ELEIÇÕES 2026: CAMPANHA DE LULA ACENDE ALERTA CONTRA INTERFERÊNCIA EXTERNA APÓS APOIO DE TRUMP E MILEI A FLÁVIO
Temor concentra-se nas redes sociais, no uso de inteligência artificial e nos últimos dias antes da votação; governo dos Estados Unidos nega tentativa de interferir no processo eleitoral brasileiro
LEITURA RÁPIDA — 1 MINUTO
São Paulo, terça-feira, 28 de julho de 2026
Centro Histórico da Cidade de SP
Por Mário Marcovicchio
Integrantes do governo e da campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passaram a demonstrar preocupação com uma possível ampliação da influência de agentes estrangeiros nas eleições brasileiras de 2026.
O alerta ganhou força depois de o presidente da Argentina, Javier Milei, participar da convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. No evento, Milei declarou apoio ao senador, atacou Lula e fez críticas ao Supremo Tribunal Federal.
A preocupação também envolve o governo de Donald Trump. O Brasil negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado norte-americano que pretendiam visitar Brasília para discutir integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão. Autoridades brasileiras interpretaram a viagem como uma tentativa de lançar dúvidas sobre as urnas. O governo dos Estados Unidos negou essa intenção e afirmou que a visita seria institucional e rotineira.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, o principal temor da campanha de Lula está nos três ou quatro dias que antecederão a votação de 4 de outubro, período em que vídeos falsos, conteúdos produzidos por inteligência artificial e campanhas coordenadas poderiam alcançar milhões de eleitores antes de uma reação efetiva das plataformas e da Justiça Eleitoral.
Até o momento, porém, não foi apresentada publicamente uma prova conclusiva de que exista uma operação digital estrangeira clandestina e coordenada. O que está comprovado são manifestações de apoio político, declarações públicas e movimentações diplomáticas que elevaram a tensão entre Brasil, Argentina e Estados Unidos.
LEITURA INTEGRAL
Preocupação aumenta dentro do governo
A aproximação explícita entre Flávio Bolsonaro, Javier Milei e integrantes do governo de Donald Trump modificou a avaliação de auxiliares de Lula sobre o cenário eleitoral.
De acordo com relatos publicados pela imprensa, Lula considera que a disputa de 2026 apresenta riscos diferentes daqueles enfrentados em eleições anteriores. A combinação de redes sociais, inteligência artificial, conteúdos sintéticos e apoio internacional a candidaturas pode permitir que uma mensagem de grande impacto seja distribuída em poucas horas.
O foco da preocupação está especialmente nos dias imediatamente anteriores à votação, quando seria mais difícil identificar a origem das publicações, determinar responsabilidades e impedir que conteúdos falsos ou manipulados influenciem o eleitorado.
Aliados do presidente esperam uma atuação preventiva do Tribunal Superior Eleitoral. A regulamentação eleitoral estabelece limites para a propaganda nas redes e proíbe conteúdos sintéticos destinados a enganar o eleitor, especialmente as chamadas deepfakes. A aplicação das regras, entretanto, depende da análise do conteúdo, de sua identificação como material artificial e de seu potencial para causar danos à integridade do processo eleitoral.
Milei entra diretamente na campanha brasileira
O ponto de maior tensão ocorreu no sábado, 25 de julho, durante a convenção do Partido Liberal em São Paulo.
Javier Milei participou do evento em que Flávio Bolsonaro foi escolhido como candidato do PL à Presidência. O argentino declarou apoio ao senador e afirmou que ele poderia “parar Lula”. Durante o discurso, Milei também atacou o presidente brasileiro e dirigiu palavras ofensivas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A presença de um chefe de Estado estrangeiro em uma convenção partidária brasileira, defendendo uma candidatura e atacando autoridades nacionais, provocou forte reação diplomática.
O Itamaraty chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também manifestou ao representante argentino no Brasil a rejeição do governo às declarações de Milei.
Na Argentina, integrantes da oposição criticaram a conduta do presidente. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, afirmou que Milei não representava o sentimento de todos os argentinos e alertou para possíveis prejuízos comerciais e diplomáticos entre os dois países.
Governo Lula evita confronto direto
Apesar da reação do Itamaraty, Lula tem evitado alimentar um embate pessoal com o presidente argentino.
Questionado sobre as declarações de Milei, o presidente brasileiro limitou-se a ironizar: “Quem é esse cara?”. Nos bastidores, Lula teria orientado seus interlocutores a preservar os interesses econômicos e institucionais que unem Brasil e Argentina.
A estratégia não é seguida de maneira uniforme dentro do governo.
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de “palhaço”. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, classificou o argentino como uma “caricatura patética” e aliado subordinado a Donald Trump.
Integrantes do primeiro escalão e diplomatas consideraram que essas respostas poderiam aumentar o alcance das declarações de Milei nas redes sociais, transformando o confronto em instrumento de mobilização eleitoral.
Missão norte-americana foi barrada pelo Brasil
Outro episódio que ampliou a preocupação foi a tentativa de visita ao Brasil de dois funcionários do governo Trump: Riley M. Barnes e Samuel Samson, vinculados ao Departamento de Estado dos Estados Unidos.
Segundo autoridades brasileiras ouvidas pela Reuters, a missão poderia ser utilizada para questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro e influenciar a disputa presidencial. Por essa razão, os pedidos de visto foram negados.
O Departamento de Estado rejeitou a acusação. O governo norte-americano declarou que a viagem seria rotineira e teria como objetivos reuniões sobre integridade eleitoral, liberdade de expressão, liberdade religiosa e valores democráticos.
Portanto, existem duas versões claramente distintas: o governo brasileiro afirma ter identificado risco de exploração política da visita; os Estados Unidos sustentam que não havia qualquer plano para enfraquecer a confiança nas eleições brasileiras.
Urnas voltam ao centro da disputa
A preocupação aumentou após Flávio Bolsonaro defender a presença de observadores estrangeiros nas eleições e fazer declarações sobre a origem das urnas eletrônicas brasileiras.
Em encontro com representantes diplomáticos, Flávio relacionou as urnas brasileiras à empresa Smartmatic. Tanto o Tribunal Superior Eleitoral quanto a própria empresa informaram à Reuters que os equipamentos utilizados no Brasil não foram fornecidos pela Smartmatic. O senador declarou que não estava questionando a integridade do sistema eleitoral.
O episódio reabriu uma discussão sensível. Nas eleições de 2022, questionamentos sem provas sobre as urnas contribuíram para elevar a tensão política e foram posteriormente considerados pelo TSE em processos envolvendo abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação.
Inteligência artificial entra no debate
Na convenção do PL, também foi exibido um vídeo produzido com inteligência artificial representando o ex-presidente Jair Bolsonaro e apresentando Flávio como seu sucessor político.
O material informava que havia sido produzido por IA. Mesmo assim, partidos e especialistas passaram a discutir se a utilização da imagem digital poderia contornar restrições judiciais impostas ao ex-presidente.
Até agora, não existe decisão definitiva sobre o vídeo específico. Especialistas divergem sobre sua legalidade, especialmente porque a peça teria informado que se tratava de conteúdo artificial. O TSE permite determinados usos de inteligência artificial, mas proíbe materiais manipulados que enganem o eleitor ou prejudiquem a integridade da disputa.
Trump já foi advertido publicamente por Lula
A tensão entre Lula e Donald Trump não começou com a convenção do PL.
Em junho, Lula declarou que Trump tinha o direito de possuir preferência por determinado candidato, mas deveria permanecer fora das eleições brasileiras. A manifestação ocorreu depois de novas críticas do presidente norte-americano à situação política do Brasil.
Trump também recebeu Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos. Integrantes da família Bolsonaro mantêm interlocução com setores do governo norte-americano e buscam apoio internacional para suas posições políticas.
Essa aproximação é interpretada pela campanha petista como parte de uma articulação internacional conservadora. Para aliados de Flávio, trata-se de uma relação política legítima entre lideranças que compartilham ideias semelhantes.
Temor não pode ser apresentado como fato comprovado
É importante separar os fatos documentados das avaliações políticas.
Está comprovado que Milei participou de uma convenção partidária brasileira, declarou apoio a Flávio Bolsonaro e atacou autoridades do país. Também está confirmado que o Brasil negou vistos aos representantes norte-americanos e que Washington rejeitou as acusações de tentativa de interferência.
Entretanto, ainda não foi apresentada publicamente uma investigação que demonstre a existência de uma operação internacional clandestina, coordenada e ilegal nas redes sociais para alterar o resultado das eleições.
O temor manifestado pela campanha de Lula é, neste momento, uma avaliação preventiva baseada nos movimentos políticos recentes e na capacidade das plataformas digitais de distribuir conteúdos em escala nacional.
Eleição será decidida pelo eleitor brasileiro
A participação de governantes estrangeiros na disputa política brasileira deverá permanecer no centro do debate eleitoral.
De um lado, Lula pretende transformar a defesa da soberania nacional em uma das bandeiras de sua campanha. De outro, Flávio Bolsonaro busca apresentar suas alianças internacionais como demonstração de prestígio e integração com governos conservadores.
O desafio das instituições será garantir que manifestações políticas legítimas não se transformem em campanhas clandestinas, desinformação organizada ou utilização irregular de tecnologias capazes de enganar o eleitor.
A escolha do próximo presidente da República pertence exclusivamente ao povo brasileiro — e a fiscalização das redes sociais deverá ser uma das maiores provas enfrentadas pela Justiça Eleitoral em 2026.
APOIO INSTITUCIONAL
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