MODELO BUKELE NO BRASIL? UMA UTOPIA ELEITORAL: BRASIL É 404 VEZES MAIOR E A CONSTITUIÇÃO NÃO PERMITE COPIAR EL SALVADOR
PCC e Comando Vermelho possuem estrutura muito mais complexa que as gangues salvadorenhas; para o 25News-Brazil, vender o “modelo El Salvador” como solução pronta nivela por baixo o debate sobre segurança pública
Centro Histórico da Cidade de São Paulo — 31 de agosto de 2026
LEITURA RÁPIDA — 1 MINUTO
O chamado “modelo El Salvador” virou uma das expressões da campanha presidencial brasileira de 2026. Candidatos identificados com a direita passaram a elogiar, em diferentes graus, a política de segurança implantada pelo presidente salvadorenho Nayib Bukele.
Os resultados obtidos por El Salvador merecem atenção. O país, que esteve entre os mais violentos do mundo, registrou uma redução histórica dos homicídios.
Mas transformar essa experiência em uma receita pronta para o Brasil é outra história.
El Salvador tem cerca de 6,4 milhões de habitantes. O Brasil possui mais de 214 milhões.
O Brasil tem, portanto, mais de 33 vezes a população salvadorenha.
A cidade de São Paulo, sozinha, possui aproximadamente 11,9 milhões de habitantes.
Ou seja:
A CAPITAL PAULISTA TEM QUASE O DOBRO DA POPULAÇÃO DE TODO EL SALVADOR.
A diferença territorial é ainda maior.
El Salvador possui aproximadamente 21 mil km². O Brasil tem cerca de 8,5 milhões de km².
O BRASIL É CERCA DE 404 VEZES MAIOR.
El Salvador é praticamente do tamanho de Sergipe.
Há ainda outro problema.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil destacam que PCC e Comando Vermelho não funcionam como as principais gangues salvadorenhas.
As organizações brasileiras atuam nacional e internacionalmente, participam de redes de tráfico, lavagem de dinheiro, logística criminosa e movimentação financeira sofisticada.
E existe uma barreira ainda mais importante:
A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA.
O núcleo mais radical da política salvadorenha envolve regime de exceção prolongado, prisões em massa, detenções sem os mesmos controles judiciais existentes no Brasil e restrições a garantias processuais.
Essas medidas não podem simplesmente ser transplantadas para o sistema constitucional brasileiro.
Para o 25News-Brazil, estudar El Salvador é válido.
Apresentar o chamado “modelo Bukele” como solução pronta para o Brasil é uma utopia eleitoral que beira a desinformação.
LEITURA INTEGRAL
QUANDO UMA EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL VIRA SLOGAN ELEITORAL
Segurança pública é um dos problemas mais graves enfrentados pelo Brasil.
Facções criminosas, milícias, tráfico internacional de drogas e armas, domínio territorial, lavagem de dinheiro e o poder adquirido pelo crime organizado exigem respostas firmes do Estado.
É justamente por isso que o debate precisa ser sério.
Nas últimas semanas, candidatos brasileiros identificados com a direita passaram a mencionar a experiência de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, como referência para enfrentar o crime organizado.
Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Renan Santos e outros políticos já fizeram referências positivas, em diferentes graus, a medidas adotadas pelo governo salvadorenho.
As propostas apresentadas por eles não são idênticas.
Mas a expressão “modelo El Salvador” começou a ganhar força eleitoral.
E é aí que começa o problema.
O BRASIL NÃO É EL SALVADOR
Antes de discutir qualquer modelo, é necessário olhar para os números.
El Salvador possui aproximadamente:
6,4 milhões de habitantes.
O Brasil:
mais de 214 milhões.
Isso significa que o Brasil tem mais de 33 vezes a população de El Salvador.
Mas talvez exista uma comparação ainda mais esclarecedora.
A CIDADE DE SÃO PAULO É QUASE DUAS VEZES EL SALVADOR
O município de São Paulo possui aproximadamente:
11,9 MILHÕES DE HABITANTES.
Todo El Salvador possui cerca de:
6,4 MILHÕES.
Portanto, a capital paulista possui aproximadamente 1,8 vez a população de todo o país governado por Bukele.
El Salvador inteiro tem pouco mais da metade da população da cidade de São Paulo.
Essa comparação deveria, no mínimo, impor cautela a qualquer candidato brasileiro que anuncie:
“Vamos fazer como El Salvador.”
O BRASIL É 404 VEZES MAIOR
A diferença territorial é ainda mais impressionante.
El Salvador possui aproximadamente:
21 MIL KM².
O Brasil:
8,5 MILHÕES DE KM².
Em termos de área:
O BRASIL É CERCA DE 404 VEZES MAIOR.
El Salvador é praticamente do tamanho de Sergipe.
O Brasil, por sua vez, é uma nação continental.
Possui Amazônia, grandes centros urbanos, áreas rurais gigantescas, milhares de municípios, fronteiras internacionais, portos, aeroportos, rodovias continentais e rotas internacionais utilizadas pelo tráfico.
Comparar diretamente essas duas realidades sem considerar escala, logística e estrutura institucional é reduzir um problema extremamente complexo.
PCC E COMANDO VERMELHO NÃO SÃO MS-13 E BARRIO 18
Uma reportagem da BBC News Brasil acrescenta outro ponto fundamental.
O cientista político e especialista em segurança pública Robert Muggah afirma que as duas maiores organizações criminosas brasileiras possuem estrutura muito diferente daquela encontrada nas principais gangues de El Salvador.
As gangues salvadorenhas são fortemente territorializadas.
Em muitos casos, estão associadas a bairros específicos, extorsões locais e sinais claros de pertencimento.
PCC e Comando Vermelho são diferentes.
As organizações brasileiras estabeleceram redes que ultrapassam fronteiras estaduais e nacionais.
Participam de:
tráfico internacional de drogas;
logística criminosa;
lavagem de dinheiro;
operações financeiras;
controle de rotas;
relações com outras organizações criminosas;
estruturas dentro dos presídios;
e diferentes mercados ilegais.
São redes muito mais complexas do que simples gangues de rua.
PCC E CV FUNCIONAM COMO REDES CRIMINOSAS TRANSNACIONAIS
A comparação apresentada pelo especialista ouvido pela BBC é reveladora.
PCC e Comando Vermelho possuem características semelhantes às de grandes estruturas empresariais ilegais.
Prender criminosos visíveis em determinada comunidade não necessariamente destrói a organização.
A operação financeira pode continuar.
O tráfico pode continuar.
A lavagem de dinheiro pode continuar.
As rotas internacionais podem continuar.
Os operadores logísticos podem continuar.
Por isso, combater essas facções exige muito mais do que ocupação territorial e encarceramento.
Exige inteligência.
Investigação financeira.
Controle de fronteiras.
Cooperação internacional.
Bloqueio patrimonial.
Integração entre União e Estados.
O BRASIL JÁ CONHECE OS RISCOS DO ENCARCERAMENTO EM MASSA
Existe uma particularidade brasileira que não pode ser ignorada.
O PCC nasceu dentro do sistema prisional paulista.
O Comando Vermelho também possui origem histórica ligada ao ambiente penitenciário.
Portanto, o sistema carcerário brasileiro não é apenas o destino dos criminosos.
Em diferentes momentos, tornou-se também ambiente de recrutamento, organização e fortalecimento das próprias facções.
Esse dado muda profundamente a discussão.
Construir presídios de segurança máxima pode ser necessário.
Isolar lideranças criminosas também.
Mas simplesmente aumentar o número de presos, sem reformar o sistema, pode fortalecer exatamente as organizações que se pretende combater.
A EXPERIÊNCIA DO EQUADOR SERVE DE ALERTA
Outros países latino-americanos tentaram adotar medidas semelhantes às utilizadas por Bukele.
O Equador militarizou áreas, decretou situações excepcionais e investiu em presídios de segurança máxima.
Mesmo assim, enfrentou índices extremamente elevados de homicídios.
Isso demonstra que não existe uma fórmula automática.
Não existe um botão que possa ser apertado em Brasília com a inscrição:
“MODELO BUKELE”.
Cada país possui uma estrutura criminosa diferente.
O RESULTADO DE EL SALVADOR NÃO PODE SER IGNORADO
Nada disso significa negar os resultados conquistados por El Salvador.
Seria um erro.
O país sofreu durante décadas com níveis extremamente elevados de violência e domínio territorial de gangues.
A redução dos homicídios foi extraordinária.
Muitos salvadorenhos passaram a circular em lugares que anteriormente estavam sob controle criminoso.
O Estado recuperou territórios.
A sensação de segurança aumentou.
Esses resultados precisam ser estudados.
Mas reconhecer resultados não significa aceitar todos os métodos utilizados para alcançá-los.
O OUTRO LADO DO MODELO
A política salvadorenha também é alvo de críticas de organizações internacionais e entidades de direitos humanos.
Entre as denúncias estão:
prisões arbitrárias;
restrições ao acesso à defesa;
enfraquecimento do devido processo;
superlotação carcerária;
maus-tratos;
e concentração excessiva de poder.
O regime de exceção adotado pelo país também se prolongou por anos.
Essa parte do modelo não pode ser simplesmente omitida quando ele é apresentado ao eleitor brasileiro.
E ENTÃO CHEGAMOS À CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA
Aqui está o principal obstáculo jurídico.
O Brasil possui uma ordem constitucional muito diferente.
O artigo 5º da Constituição Federal estabelece direitos fundamentais que limitam diretamente o poder do Estado.
Entre eles estão:
devido processo legal;
contraditório;
ampla defesa;
controle judicial das prisões;
direito à assistência jurídica;
presunção de inocência.
Como regra, ninguém pode ser preso sem flagrante ou ordem escrita e fundamentada da autoridade judicial competente, ressalvadas hipóteses específicas previstas pela legislação.
Não se trata de preferência política.
Trata-se da Constituição.
O PRESIDENTE NÃO PODE SIMPLESMENTE CRIAR UM ESTADO PERMANENTE DE EXCEÇÃO
A Constituição brasileira prevê instrumentos extraordinários.
Existem o estado de defesa e o estado de sítio.
Mas ambos possuem condições específicas, limites, prazos e participação obrigatória do Congresso Nacional.
Não existe autorização constitucional para que um presidente transforme permanentemente o país inteiro em uma zona de exceção simplesmente para executar uma política comum de segurança pública.
Por isso, importar integralmente determinados instrumentos usados em El Salvador não seria apenas difícil.
SERIA INCOMPATÍVEL COM O SISTEMA CONSTITUCIONAL BRASILEIRO.
A SEPARAÇÃO DOS PODERES TAMBÉM É UM LIMITE
Outro elemento decisivo da experiência salvadorenha foi a forte concentração política construída durante o governo Bukele.
No Brasil, Executivo, Legislativo e Judiciário possuem competências próprias.
A separação dos Poderes é protegida pela Constituição.
Portanto, qualquer candidato que defenda o “modelo Bukele” precisa responder:
QUAL MODELO?
Inteligência policial?
Presídios de segurança máxima?
Combate financeiro às facções?
Controle territorial?
Tudo isso pode ser discutido.
Mas se estiver falando em restrição permanente de garantias constitucionais e concentração de poder, a conversa muda completamente.
POSIÇÃO EDITORIAL DO 25NEWS-BRAZIL
UMA UTOPIA ELEITORAL QUE BEIRA A DESINFORMAÇÃO
O 25News-Brazil considera que El Salvador deve ser estudado.
Seus resultados de segurança não podem ser desprezados.
O Brasil também precisa ser muito mais duro contra organizações criminosas.
Facções precisam ser enfrentadas.
Lideranças precisam ser isoladas.
Patrimônios precisam ser confiscados dentro da lei.
Rotas precisam ser interrompidas.
Presídios precisam voltar ao controle do Estado.
Fronteiras precisam ser protegidas.
Polícias precisam de inteligência e tecnologia.
Mas outra coisa completamente diferente é vender ao eleitor a impressão de que existe um modelo estrangeiro pronto para ser instalado no Brasil.
ISSO É UMA ILUSÃO.
El Salvador possui cerca de 6,4 milhões de habitantes.
A cidade de São Paulo possui aproximadamente 11,9 milhões.
El Salvador possui cerca de 21 mil km².
O Brasil possui 8,5 milhões de km².
O Brasil é aproximadamente 404 vezes maior.
Tem mais de 33 vezes a população.
É uma federação.
Tem 26 Estados e o Distrito Federal.
Possui diferentes forças policiais.
Possui um sistema penitenciário gigantesco.
E enfrenta facções transnacionais que operam em escala financeira e logística muito superior às gangues salvadorenhas.
Ignorar essas diferenças e continuar repetindo “modelo El Salvador” como solução presidencial nivela por baixo o debate.
Na avaliação deste jornal:
ESSA SIMPLIFICAÇÃO BEIRA A DESINFORMAÇÃO.
O PROBLEMA NÃO É SER DURO CONTRA O CRIME
É importante deixar isso claro.
Defender aplicação rigorosa da lei não significa defender autoritarismo.
Presídios de segurança máxima são compatíveis com a democracia.
Bloqueio patrimonial de criminosos é compatível com a Constituição.
Inteligência policial é fundamental.
Forças-tarefa são necessárias.
Operações de fronteira são indispensáveis.
Combater lavagem de dinheiro é urgente.
O Estado recuperar territórios dominados por criminosos é obrigação.
Nada disso exige abandonar a Constituição.
O BRASIL PRECISA DE UM MODELO BRASILEIRO
O Brasil precisa construir sua própria política nacional de segurança.
Uma política capaz de unir:
inteligência policial;
investigação financeira;
polícia preparada;
controle das fronteiras;
isolamento das lideranças criminosas;
combate à lavagem de dinheiro;
presídios realmente controlados pelo Estado;
cooperação internacional;
integração entre União e Estados;
prevenção ao recrutamento de jovens;
presença permanente do poder público nos territórios recuperados.
O desafio brasileiro não será resolvido com uma única medida.
Muito menos com um slogan importado.
AS PERGUNTAS QUE DEVEM SER FEITAS AOS CANDIDATOS
Quando um presidenciável disser:
“QUERO O MODELO EL SALVADOR.”
A imprensa deve perguntar:
Qual parte?
Presídios maiores?
Quantos?
Onde?
Quanto custarão?
Prisões em massa?
Com qual fundamento constitucional?
Sem ordem judicial?
Como?
Estado de exceção?
Em qual hipótese constitucional?
Por quanto tempo?
Como funcionaria em 26 Estados e no Distrito Federal?
Como enfrentar PCC e CV fora das prisões?
Como bloquear seus bilhões?
Como combater a lavagem de dinheiro?
Como controlar as fronteiras?
Como impedir que novas prisões fortaleçam as próprias facções?
Estas são perguntas de uma campanha presidencial séria.
O restante pode produzir uma frase de efeito.
Mas frase de efeito não governa um país continental.
404 VEZES MAIOR. MAIS DE 33 VEZES A POPULAÇÃO. OUTRA CONSTITUIÇÃO. OUTRO CRIME ORGANIZADO.
Esse é o ponto central desta reportagem.
El Salvador pode ensinar.
Pode oferecer experiências.
Pode mostrar acertos.
Pode mostrar erros.
Mas não oferece uma receita pronta.
O BRASIL NÃO PRECISA COPIAR EL SALVADOR.
PRECISA CONSTRUIR UMA POLÍTICA BRASILEIRA DE SEGURANÇA PÚBLICA, FORTE CONTRA O CRIME E FIRME NO RESPEITO À CONSTITUIÇÃO.
A segurança da população brasileira é séria demais para ser reduzida a um slogan eleitoral.
Redação — 25News-Brazil
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