Vorcaro contratou ex-cunhado de Gilmar Mendes por R$ 500 mil mensais, revela Estadão
Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que Chiquinho Feitosa prestou consultoria a empresa ligada ao banqueiro e participou de tratativas envolvendo temas analisados pelo STF; ministro afirma que desconhecia as conversas e destaca que votou contra os interesses atribuídos ao Banco Master
A reportagem original foi produzida e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, assinada pelos jornalistas Luiz Vassallo, Fausto Macedo, Marcelo Godoy, Renan Porto e Aguirre Talento. As informações foram posteriormente confirmadas e complementadas por outros veículos de imprensa.
Centro Histórico da Cidade de SP, 18.09.2026

Leitura Rápida — 1 Minuto
O ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, conhecido como Chiquinho Feitosa, então cunhado do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, foi contratado em 2024 pela Super Empreendimentos, empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro e reveladas pelo Estadão, o acordo previa remuneração mensal de R$ 500 mil e um pagamento adicional de R$ 800 mil na primeira parcela. Os diálogos indicam que Chiquinho tratava de assuntos relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro e à abertura de cursos de Medicina, temas que chegaram ao STF.
Chiquinho confirmou a prestação de consultoria à Super Empreendimentos, mas disse que o serviço ocorreu durante um período curto e negou ter sido contratado para aproximar Vorcaro de Gilmar Mendes.
O ministro afirmou que não conhecia as tratativas e não foi procurado pelo então cunhado sobre os assuntos. Gilmar confirmou que recebeu advogados do Banco Master em audiência institucional no STF e ressaltou que, nos processos mencionados, seus votos foram contrários aos interesses atribuídos ao banco.
Até o momento, as mensagens divulgadas não demonstram que Gilmar Mendes tenha recebido pagamento ou concedido favorecimento ao Banco Master.
Leitura Integral
Contrato previa R$ 500 mil por mês
A investigação jornalística do Estadão revelou que Chiquinho Feitosa manteve conversas com Daniel Vorcaro entre abril e novembro de 2024. Naquele período, ele ainda era cunhado de Gilmar Mendes, pois sua irmã, a advogada Guiomar Feitosa, permaneceu casada com o ministro até novembro de 2025.
De acordo com os diálogos obtidos pela Polícia Federal, o contrato teria sido firmado entre a empresa de Chiquinho, F&A Consultoria em Gestão Empresarial e Logística, e a Super Empreendimentos, ligada a Vorcaro.
Uma mensagem atribuída ao empresário Leonardo Palhares menciona remuneração líquida de R$ 500 mil por mês e honorários adicionais de R$ 800 mil na primeira parcela. Vorcaro teria dado sua concordância aos valores.
A Polícia Federal suspeita que a Super Empreendimentos tenha sido utilizada para lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Essa é uma linha de investigação, e não uma condenação definitiva da empresa ou de todas as pessoas que mantiveram contratos com ela.
Precatórios e cursos de Medicina
As conversas divulgadas apontam que Chiquinho acompanhava assuntos de interesse de Vorcaro relacionados a dois temas que chegaram ao Supremo.
O primeiro envolvia precatórios de usinas do setor sucroalcooleiro adquiridos por fundos ligados ao Banco Master. O segundo dizia respeito às regras para abertura de novas vagas em cursos de Medicina, discutidas pelo STF na Ação Declaratória de Constitucionalidade 81.
O fundo Calêndula, ligado ao banco, havia financiado a Associação Educacional Luterana do Brasil, mantenedora da Universidade Luterana do Brasil. Por isso, a discussão sobre novos cursos médicos poderia produzir reflexos econômicos indiretos sobre investimentos relacionados ao Master.
Gilmar Mendes foi relator do processo sobre cursos de Medicina e votou pela manutenção da exigência legal de chamamento público. Segundo a manifestação do ministro, o voto contrariou o interesse das instituições privadas que pretendiam abrir cursos sem seguir esse procedimento.
Reunião no gabinete de Gilmar Mendes
O Estadão informou que Chiquinho participou de tratativas para uma audiência entre advogados ligados aos interesses do Master e Gilmar Mendes. O encontro ocorreu em 11 de abril de 2024, no gabinete do ministro, na sede do STF.
Gilmar confirmou a audiência, mas afirmou que ela aconteceu em ambiente institucional e dentro das prerrogativas legais da advocacia. Segundo sua assessoria, foram recebidos advogados que atuavam em processo relacionado ao setor sucroalcooleiro.
O ministro declarou que desconhecia qualquer negociação profissional entre Chiquinho e Vorcaro e que não foi procurado pelo então cunhado sobre os assuntos descritos nas mensagens.
O que dizem os citados
Chiquinho Feitosa inicialmente negou ter trabalhado para o Banco Master. Depois, confirmou que sua empresa prestou consultoria à Super Empreendimentos por um curto período. Afirmou que, à época, considerava a contratante idônea e que ela atuava em diferentes segmentos.
O ex-senador negou ter sido contratado para intermediar aproximações entre Vorcaro e Gilmar Mendes. Também declarou que desconhecia o vínculo de alguns advogados com o Banco Master.
Gilmar Mendes afirmou que não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parentes. Acrescentou que seus votos nos processos citados não favoreceram os interesses apontados pela reportagem.
O advogado Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União, declarou que representava regularmente clientes de seu escritório e que realizou atos próprios da advocacia, como apresentação de memoriais e audiências com magistrados.
O que está comprovado — e o que ainda precisa ser esclarecido
Os documentos e mensagens divulgados indicam a existência de um contrato de consultoria, os valores negociados e conversas sobre assuntos de interesse de Vorcaro. Também mostram a atuação de Chiquinho em contatos e acompanhamentos relacionados a esses temas.
Entretanto, o material conhecido até agora não comprova que Gilmar Mendes tenha participado da contratação, recebido alguma vantagem ou alterado seus votos para favorecer o Banco Master. Ao contrário, nos processos mencionados, o ministro sustenta ter votado contra os interesses atribuídos ao grupo.
As autoridades ainda deverão esclarecer quais serviços foram efetivamente prestados, por quanto tempo o contrato permaneceu vigente, quais pagamentos foram realizados e se houve alguma tentativa indevida de influência sobre agentes públicos.
Fontes e crédito
- Reportagem original: O Estado de S. Paulo, publicada em 17 de setembro de 2026 e atualizada em 18 de setembro de 2026, assinada por Luiz Vassallo, Fausto Macedo, Marcelo Godoy, Renan Porto e Aguirre Talento.
- Apuração complementar: Folha de S.Paulo — Vorcaro contratou ex-cunhado de Gilmar enquanto ministro decidia sobre faculdades privadas.
- Edição de 18 de setembro de 2026 de O Estado de S. Paulo.
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