XADREZ EM SP: Investigação sobre programa de Wi-Fi e filme biográfico abre guerra de narrativas na capital
Centro Histórico da Cidade de SP, 02.06.26
Mário Marcovicchio
O cenário político e policial paulista transformou-se em um complexo tabuleiro de disputa após a deflagração da “Operação Wi-Fi” pela Polícia Civil de São Paulo. A investigação, que apura supostos desvios em contratos de conectividade pública da prefeitura, transcendeu a esfera jurídica e converteu-se em uma intensa guerra de narrativas eleitorais, envolvendo a gestão municipal, o governo estadual e a oposição de esquerda.
No centro do caso está o Contrato 01/SMIT/2024, firmado entre a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) e o Instituto Conhecer Brasil (ICB). O acordo, aditivado para R$ 157,1 milhões, previa a instalação de 5.000 pontos do programa Wi-Fi Livre SP em regiões periféricas.
A Polícia Civil e o Ministério Público apontam indícios de superfaturamento de até 230% em relação aos valores de mercado. Relatórios preliminares indicam que, apesar de repasses iniciais na ordem de R$ 26 milhões para a cobertura de milhares de pontos, apenas uma fração irrisória estava em pleno funcionamento no período auditado.
O Elo com o Cinema e as Suspeitas de Desvio
A investigação ganhou contornos nacionais ao cruzar caminhos com o setor cinematográfico. A presidente do ICB, Karina Ferreira da Gama, também é proprietária da Go UP Entertainment, produtora responsável pelo desenvolvimento de um longa-metragem sobre a biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, intitulado “Dark Horse”.
A principal linha investigativa da polícia trabalha com a hipótese de “confusão patrimonial”, apurando se os recursos públicos vertidos para a instalação da rede de internet foram, por meio de subcontratações e notas fiscais suspeitas, desviados para custear a produção do filme ou eventos privados.
O projeto audiovisual também é alvo de escrutínio em outras frentes. O Supremo Tribunal Federal (STF) acompanha o repasse de R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinados à mesma ONG pelo deputado federal Mário Frias, autor do roteiro do filme. Paralelamente, diálogos obtidos pela investigação apontam a intermediação do senador Flávio Bolsonaro (PL) para a captação de R$ 61 milhões junto a agentes financeiros privados.
O Contraponto das Gestões e a Tese de Fogo Amigo na Direita
A operação deflagrada pela Polícia Civil — instituição subordinada ao Governo do Estado de São Paulo — provocou forte reação na ala aliada ao prefeito Ricardo Nunes (MDB) e no núcleo bolsonarista.
O prefeito Ricardo Nunes manifestou veemente incômodo com o direcionamento das buscas, classificando o episódio como um “desrespeito à democracia” e sugerindo a existência de “motivação política” por trás da ação. A defesa formal da prefeitura sustenta a total lisura do processo licitatório, argumentando que os valores pactuados por ponto de internet para as metas atuais são, inclusive, inferiores aos praticados em contratos de anos anteriores (como em 2022).
O senador Flávio Bolsonaro endossou as críticas, alegando o uso do aparelho estatal para interferência no cenário político e reiterando que a produção cinematográfica possui “zero de recursos públicos”. Nos bastidores, o avanço do caso gerou ruídos entre o bloco bolsonarista e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), alimentando teorias de disputas internas pelo espólio político da direita no estado.
A Tese de Exploração Política e “Vazamentos Seletivos”
Parlamentares e influenciadores alinhados à Prefeitura e ao Governo do Estado argumentam que a esquerda está se aproveitando de investigações que ainda estão em fase inicial para criar um tribunal de exceção na opinião pública. Os principais argumentos dessa vertente são:
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Falta de Comprovação e Condenação Antecipada: Defensores do prefeito e do governador apontam que as matérias veiculadas na imprensa se baseiam em relatórios preliminares da polícia e em denúncias de opositores, sem que haja qualquer decisão judicial transitada em julgado. Para eles, há uma pressa em “condenar” o projeto de conectividade pública antes mesmo do amplo direito de defesa.
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Criação de Cortinas de Fumaça: Há a leitura de que a esquerda tenta hiperbolizar o “Caso Dark Horse” para desviar o foco de problemas internos de suas próprias gestões ou de investigações que miram partidos de oposição.
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Incêndio Midiático: Críticos da atuação da esquerda afirmam que blogs e veículos de comunicação alinhados à oposição agem nos bastidores alimentando a imprensa tradicional com recortes parciais dos autos, com o objetivo de inflar os valores e desenhar um cenário de corrupção sistêmica que ainda não foi provado pela Justiça.
O Impacto Eleitoral e a Disputa de Narrativas
Para os aliados de Nunes e Tarcísio, o interesse real da esquerda não é a fiscalização do dinheiro público, mas sim a desestabilização política de duas gestões de direita bem avaliadas.
Ao carimbar o programa de Wi-Fi da periferia como superfaturado e associá-lo a um filme sobre a biografia de Jair Bolsonaro, a oposição busca criar um desgaste duplo:
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│ Estratégia de Desgaste │
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Alvos do discurso político da oposição:
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│ No Âmbito Municipal │ │ No Âmbito Estadual │
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│ Fragilizar a agenda social │ │ Tentar quebrar a imagem de │
│ de Nunes na periferia. │ │ eficiência técnica de │
│ │ │ Tarcísio de Freitas. │
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Em suma, enquanto a polícia tenta seguir a linha técnico-financeira dos contratos, o caso virou uma verdadeira guerra de narrativas: de um lado, a esquerda tentando capitalizar o escândalo para minar a força da direita em São Paulo; de outro, os defensores das gestões atual e estadual denunciando uma engrenagem de perseguição e difamação sem provas .


















































