Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 14 de julho de 2026.
Você, que economiza o mês inteiro para garantir a mistura do final de semana no açougue do bairro e sabe muito bem o valor sagrado de acender o carvão no domingo para reunir a família, entende o poder da brasa.
O churrasco é o troféu do trabalhador paulistano. No entanto, no topo da pirâmide da gastronomia gourmet, a tradicional cultura do fogo virou um evento de gala com ingressos que custam quase um salário mínimo inteiro. O Festival Churrascada anunciou as novidades para a sua 11ª edição em São Paulo, batizada de “Fogo Sem Fronteiras”, evidenciando que a brasa nunca esteve tão valorizada — e tão cara.
A ENGRENAGEM DO FATO: A engrenagem desta 11ª edição do Festival Churrascada, que acontece nos dias 1º e 2 de agosto de 2026, traz como grande destaque a ocupação de um patrimônio histórico emblemático: a Casa das Retortas, uma construção centenária de 1889 localizada no Brás. O local, que no século XIX queimava carvão para iluminar os lampiões da cidade inteira, agora voltará a ver fumaça com mais de 40 estações de assadores nacionais e internacionais.
A principal estrela do evento é Esaul Ramos Jr., uma das maiores referências do autêntico barbecue texano nos Estados Unidos. Reconhecido por fundir as técnicas clássicas de defumação do Texas com os sabores marcantes da culinária mexicana, a presença do chef foi pensada para dialogar com a Copa do Mundo de 2026, sediada justamente na América do Norte. O festival funcionará no consagrado modelo open food e open beer, permitindo que o público consuma carnes premium de forma livre.
VOZES E ANÁLISE: Para os organizadores e entusiastas da alta gastronomia, o preço dos ingressos — que começam em R$ 699 por dia e chegam a R$ 1.190 no passaporte para o final de semana — é justificado pela curadoria internacional de peso e pela experiência de consumo sem limites de carnes nobres e bebidas inclusas.

Segundo Gabriel Carvalho, CEO do grupo organizador, o festival alcançou maturidade ao conectar as diferentes culturas das Américas em torno do fogo. Contudo, críticos e defensores da gastronomia popular, acendem o debate sobre a elitização do churrasco.
O preço cobrado para comer carne por algumas horas em um espaço histórico da capital, equivale a quase 10% de um salário mínimo nacional, o que restringe o acesso ao evento apenas à parcela de altíssima renda. Para muitos paulistanos, o churrasco, que nasceu como uma celebração democrática e de rua, acabou se transformando em um produto de grife inacessível para quem de fato constrói e move a cidade diariamente.
DADOS OFICIAIS:
- Preço dos Ingressos: R$ 699,00 por dia ou R$ 1.190,00 para o passaporte de dois dias, com vendas realizadas pela plataforma Ingresse.
- Atrações Confirmadas: Esaul Ramos Jr. (Texas BBQ), Carlos Bertolazzi, Paula Labaki, Jeferson Finger, Jimmy McManis, Flávio Saldanha, entre outros.
- Localização: Casa das Retortas — Rua da Figueira, 77 / Rua Silva Pinto, 91, Brás/Bom Retiro, São Paulo (SP).
- Impacto Social: O evento impulsiona o turismo de luxo na capital, mas evidencia o forte processo de gentrificação do lazer e da alimentação urbana, onde o patrimônio histórico público serve como cenário para experiências gastronômicas de acesso restrito.
O RIGOR DA LEI: O paulistano honesto trabalha duro e tem todo o direito de usufruir de eventos culturais na cidade. No entanto, o uso de espaços históricos e tombados como a Casa das Retortas para eventos privados de altíssimo custo, precisa vir acompanhado de contrapartidas sociais claras para a comunidade. O patrimônio público não pode servir apenas como pano de fundo estético para o consumo das elites.
As autoridades municipais e os órgãos de preservação histórica, têm o dever de fiscalizar com rigor as condições de segurança da estrutura centenária, garantindo que o calor intenso das dezenas de toneladas de carvão e lenha, não danifique a integridade do tijolo aparente e das estruturas de ferro da antiga usina de gás. A preservação da nossa história de trabalho deve ser tratada como prioridade máxima, acima de qualquer interesse comercial de fim de semana.
AGORA A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR:
Você acredita que pagar quase R$ 700 por um único dia de festival de churrasco gourmet é um preço justo pela presença de chefs renomados e pelo formato open bar e open food, ou a gourmetização do churrasco destruiu a essência popular de um ritual que deveria ser simples e acessível a todos?
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