais em bronze fundido posicionados nas laterais, cujos formatos curvilíneos logo ganharam a alcunha de “lagostas”.
Nas últimas décadas, a obra transformou-se em alvo contínuo da predação urbana: o furto descontrolado de metais para venda ilegal em ferros-velhos clandestinos obrigou sucessivas intervenções de segurança, incluindo a retirada de elementos originais de bronze para guarda preventiva pelo Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), bombas d’água desligadas por longos períodos e a instalação de gradis de contenção que distanciam o cidadão do monumento.
VOZES E ANÁLISE: Para historiadores da arte, urbanistas e ativistas da igualdade de gênero nos espaços públicos, a Fonte Monumental precisa ser celebrada como um manifesto de vanguarda
feminina e resistência civilizatória.
“Nicolina Vaz produziu arte pública monumental em um tempo em que as mulheres sequer tinham direito formal ao voto no Brasil. A Fonte das Lagostas é a nossa Fontana di Trevi paulistana, um exemplo raro de refinamento neoclássico e art nouveau feito por uma escultora brasileira de primeira grandeza. Permitir que essa peça fique seca, pichada ou desfigurada pelo furto sistemático de suas peças de bronze é um crime contra a identidade cultural da capital”, pontuam pesquisadores em história visual e patrimônio edificado.
Entre comerciantes, trabalhadores dos bares vizinhos e transeuntes da Santa Ifigênia e da República, o sentimento de revolta mistura-se ao apego afetivo: “A praça já viu de tudo, de seresta na era de ouro do rádio ao comércio popular. Todo mundo conhece a fonte das lagostas, mas dói ver o mármore manchado de fuligem e os esguichos sem água. O trabalhador que passa por aqui merece ter uma praça limpa, arborizada e segura, onde a arte do nosso próprio povo seja tratada com a decência que merece”, afirmam frequentadores diários da Praça Júlio Mesquita.
DADOS OFICIAIS:
- Monumento Histórico: Fonte Monumental (popularmente conhecida como “Fonte das Lagostas”).
- Autoria e Pioneirismo: Escultora Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto (1874–1941) — primeiro monumento público de autoria feminina em São Paulo.
- Ano de Inauguração: 1927 (encomendada originalmente pela Prefeitura nos anos 1910).
- Localização Urbana: Praça Júlio Mesquita (antigo Largo dos Guayanases / Praça Vitória), Santa Ifigênia / República, Centro Histórico de São Paulo (SP).
- Composição e Materiais: Mármore branco de Carrara, base de granito e esculturas decorativas em bronze (lagostas e figuras mitológicas).
- Iconografia Central: Pescador empunhando arpão, sereias, tritões, meninos abraçados a peixes e conchas de vertimento de água.
- Instrumentos de Proteção: Tombamento municipal pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp – Resolução nº 37/1992) e estadual pelo Condephaat.
- Base Legal: Artigo 216 da Constituição Federal (preservação do patrimônio material brasileiro) e Lei Orgânica do Município de São Paulo.
O RIGOR DA CIDADE: Uma metrópole que não cuida da sua história e vira as costas para os seus monumentos é uma cidade que perde a alma. A Fonte Monumental da Praça Júlio Mesquita não é um bloco frio de pedra jogado no cruzamento: é um símbolo imortal da conquista da mulher no espaço cívico e do suor de uma das maiores artistas plásticas que o Brasil já produziu.
Tratar a degradação e o vandalismo no Centro como um destino inevitável é a desculpa dos administradores públicos incompetentes. A Prefeitura de São Paulo e os órgãos de fiscalização têm a obrigação inegociável de manter vigilância 24 horas sobre o patrimônio histórico, restaurar com rigor técnico as peças subtraídas e garantir água cristalina circulando nas fontes públicas todos os dias.
A praça pertence ao povo trabalhador, e a beleza do mármore de Nicolina Vaz tem que brilhar como exemplo de orgulho para as futuras gerações, e não como retrato da decadência urbana.
AGORA A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR:
Você acredita que a Prefeitura de São Paulo deve implantar policiamento preventivo permanente e restauro completo com reposição das peças na Fonte das Lagostas, ou as obras de arte históricas do Centro continuarão sendo esquecidas e depredadas pela falta de zeladoria pública?
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