O SEPULTAMENTO DO STF
A Constituição não criou uma casta de intocáveis.
Editorial Olhar 360º — Mário Marcovicchio
Leitura Rápida — 1 Minuto
Faço minhas as palavras do jornalista e analista político Demétrio Magnoli: assistimos a um dia triste para o Brasil.

O que ocorreu no Supremo Tribunal Federal não se limitou a uma discussão jurídica. O país acompanhou ministros trocando acusações, levantando suspeitas e transformando a mais alta Corte brasileira em palco de um confronto público incompatível com a serenidade exigida de um tribunal constitucional.
No centro da crise está uma pergunta simples: um ministro do STF pode ser investigado como qualquer cidadão?
O pedido de apuração envolvendo Alexandre de Moraes e suas relações com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, deveria ter recebido uma resposta técnica, transparente e impessoal.
Em vez disso, o Brasil assistiu a discursos políticos, acusações contra Bolsonaro, referências a Donald Trump, apelos à soberania nacional e uma disputa interna que desviou a atenção da questão principal.
A soberania não pode servir como escudo contra investigações. A democracia não pode significar imunidade para autoridades. A toga não pode colocar ninguém acima da lei.
O STF continua existindo formalmente. Mas sua autoridade moral saiu profundamente ferida daquela sessão.
Leitura Integral
Demétrio Magnoli definiu aquela sessão como o velório do Supremo Tribunal Federal.
Eu vou além: o Brasil testemunhou o sepultamento da imagem de imparcialidade, equilíbrio e superioridade moral que a mais alta Corte do país deveria preservar.
Não se trata de comemorar a destruição de uma instituição. Muito pelo contrário. O enfraquecimento do Supremo é uma tragédia para a democracia brasileira.
Um país precisa de um tribunal constitucional forte, respeitado e independente. Mas força institucional não nasce do medo, da censura ou da impossibilidade de investigar seus integrantes. A verdadeira autoridade nasce da confiança pública, da transparência e da submissão de todos à mesma lei.
Na sessão, vimos momentos que pareciam pertencer a qualquer ambiente, menos ao plenário de uma Suprema Corte.
Ministros trocaram acusações, insinuações e palavras duríssimas. Divergências jurídicas transformaram-se em confrontos pessoais. A serenidade foi substituída pela hostilidade. A liturgia do cargo desapareceu diante de milhões de brasileiros.
A ministra Cármen Lúcia reconheceu que aquele era um dia triste e pediu desculpas ao país.
Sua manifestação revelou a dimensão da crise. Quando uma ministra do Supremo sente a necessidade de pedir desculpas ao povo brasileiro pelo comportamento da própria Corte, é porque alguma coisa muito grave aconteceu.
Não foi apenas uma sessão tumultuada.
Foi a exposição pública de uma instituição dividida, fragilizada e aparentemente incapaz de responder com naturalidade a questionamentos envolvendo um de seus próprios integrantes.
A pergunta que o Supremo evitou responder
A questão central não era Jair Bolsonaro.
Também não era Donald Trump.
A questão não era a esquerda, a direita ou a eleição presidencial.
A pergunta era objetiva:
Existem elementos suficientes para justificar uma investigação sobre a atuação de Alexandre de Moraes no caso Banco Master?
Essa pergunta deveria ter sido respondida com base na Constituição, nas leis, nos documentos e nos fatos.
Entretanto, Alexandre de Moraes relacionou o pedido de investigação a uma suposta vingança política de Bolsonaro. Flávio Dino, por sua vez, invocou a soberania nacional e fez referências ao governo de Donald Trump.
Esses argumentos podem ter importância no debate político, mas não respondem à questão principal.
Bolsonaro não elaborou o contrato milionário firmado entre o Banco Master e o escritório da família de Alexandre de Moraes.
Trump não produziu os registros eletrônicos que indicaram a participação do ministro na análise e edição do documento.
Também não foram adversários políticos que colocaram o nome de Moraes em meio às apurações envolvendo Daniel Vorcaro.
Os fatos surgiram de documentos, mensagens e materiais recolhidos durante uma investigação policial. É esse conteúdo que deve ser examinado com independência.
O escritório de Viviane Barci de Moraes confirmou que o ministro analisou a minuta do contrato para verificar a existência de eventuais impedimentos. A banca sustenta que não houve ilegalidade e afirma que Moraes nunca julgou causas envolvendo o Banco Master.
Essa explicação deve ser considerada.
Mas considerar uma explicação não significa impedir uma investigação.
Significa justamente permitir que as instituições competentes examinem os fatos, ouçam todas as partes e apresentem uma conclusão fundamentada.
Investigar não significa condenar
É necessário dizer com clareza: investigação não é condenação.
Alexandre de Moraes, como qualquer cidadão, tem direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.
Mas esses direitos não podem ser transformados em privilégios que impeçam o esclarecimento dos fatos.
Quando existem dúvidas relevantes sobre a atuação de uma autoridade pública, a investigação protege não apenas a sociedade, mas também a própria autoridade investigada.
Se nada houve de ilegal, uma apuração independente poderá demonstrar isso.
O que destrói a confiança pública é a impressão de que determinadas pessoas não podem sequer ser investigadas.
A resistência do Supremo em permitir uma apuração transparente transmite ao país uma mensagem perigosa: existem brasileiros submetidos à lei e existem autoridades protegidas pela própria instituição à qual pertencem.
Não podemos aceitar essa divisão.
A Constituição não criou uma casta de intocáveis.
Quem julga os julgadores?
O Supremo Tribunal Federal ocupa o ponto mais alto do Poder Judiciário brasileiro. Suas decisões alcançam presidentes, governadores, parlamentares, empresários, jornalistas e cidadãos comuns.
Mas quem fiscaliza o Supremo?
Quem investiga os ministros quando surgem indícios que merecem esclarecimento?
Quem impede que relações pessoais, interesses familiares ou alianças internas interfiram no funcionamento da Justiça?
Uma democracia não pode depender apenas da consciência individual de onze ministros.
Ela precisa de regras, limites e mecanismos de controle.
Independência judicial não significa ausência de responsabilidade. Garantia institucional não significa impunidade. Prerrogativa funcional não significa licença para agir sem fiscalização.
Quanto maior o poder, maior deve ser a obrigação de prestar contas.
A lei não pode existir apenas para a “plebe”
Demétrio Magnoli encerrou seu comentário com uma frase devastadora: a sessão teria transmitido ao Brasil a impressão de que a lei vale para a “plebe”, mas não para o Supremo.
Essa percepção, ainda que apresentada como crítica política, deveria preocupar profundamente todos os ministros.
Quando a população começa a acreditar que a Justiça funciona de maneira diferente conforme o nome, o cargo ou o poder econômico do envolvido, o Estado de Direito entra em colapso.
A Justiça não pode ser rigorosa com o cidadão comum e complacente com aqueles que ocupam os cargos mais elevados da República.
Não pode prender primeiro e investigar depois em determinados casos, enquanto impede até mesmo o início de uma apuração quando um ministro aparece no centro das suspeitas.
A lei deve ser igual para todos.
Sem exceções.
Sem castas.
Sem protegidos.
O Supremo ainda pode ressurgir
O título deste editorial é duro: O sepultamento do STF.
Mas instituições não são pessoas. Elas podem morrer moralmente e, ainda assim, renascer por meio de reformas, transparência e responsabilidade.
O Supremo poderá recuperar a confiança do país se abandonar o corporativismo, permitir investigações independentes e demonstrar que nenhum de seus integrantes está acima da Constituição.
Para isso, seus ministros precisam compreender que defender o STF não é proteger individualmente cada integrante da Corte.
Defender o STF é proteger a credibilidade da instituição.
É aceitar a fiscalização.
É respeitar os limites constitucionais.
É reconhecer os próprios erros.
É dar ao povo brasileiro respostas claras.
Se o Supremo escolher o caminho da transparência, poderá reconstruir sua autoridade.
Se escolher o silêncio, a blindagem e a proteção corporativa, continuará existindo no papel, com seus prédios, ministros, sessões e decisões — mas estará morto na consciência de grande parte da população.
Faço minhas as palavras de Demétrio Magnoli.
O Brasil assistiu a um velório.
Agora cabe ao próprio Supremo decidir se haverá ressurreição institucional ou se aquele dia será lembrado como o momento em que a mais alta Corte do país perdeu definitivamente a confiança dos brasileiros.
A Justiça deve ser para todos.
A lei deve ser para todos.
Ninguém está acima da Constituição.
Mário Marcovicchio
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Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 17 de setembro de 2026.
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Transparência total — Assista ao comentário original
Este editorial foi elaborado a partir do comentário do jornalista e analista político Demétrio Magnoli.
Em respeito aos nossos leitores e ao compromisso do Jornal25News com a transparência, disponibilizamos abaixo a transcrição integral do comentário e o acesso ao vídeo original.
Transcrição integral
Demétrio Magnoli:
“Um dia triste. E, nesse ponto, ela acertou. Eu acho que a imensa maioria dos brasileiros concordará com ela.
Ela não foi adiante e não disse que esse é o dia em que houve o velório do Supremo Tribunal Federal.
É isso que aconteceu hoje.
O velório do Supremo Tribunal Federal.
O Supremo Tribunal Federal morreu.
Nós tivemos momentos nessa sessão em que, no lugar de um tribunal superior, a impressão que se tinha era a de uma reunião de gângsteres rivais, que lançavam acusações e insinuações criminais uns contra os outros.
Nós tivemos também momentos farsescos, como quando Alexandre de Moraes atribuiu a uma vingança de Bolsonaro a proposta de se investigar Alexandre de Moraes.
É farsesco, não é?
Duvido que Bolsonaro tenha obrigado Alexandre de Moraes a assinar um contrato multimilionário suspeito com Vorcaro.
Duvido que Bolsonaro tenha obrigado Alexandre de Moraes a trocar mensagens com Vorcaro poucas horas antes da prisão de Vorcaro.
Veja: quando a gente fala de Alexandre de Moraes, nós estamos falando de alguém sobre quem não se sabe muita coisa, porque o Supremo não deixa que se investigue. Mas uma coisa se sabe.
Ele tinha uma vida dupla: na vida pública, ministro do Supremo; na vida privada, advogado de Vorcaro.
E eu não estou falando isso como modo de dizer.
Ele editou o contrato do escritório de advocacia dos familiares dele. E editar um contrato é um ato advocatício.
Editar um contrato de serviços advocatícios é um ato de advogado.
Então, contrariando todas as normas — e ninguém falou sobre isso no Supremo —, o ministro do Supremo atuava como advogado de Vorcaro.
Isso não é culpa de Bolsonaro.
Enquanto isso, Flávio Dino atribuiu a Trump, a Donald Trump, o problema que se discutia, levantando o tempo todo a bandeira da soberania como forma de impedir que se investigue o ministro Alexandre de Moraes.
E nós tivemos, como resultado dessa sessão fúnebre do Supremo, a constatação de que o Supremo, por meio de um bloco formado lá, impede que a lei se aplique sobre integrantes do Supremo, que não podem nem mesmo ser investigados.
A lei é para a plebe.
A lei não é para o Supremo.
É isso que o Supremo disse hoje ao Brasil.”




















































