LEITURA RÁPIDA — 1 MINUTO
MENDONÇA AUTORIZA PF A INVESTIGAR LULINHA POR SUSPEITA DE TRÁFICO DE INFLUÊNCIA
Apuração envolve possível atuação junto ao Ministério da Saúde e ao gabinete presidencial em favor de projeto de cannabis medicinal; defesa nega irregularidades e fala em “pesca probatória”
Jornal25News | Política e Justiça
São Paulo, sexta-feira, 31 de julho de 2026
Centro Histórico da Cidade de SP
Por Mário Marcovicchio
Editor- MTB/SP 71.710/SP
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou um pedido da Polícia Federal para investigar o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A nova apuração deverá examinar suspeitas de tráfico de influência e corrupção relacionadas a negócios no mercado de cannabis medicinal.
A PF pretende esclarecer se Lulinha teria atuado com a empresária Roberta Luchsinger em benefício da World Cannabis, empresa ligada ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. Os investigadores mencionam contatos com funcionários públicos, inclusive servidores ligados ao Ministério da Saúde e ao gabinete da Presidência da República.
A defesa de Lulinha nega qualquer favorecimento ou participação em irregularidades. Os advogados afirmam que investigações anteriores não encontraram relação entre o empresário e o esquema de descontos ilegais do INSS e classificam a nova frente de apuração como uma possível “pesca probatória”.
O presidente Lula declarou que o filho não receberá tratamento privilegiado. Em entrevista ao podcast Inteligência Ltda., afirmou: “Não vão usar meu cargo para proteger [Lulinha]”. Também declarou que Fábio Luís deverá demonstrar sua inocência e, caso seja responsabilizado, responder como qualquer cidadão.
A autorização para investigar não representa denúncia, indiciamento ou condenação. Segundo a Reuters, uma fonte da PF informou que, até a publicação da reportagem na noite de quinta-feira, 30 de julho, o inquérito ainda aguardava sua formalização operacional.
LEITURA INTEGRAL
Decisão atende a pedido da Polícia Federal
O ministro André Mendonça autorizou a abertura de uma nova frente investigativa envolvendo Fábio Luís Lula da Silva. O pedido foi apresentado pela Polícia Federal na semana passada e envolve suspeitas de corrupção e tráfico de influência em favor de interesses empresariais ligados ao setor de medicamentos produzidos com canabidiol.
Embora reportagens brasileiras tenham informado que Mendonça autorizou a abertura do inquérito, a Reuters registrou uma ressalva: uma fonte da Polícia Federal declarou que a investigação ainda não havia sido formalmente instaurada até a noite de 30 de julho. Na prática, a decisão judicial autorizou a apuração, restando à corporação executar a abertura formal e organizar as diligências.
A PF também pediu que elementos obtidos durante a Operação Sem Desconto, responsável por investigar o esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS, sejam compartilhados com o novo procedimento.
PF investiga possível influência no Ministério da Saúde
A principal linha investigativa busca determinar se Lulinha teria utilizado sua proximidade com integrantes do governo federal para facilitar o acesso de empresários ao Ministério da Saúde e a setores ligados à Presidência da República.
Segundo informações atribuídas à Polícia Federal, o pedido de investigação menciona contatos entre empresários e servidores públicos, inclusive funcionários ligados ao gabinete presidencial. A suspeita é de que essa aproximação pudesse beneficiar a World Cannabis, empresa relacionada a Antônio Carlos Camilo Antunes.
Um dos objetivos do grupo empresarial seria viabilizar a participação de medicamentos à base de cannabis em programas do Ministério da Saúde. Entretanto, o próprio ministério informou que nunca manteve contrato com a World Cannabis ou com os acionistas citados, não realizou repasses de recursos públicos e que o negócio pretendido não foi concretizado.
Portanto, o foco da investigação não é um contrato público já executado, mas a eventual existência de tentativas de influência, articulações e acessos privilegiados para favorecer interesses privados dentro da administração federal.
Roberta Luchsinger aparece como possível intermediária
Roberta Luchsinger, empresária e amiga de Lulinha, aparece nas investigações como uma possível ligação entre o filho do presidente e Antônio Carlos Camilo Antunes.
A Polícia Federal afirma ter identificado pagamentos feitos por Antunes à RL Consultoria e Intermediações, empresa de Roberta. A empresária sustenta que os valores estavam relacionados a serviços de consultoria sobre a regulamentação do mercado de canabidiol no Brasil e não tinham relação com os desvios investigados no INSS.
A nova apuração deverá verificar se esses serviços foram efetivamente prestados, qual foi a participação de cada envolvido e se houve tentativa de intermediação indevida com agentes públicos.
Roberta declarou anteriormente que apresentou Antunes a Lulinha em um contexto social. Sua defesa afirma que o contrato de consultoria não envolvia comercialização de substâncias nem irregularidades administrativas.
Viagem a Portugal foi paga pelo Careca do INSS
Outro elemento analisado pelos investigadores é uma viagem realizada por Lulinha a Portugal em 2024. A própria defesa reconheceu que as despesas foram pagas por Antônio Carlos Camilo Antunes.
Segundo os advogados, Lulinha foi convidado para conhecer instalações ligadas à produção de medicamentos à base de canabidiol e participou da viagem “sem qualquer compromisso” comercial.
A defesa afirma que Fábio Luís não negociou contratos, não investiu recursos, não trabalhou no projeto e nunca recebeu proposta para adquirir participação societária ou cotas da World Cannabis.
A Polícia Federal pretende esclarecer se a viagem foi apenas uma visita empresarial ou se fazia parte de uma articulação mais ampla para aproximar o grupo de autoridades brasileiras.
Defesa questiona novo inquérito
Os advogados de Lulinha afirmaram inicialmente que não poderiam avaliar detalhadamente a decisão porque ainda não haviam tido acesso integral ao procedimento. A defesa também questionou por que o caso permaneceria sob a competência do STF.
De acordo com os representantes do empresário, uma nova investigação separada da Operação Sem Desconto indicaria que a apuração anterior não encontrou elementos que ligassem Lulinha às fraudes contra aposentados e pensionistas.
O advogado Marco Aurélio de Carvalho declarou ter recebido a notícia com “estranheza, mas tranquilidade”. Ele afirmou que a medida poderia representar uma “pesca probatória”, expressão usada para descrever investigações iniciadas sem uma delimitação clara dos fatos e das evidências previamente existentes.
Outro integrante da defesa, Guilherme Suguimori Santos, afirmou que a investigação não poderia funcionar como um exercício de tentativa e erro e sugeriu a possibilidade de exploração política do caso durante o período eleitoral.
A defesa sustenta que Lulinha não recebeu vantagens indevidas, não atuou em favor de empresas perante órgãos públicos e não participou do esquema de descontos ilegais do INSS.
Lula afirma que não interferirá
Durante entrevista concedida na quinta-feira, o presidente Lula declarou que não usará o cargo para impedir ou interferir nas investigações.
O presidente afirmou que o filho será tratado como qualquer cidadão e que jamais pediria a delegados ou magistrados que deixassem de cumprir suas funções. Lula também disse que Fábio Luís afirma ser inocente, mas deverá apresentar sua defesa às autoridades.
Em manifestação anterior, relacionada às suspeitas envolvendo o INSS, Lula já havia declarado que, se o filho tivesse praticado alguma irregularidade, deveria responder por seus atos; caso contrário, deveria defender-se e demonstrar sua inocência.
O que ainda precisa ser esclarecido
A investigação deverá buscar respostas para pontos centrais:
- se Lulinha participou de negociações relacionadas à World Cannabis;
- se intermediou contatos com servidores do Ministério da Saúde ou da Presidência;
- se recebeu ou teria direito a receber alguma vantagem econômica;
- se houve promessa de benefício a agentes públicos;
- qual era a finalidade da viagem a Portugal;
- e se os pagamentos feitos à consultoria de Roberta Luchsinger estavam ligados apenas a serviços privados ou a alguma atuação perante o governo.
Até o momento, não foi apresentada denúncia criminal contra Fábio Luís Lula da Silva relacionada a essa nova apuração. Tampouco existe decisão judicial reconhecendo a prática de tráfico de influência ou corrupção.
A abertura de um inquérito permite que a Polícia Federal reúna documentos, realize depoimentos, examine comunicações e confronte as versões apresentadas. Somente ao final das diligências a PF poderá decidir se propõe indiciamentos. Posteriormente, caberá à Procuradoria-Geral da República avaliar se existem elementos para denunciar alguém ou pedir o arquivamento do caso.
Lulinha, Roberta Luchsinger e Antônio Carlos Camilo Antunes permanecem protegidos pela presunção de inocência.
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