Editorial · 360º
A derrota da seleção
e o espelho de um país sem direção
Entre a eliminação precoce na Copa, o escândalo que atinge dois ministros do Supremo e a busca de apoio político no exterior, o Brasil enfrenta uma crise que ultrapassa o futebol
Por Mário Marcovicchio
São Paulo · Segunda-feira, 6 de julho de 2026 · Jornal25News
Ilustração — Jornal25NewsAeliminação do Brasil para a Noruega, ainda nas oitavas de final da Copa do Mundo, marcou a pior campanha nacional em um Mundial desde 1990 — a sexta consecutiva sem título. Não se trata de atribuir ao esporte uma explicação total sobre o país. Mas a imagem de uma seleção hesitante, incapaz de reagir diante da adversidade, tornou-se difícil de dissociar de um cenário institucional que, por razões distintas, apresenta sintomas semelhantes.
Essa não é uma afirmação sobre o caráter do povo brasileiro, que continua sustentando o país com trabalho e tributos. É uma observação sobre a distância crescente entre o cidadão comum e as instituições encarregadas de representá-lo.
Os cinco pontos da crise, em resumo — Jornal25NewsPressão externa em duas direções
O governo brasileiro negocia, sob pressão, uma possível tarifa de 25% que os Estados Unidos ameaçam aplicar sobre produtos nacionais — medida ligada a uma investigação que questiona políticas relativas ao Pix, ao comércio digital e a decisões judiciais internas. O prazo para a decisão americana termina em 15 de julho. Negociar é legítimo; é, inclusive, dever do governo. O risco reside em permitir que a negociação, conduzida sob ameaça, deslize para a submissão.
Simultaneamente, o país amplia sua aproximação com a China, por meio de missões econômicas, operações em yuan e maior presença de empresas chinesas em setores estratégicos. A diversificação de parcerias é saudável; o que exige cautela é a ausência aparente de uma estratégia que garanta reciprocidade e proteção da produção nacional.
“Trocar uma dependência por outra não equivale a exercer soberania.”
O caso Banco Master alcança o topo do Judiciário
A investigação sobre o Banco Master, inicialmente concentrada em suspeitas de fraude financeira, evoluiu para uma crise que atravessa o sistema político e o Poder Judiciário. É preciso precisão: o Supremo Tribunal Federal, como instituição, não é formalmente acusado de integrar organização criminosa. O que existe — grave por si só — não deve ser inflado por retórica.
Dois ministros do STF viram seus nomes associados ao caso. Dias Toffoli deixou a relatoria após questionamentos sobre possíveis vínculos com o banco, embora negue ter recebido pagamentos ou mantido relação com o banqueiro Daniel Vorcaro. Alexandre de Moraes também passou a figurar no centro da controvérsia: mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal sugerem contato entre os dois, incluindo perguntas do banqueiro sobre um inquérito sigiloso e sobre a venda da instituição; soma-se a isso um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro. Moraes nega qualquer irregularidade, classifica as acusações como tentativa de atacar o Supremo e afirma que seus contatos com o Banco Central trataram exclusivamente de sanções da Lei Magnitsky — episódio que já gerou pedidos de impeachment contra ele no Senado.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, apareceu em reportagens sobre mensagens e benefícios atribuídos ao banqueiro. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, nega ter recebido valores. O líder do PT no Senado, Jaques Wagner, foi alvo de medidas judiciais e também nega irregularidades. Todos têm direito à defesa e à presunção de inocência — princípio que este jornal reafirma. Mas a extensão da lista, atravessando espectros políticos distintos, levanta uma questão legítima: o que permitiu que interesses de um único banco alcançassem simultaneamente o Judiciário, o Legislativo e lideranças de partidos rivais?
Uma crise de sucessão no Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, uma sequência de renúncias, cassações e prisões — do governador ao presidente da Assembleia Legislativa — deixou o estado sem sucessor natural. O presidente do Tribunal de Justiça assumiu interinamente o governo estadual, com aval do Supremo. A gestão técnica do magistrado não é o ponto central; o ponto central é como um dos estados mais relevantes do país esgotou, em sequência, toda a sua linha de sucessão política.
Quando a política interna busca árbitros externos
O senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro esteve em Washington para pedir ao governo Trump que adiasse por 180 dias a decisão sobre a tarifa de 25%, argumentando que sua aplicação antes do pleito beneficiaria politicamente o governo Lula. Defender a economia nacional é atribuição legítima de qualquer parlamentar. Vincular, porém, o calendário de uma decisão estrangeira ao resultado da eleição brasileira é outra questão: as eleições do país devem permanecer decisão exclusiva de seus eleitores, sem que nenhuma capital estrangeira seja convertida em árbitro do processo político interno.
O que está, de fato, em jogo
Democracia não se resume ao voto periódico. Depende de instituições confiáveis, fiscalização efetiva e igualdade diante da lei — inclusive, e sobretudo, quando os investigados ocupam os postos mais altos do Estado. Ela se enfraquece quando o cidadão comum percebe que as apurações raramente alcançam quem detém poder político ou financeiro.
Nada disso decorre de um fracasso do povo brasileiro. Decorre da incapacidade de parte de suas instituições de honrar a confiança que lhes foi depositada. A seleção perdeu porque não converteu potencial em resultado. O país corre risco semelhante: possui recursos, capacidade e uma população que insiste em seguir adiante, mas sem direção institucional e sem prestação de contas, o desfecho pode repetir o mesmo roteiro visto em campo — uma reação que chega tarde demais.
“Uma reação que chega tarde demais.”
— Editorial do Jornal25News
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