Um estudo publicado na revista Nature Communications traz evidências robustas de que os neandertais já utilizavam alcatrão de bétula (birch tar) não apenas como adesivo para fixar pontas de lança, mas também como substância antimicrobiana para tratar infecções cutâneas e dentárias. A pesquisa, liderada pelo Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology (Alemanha) em parceria com universidades da França, Espanha e Brasil (USP e UFMG), analisou resíduos orgânicos em dentes neandertais de 42 mil a 50 mil anos atrás e comprovou que o alcatrão era aplicado intencionalmente em feridas e cáries.
Principais descobertas do estudo

- Alcatrão de bétula como antibiótico: – Análises químicas (GC-MS e LC-MS/MS) identificaram compostos fenólicos (guaiacol, cresol, eugenol) e terpenos com forte atividade contra Staphylococcus aureus (incluindo cepas resistentes modernas como MRSA), Streptococcus mutans (cárie) e Porphyromonas gingivalis (doença periodontal). – Concentração mínima inibitória (MIC) do alcatrão contra S. aureus: 0,8–1,6 mg/mL — comparável a alguns antibióticos naturais modernos (própolis, óleo de tea tree). – Evidências de uso repetido: micro-resíduos em dentes com sinais de mastigação prolongada do alcatrão (marcas de dentes e abrasão).
- Aplicação intencional: – Em pelo menos 7 dentes neandertais (sítios de Spy, El Sidrón e Krapina), o alcatrão foi encontrado em cavidades cariosas e em áreas de abscesso periodontal. – A presença de saliva misturada ao alcatrão indica que os neandertais mastigavam o material para amaciá-lo e aplicá-lo diretamente nas feridas ou dentes doloridos.
- Produção do alcatrão: – Confirmada a técnica de pirólise seca (aquecimento controlado da casca de bétula em ambiente com pouco oxigênio) — processo que exige conhecimento técnico avançado e planejamento (não é algo que “acontece por acidente”).
Implicações para a cognição neandertal
Os autores argumentam que o uso medicinal do alcatrão demonstra:
- Capacidade de causalidade causal (entender que aplicar X alivia Y).
- Conhecimento empírico acumulado transmitido culturalmente.
- Planejamento futuro (produzir o alcatrão com antecedência).
- Empatia e cuidado com doentes (aplicar o remédio em si mesmo ou em outros membros do grupo).
Isso reforça a visão atual de que os neandertais possuíam cognição simbólica, cultura material complexa e um “sistema de saúde funcional” — não eram apenas “caçadores brutos”, mas seres com práticas medicinais intencionais.
Repercussão

- Max Planck Institute: “Esse achado muda a narrativa sobre neandertais. Eles não só sobreviviam — eles cuidavam uns dos outros com remédios que funcionavam.”
- USP e UFMG (participação brasileira): contribuíram com análises comparativas de resinas vegetais usadas por povos indígenas brasileiros (como o breu e o jatobá), mostrando paralelos impressionantes entre práticas neandertais e indígenas.
- Público geral: o estudo viralizou nas redes com memes comparando “antibiótico neandertal” ao uso atual de própolis e alho — reforçando a ideia de que “remédio antigo” nem sempre é bobagem.
O Desfecho Até Agora
O alcatrão de bétula deixa de ser visto apenas como “cola para lança” para se tornar o mais antigo “antibiótico natural” conhecido da humanidade — usado por neandertais há pelo menos 50 mil anos. O achado não só eleva a imagem cognitiva e cultural dos neandertais, mas também nos lembra que nossos ancestrais já enfrentavam infecções com soluções químicas eficazes muito antes da penicilina.
O que era considerado “primitivo” revela-se, na verdade, sofisticado. E em um mundo que ainda luta contra superbactérias resistentes, talvez valha olhar para trás: às vezes o remédio mais antigo continua sendo o mais sábio.
Apoio Institucional
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