O GRITO DE SOCORRO DA 25 DE MARÇO E BRÁS
Análise: enquanto o varejo brasileiro cresce em média, a 25 de Março e o Brás relatam um esvaziamento que os indicadores oficiais não captam — e que o poder público, até aqui, não investigou a fundo
Por Mário Marcovicchio | Editor São Paulo, 29 de agosto de 2026
Em uma manhã de terça-feira na Rua 25 de Março, um comerciante resumiu, em uma frase, o que dezenas de outros repetiram ao longo dos últimos meses a repórteres deste jornal: “Antes se faziam fortunas aqui. Hoje lutamos para pagar as contas.” A frase não é um lamento isolado. É, segundo a apuração deste jornal, um padrão — e padrões, em jornalismo, merecem investigação, não apenas empatia.
Este editorial não pretende narrar um colapso. Pretende descrever, com o rigor que os números permitem e a cautela que a ausência de dados regionais exige, uma distância crescente entre a economia que os indicadores nacionais descrevem e a economia que se vive, todos os dias, em um dos maiores centros comerciais populares da América Latina.
O que os números dizem — e o que não dizem
O varejo brasileiro, tomado como um todo, não está em crise. As vendas cresceram no primeiro semestre de 2026 e a cidade de São Paulo registrou saldo positivo de empregos formais no período. Um leitor apressado poderia parar por aí.
Mas dentro desse quadro nacional favorável, o comércio foi o único entre os cinco grandes setores da economia a fechar vagas no primeiro semestre — e voltou a fechá-las em julho. Mais de 9 milhões de empresas brasileiras seguem inadimplentes, a maioria delas micro e pequenos negócios, com São Paulo à frente dessa estatística. No mesmo período, o comércio eletrônico faturou mais de R$ 200 bilhões em seis meses, crescendo a taxas de dois dígitos — uma migração de consumo que atinge com especial força o varejo físico de rua, exatamente o modelo predominante na 25 de Março e no Brás.
Não existe, até o momento, um indicador econômico oficial específico para essas duas regiões. É essa lacuna — não a ausência de crescimento nacional — que este jornal aponta como o primeiro problema a ser resolvido: sem dados desagregados por território, o poder público formula política pública às cegas sobre uma das maiores economias populares do país.
Segurança: um custo que não aparece em nenhuma nota fiscal
Não há atividade comercial sustentável onde a confiança do consumidor é minada pelo medo. A Operação Ouro Reverso, deflagrada contra uma cadeia de roubo e receptação de joias e ouro com ramificações identificadas na região da 25 de Março e da Praça da Sé, não deve ser lida como um episódio isolado, mas como evidência de um problema estrutural de segurança patrimonial na região.
Este jornal também recebe, com regularidade, relatos de comerciantes sobre supostas irregularidades envolvendo agentes públicos — cobranças fora do padrão, fiscalizações seletivas, omissões que se repetem. Nenhuma acusação genérica será feita aqui contra policiais, fiscais ou servidores: apuração jornalística responsável não se constrói sobre suspeita não verificada. Mas o volume e a consistência desses relatos justificam, por si só, que sejam formalmente investigados por órgãos de controle — e que o silêncio institucional diante deles deixe de ser a resposta padrão.
O paradoxo do emprego
Poucas imagens ilustram melhor a falha de coordenação entre poder público e território do que placas de “contrata-se” penduradas por meses nas mesmas lojas onde moradores da região dizem não encontrar trabalho. O programa Contrata SP — Brás, lançado em 2025 com a meta de dez mil oportunidades, é uma iniciativa bem-vinda. Um ano depois, contudo, o paradoxo entre vagas abertas e mão de obra não absorvida persiste — evidência de que o problema não está na disposição do comerciante em contratar, mas na articulação, ainda incompleta, entre poder público, entidades de classe e política de qualificação profissional. Essa lacuna tem responsáveis definidos: os governos federal, estadual e municipal.
Um modelo de negócio em transição, não um setor em colapso
Seria impreciso — e este jornal evita imprecisão — descrever o comércio brasileiro como um todo em crise. O que atravessa dificuldade específica é um modelo: o pequeno e médio varejo físico, dependente de fluxo de pedestres, crédito caro e mão de obra escassa, diante de uma transformação estrutural do consumo que os indicadores agregados do país ainda não conseguem localizar com precisão territorial.
O que este jornal cobra do poder público
Um editorial que apenas descreve um problema cumpre metade de sua função. A outra metade é indicar, com objetividade, o que compete às autoridades resolver. Este jornal cobra da Prefeitura de São Paulo, do Governo do Estado e do Governo Federal:
- Presença permanente de segurança pública e fiscalização urbana na região — não apenas em resposta a reportagens publicadas.
- Apuração formal e transparente de toda suspeita de irregularidade ou conivência envolvendo agentes públicos na 25 de Março e no Brás.
- Linha de crédito diferenciada para micro e pequenos comerciantes inadimplentes, hoje submetidos a taxas de juros calculadas para a economia nacional, não para o varejo popular.
- Programas efetivos de qualificação e intermediação de mão de obra, capazes de resolver o descompasso entre vagas abertas e desemprego local.
- Apoio à digitalização do pequeno comerciante, para que possa competir com o comércio eletrônico, em vez de apenas perder espaço para ele.
Nenhuma dessas medidas é concessão. São obrigações de quem arrecada tributos, tem o dever constitucional de garantir segurança e planeja o espaço urbano em nome de toda a cidade — inclusive, e sobretudo, em nome de quem vende na 25 de Março e no Brás.
O diagnóstico por trás da frase
“Antes se fazia fortuna aqui. Hoje tentamos sobreviver pagando as contas.”
A frase, ouvida por este jornal na rua e não em gabinete, não é nostalgia. É diagnóstico. E diagnósticos ignorados, em jornalismo como em saúde pública, tendem a se tornar sentenças.
A 25 de Março e o Brás não pedem privilégio. Pedem as condições mínimas — segurança, crédito, mão de obra qualificada e infraestrutura digital — para continuar sendo o que sempre foram: o maior polo comercial popular do país. Este jornal continuará apurando, publicando e cobrando resposta.
25NEWS — Jornalismo com Responsabilidade Social





















































