QUEM É A IPB? ENTENDA A IGREJA QUE ELEGE NOVO PRESIDENTE E DEBATE LEGENDÁRIOS, MULHERES NO PÚLPITO E HOMOSSEXUALIDADE EM MANAUS
Uma das denominações protestantes mais antigas do Brasil reúne em Manaus quase 160 documentos para votação; Juarez Marcondes Filho assume após 24 anos de Roberto Brasileiro Silva, enquanto o Sínodo Tocantins pede restrição ao Legendários
LEITURA RÁPIDA — 1 MINUTO
São Paulo, terça-feira, 28 de julho de 2026 Centro Histórico da Cidade de SP
Por Redação do Jornal25News – Por Mário Marcovicchio
- Quem é a IPB: fundada em 1862 pelo missionário Ashbel Green Simonton e organizada como Sínodo autônomo em 1888, é a maior denominação presbiteriana e reformada do país — a 10ª maior denominação protestante do Brasil, com cerca de 703 mil membros e mais de 5.400 igrejas.
- Novo presidente: o reverendo Juarez Marcondes Filho foi eleito para o Supremo Concílio 2026–2030, encerrando o ciclo de 24 anos (seis mandatos) de Roberto Brasileiro Silva, que passa à vice-presidência.
- Legendários na mira: parecer do Sínodo Tocantins recomenda que membros da IPB não participem do movimento, por usar técnicas de coaching que, segundo os críticos, deslocam o centro da fé da obra de Cristo para o esforço humano.
- Mulheres na igreja: o plenário reexamina, mais uma vez, pedidos para liberar a atuação feminina na direção de cultos, na distribuição da Santa Ceia e na ordenação a diaconisas — temas que a IPB já havia fechado em resolução de 2022.
- Homossexualidade: a IPB mantém, desde 2022, resolução que classifica a própria inclinação homossexual como pecaminosa. O tema voltou ao debate público nesta semana porque a Igreja Presbiteriana Unida (IPU) — denominação menor, sem relação institucional com a IPB — aprovou o caminho oposto, autorizando pessoas LGBTQIAPN+ como membros e pastores.
LEITURA INTEGRAL
PARA QUEM NÃO CONHECE: O QUE É A IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL
Antes de entrar nas polêmicas, vale situar o leitor. A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) é uma denominação protestante de tradição calvinista/reformada, uma das mais antigas e tradicionais do país. Sua história começa com a chegada do missionário norte-americano Ashbel Green Simonton ao Rio de Janeiro, em 1859; ele organizou o primeiro presbitério em 1865 e ordenou o primeiro pastor brasileiro, José Manuel da Conceição.
Em setembro de 1888, os presbitérios então existentes se uniram e formaram o Sínodo da Igreja Presbiteriana do Brasil, tornando a denominação autônoma em relação às igrejas-mãe americanas — um marco de nacionalização do trabalho presbiteriano no país. Desde 1942, seu órgão máximo de governo se chama Supremo Concílio, sistema pelo qual pastores e presbíteros (líderes leigos) das igrejas locais deliberam coletivamente sobre doutrina, disciplina e administração — não há uma figura de “papa” ou bispo com autoridade individual.
Hoje a IPB é a maior denominação presbiteriana e reformada do Brasil e a 10ª maior denominação protestante do país, reunindo aproximadamente 703 mil membros em mais de 5.400 igrejas e congregações, organizados em cerca de 98 sínodos e 402 presbitérios.
Ao longo de sua história, a igreja também viveu cismas que deram origem a outras denominações presbiterianas — como a Igreja Presbiteriana Independente (1903) e a Igreja Presbiteriana Unida (1978), esta última fundada por lideranças que discordavam de posições conservadoras da IPB e que, agora em 2026, aprovou a inclusão de pessoas LGBTQIAPN+ — tema explicado mais abaixo.
A 41ª REUNIÃO DO SUPREMO CONCÍLIO E SUAS QUASE 160 PAUTAS
Entre 26 de julho e 2 de agosto, a Igreja Presbiteriana de Manaus sedia, pela primeira vez na Região Norte, a 41ª Reunião Ordinária do Supremo Concílio. Cerca de 160 documentos enviados por presbitérios, sínodos, juntas e comissões estão em pauta — todos previamente distribuídos a subcomissões, que emitem pareceres a serem votados pelo plenário. Entre os principais temas:
- Eleição da nova diretoria (já concluída): Juarez Marcondes Filho é o novo presidente; Roberto Brasileiro Silva assume a vice-presidência.
- Legendários: parecer do Sínodo Tocantins recomendando restrição à participação de membros da IPB no movimento.
- Atuação de mulheres na igreja: ao menos cinco relatórios tratam do tema, incluindo pedidos — vindos de sínodos como o Leste Fluminense e o da Zona da Mata Mineira, entre 2023 e 2026 — para liberar mulheres na direção de cultos, na distribuição da Santa Ceia e na ordenação como diaconisas. A Comissão de Legislação e Justiça já indicou parecer reafirmando a posição contrária, baseada na resolução de 2022, e recomendando que os concílios não voltem a submeter o tema sem “fatos novos”.
- Missões, finanças e educação teológica: relatórios administrativos, orçamentários e sobre o funcionamento de seminários também integram os quase 160 documentos.
POR QUE A QUESTÃO HOMOSSEXUAL VOLTOU AO NOTICIÁRIO
Diferente do Legendários, a posição da IPB sobre homossexualidade já está formalmente definida: a resolução SC/IPB-2022 (Doc. XXVI) declara que a própria inclinação homossexual — e não apenas o ato — é incompatível com o ensino bíblico e as confissões reformadas, citando o Catecismo Maior de Westminster. Não há, até o momento, indicação pública de que esse tema tenha sido reaberto como novo documento na pauta de 2026.
O assunto voltou a circular nesta semana, porém, por um motivo externo à IPB: entre 17 e 19 de julho, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU) — denominação menor, com sete presbitérios, fundada em 1978 por dissidentes que discordavam de posições conservadoras da própria IPB — aprovou em Assembleia Geral, em Salvador, a inclusão de pessoas LGBTQIAPN+ como membros e, cumpridos critérios vocacionais, também como pastores. A IPU proibiu ainda práticas de “cura gay” e deixou a decisão sobre ordenação a critério de cada igreja local, sem alterar formalmente sua doutrina geral.
É importante não confundir as duas instituições: a IPU não pertence à mesma estrutura da IPB e não tem qualquer papel na 41ª Reunião do Supremo Concílio em Manaus. Mas a coincidência de datas colocou lado a lado, no debate público, dois caminhos opostos dentro do presbiterianismo brasileiro — reforçando, pelo contraste, a discussão sobre até onde a IPB deve ir na revisão de temas de costumes.
O QUE UNE AS TRÊS CONTROVÉRSIAS, SEGUNDO SEUS CRÍTICOS
Para os setores mais conservadores da IPB — que sustentam tanto o parecer contra o Legendários quanto as resoluções sobre papel da mulher e homossexualidade —, o fio condutor das três discussões é o mesmo: a preocupação de que fundamentos teológicos alheios à tradição reformada (coaching motivacional, revisões de costumes, leituras progressistas da Escritura) desloquem o centro da fé cristã, que segundo a doutrina da IPB deve permanecer exclusivamente em Cristo, nas Escrituras e na graça — e não no esforço, na emoção ou em interpretações consideradas contrárias à Confissão de Westminster.
O QUE É O MOVIMENTO LEGENDÁRIOS
Criado na Guatemala em 2015 pelo pastor Chepe Putzu, o Legendários chegou ao Brasil em 2017 pelo pastor Ricardo Bernardes, da Igreja Embaixada (Balneário Camboriú), com a primeira imersão nacional em Santa Catarina, em novembro de 2018. O movimento promove retiros masculinos de três a quatro dias em ambientes naturais — trilhas, desgaste físico, restrição alimentar, uniformes e numeração dos participantes — e já reuniu no Brasil entre 41 mil e 50 mil homens, segundo levantamentos de 2025, incluindo nomes como Pablo Marçal, Thiago Nigro, Eliezer, Neymar da Silva Santos, Kaká Diniz e Tirullipa.
O parecer do Sínodo Tocantins argumenta que essas técnicas se aproximam do coaching corporativo e podem levar participantes a interpretar o desgaste físico e emocional como experiência espiritual — deslocando o centro da fé da obra de Cristo para a superação pessoal. O documento também questiona o uso da expressão “Legendário nº 001” para se referir a Jesus. O Legendários, por sua vez, afirma respeitar as denominações e não pretender substituir a igreja local.
O QUE VEM PELA FRENTE
Até o fechamento desta matéria, o plenário do Supremo Concílio não havia concluído a votação sobre o Legendários nem sobre os relatórios referentes à atuação de mulheres. As comissões seguem apresentando pareceres, que podem ser aprovados, rejeitados, modificados ou enviados para novos estudos até o encerramento da reunião, em 2 de agosto.
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