LULA ABRAÇA O STF ;
Crise no STF entra na reta final da campanha presidencial
Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 20 de setembro de 2026.
Mário Marcovicchio
Leitura Rápida — 1 Minuto
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entra nas duas semanas decisivas antes do primeiro turno pressionado por uma relação política que se tornou eleitoralmente delicada: de um lado, Alexandre de Moraes, no centro da crise envolvendo o caso Banco Master e Daniel Vorcaro; de outro, Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula e indicado por ele para o Supremo Tribunal Federal. Ao fundo está Cristiano Zanin, também indicado pelo presidente e integrante da maioria formada na sessão extraordinária do STF de 15 de setembro.
Segundo relato publicado pela Coluna do Estadão, estrategistas da campanha petista avaliam que o desgaste provocado pelas controvérsias envolvendo Moraes já teria sido assimilado pelo eleitorado. A nova preocupação seria Dino: sua atuação incisiva na sessão do Supremo reacendeu críticas nas redes sociais e voltou a ligar a imagem de Lula às turbulências da Corte.
O governo tenta mudar a pauta com o reajuste de 15,04% no Bolsa Família, que elevou o valor mínimo de R$ 600 para R$ 691. A oposição classifica a medida como eleitoreira; o governo sustenta que se trata de reposição da inflação e afirma que o aumento está previsto no Orçamento.
A questão que se apresenta à campanha é direta: Lula conseguirá defender as escolhas políticas que fez para o Supremo sem carregar, nas urnas, o desgaste provocado pelas decisões e pelos confrontos públicos de seus indicados?
Leitura Integral
A imagem resume o momento: Lula ao centro, Flávio Dino à sua esquerda, Alexandre de Moraes do outro lado e Cristiano Zanin ao fundo. Não se trata de amor pessoal, mas de uma relação de conveniência, identidade política e proteção institucional que agora cobra um preço eleitoral.
O presidente tenta a reeleição enquanto o Supremo Tribunal Federal atravessa uma de suas maiores crises recentes de credibilidade. O caso Banco Master, as informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, os questionamentos dirigidos a Moraes e o conflito público entre ministros transformaram o tribunal em tema central da eleição.
A crise de Moraes teria sido “precificada”?
De acordo com o relato do Estadão, integrantes da campanha de Lula consideram que o pior impacto eleitoral da crise envolvendo Alexandre de Moraes já passou. Na avaliação desses estrategistas, o assunto estaria “precificado”: quem rejeitou a conduta do ministro já teria incorporado essa percepção à decisão de voto.
Essa leitura, porém, é uma avaliação de bastidores, e não uma conclusão demonstrada por pesquisa eleitoral específica. A crise continua produzindo notícias e fornecendo material para os adversários do presidente. Neste domingo, por exemplo, novas reportagens mostraram que ministros ainda enfrentam dificuldades técnicas para acessar centenas de gigabytes extraídos do telefone de Vorcaro, mantendo o caso em movimento.
Moraes não foi indicado ao STF por Lula — chegou à Corte em 2017, por indicação do então presidente Michel Temer. Ainda assim, sua atuação passou a ser associada ao atual governo devido à defesa política feita por Lula e seus aliados nos momentos de maior pressão sobre o ministro.
Flávio Dino: aliado que virou preocupação
Se a campanha acredita ter sobrevivido à fase mais aguda do desgaste de Moraes, um novo problema apareceu. Flávio Dino foi ministro da Justiça de Lula e chegou ao STF por indicação do próprio presidente. Sua trajetória política e sua proximidade histórica com o campo governista fazem com que cada posicionamento público mais contundente seja imediatamente relacionado ao Planalto.
Na sessão extraordinária de 15 de setembro, destinada a analisar questões envolvendo Moraes, André Mendonça e o caso Master, Dino teve participação intensa e protagonizou intervenções que repercutiram fortemente nas redes sociais. Cristiano Zanin acompanhou a maioria formada por Gilmar Mendes e Dino em pontos centrais do julgamento.
Segundo levantamento citado pelo Estadão, buscas como “quem indicou Flávio Dino ao STF” cresceram e atingiram um pico durante a crise. O dado é politicamente relevante porque mostra que parte do público passou a procurar a ligação direta entre o ministro e o presidente da República.
Lula percebeu o risco. Ao comentar o ambiente criado pela sessão, classificou o episódio como um “show de horrores”. A declaração revelou o desconforto do presidente com um espetáculo institucional capaz de dominar o noticiário justamente na reta final da campanha.
Zanin permanece ao fundo — mas faz parte da fotografia
Cristiano Zanin aparece menos no debate público, mas não está fora do quadro. Ex-advogado de Lula, foi indicado pelo presidente ao Supremo em 2023. Na sessão do dia 15, acompanhou a corrente majoritária que reuniu Gilmar Mendes e Flávio Dino.
Politicamente, Zanin simboliza a ligação mais direta e pessoal entre Lula e a atual composição do STF. Sua postura costuma ser mais reservada do que a de Dino, mas seus votos também entram no cálculo dos adversários que procuram apresentar a Corte como extensão do poder político do Planalto.
É necessário registrar, no entanto, que ministros do Supremo possuem independência funcional e não representam formalmente o presidente que os indicou. A responsabilidade pelas decisões é individual ou colegiada, conforme cada processo. A associação eleitoral é política — não jurídica.
Bolsa Família muda o assunto — e abre outra batalha
Para retirar o STF do centro do debate, o governo anunciou reajuste de 15,04% no Bolsa Família, elevando o piso mensal de R$ 600 para R$ 691. O Ministério da Fazenda afirma que o percentual recompõe a inflação acumulada desde março de 2023 e que o impacto será de aproximadamente R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões em 2027.
A oposição reagiu. Flávio Bolsonaro acusou Lula de tentar conquistar votos dos eleitores mais pobres às vésperas da eleição. Ao mesmo tempo, afirmou que manteria o novo valor caso fosse eleito. O reajuste também foi questionado no TSE e no TCU, enquanto decisão de Gilmar Mendes considerou a medida compatível com as regras eleitorais.
A mudança de pauta favorece Lula porque recoloca no centro da campanha um programa social diretamente associado aos governos petistas. Mas também produz uma segunda frente de desgaste: a acusação de uso eleitoral de uma política pública anunciada a poucos dias da votação.
Entre dois amores e uma escolha eleitoral
Lula ajudou a levar Dino e Zanin ao Supremo e defendeu Moraes quando o ministro sofreu forte pressão política. Agora, precisa administrar os efeitos dessa proximidade sem permitir que a crise institucional se transforme em rejeição eleitoral.
Para os aliados, o presidente protege a democracia e respeita a autonomia do Judiciário. Para a oposição, ele está cercado por ministros politicamente próximos e tenta se beneficiar de decisões da Corte. Entre essas duas narrativas estará o eleitor.
A reta final mostrará se o reajuste do Bolsa Família conseguirá retirar o STF dos holofotes ou se novas revelações do caso Master, novas decisões de Dino e novos votos de Zanin manterão Lula preso a uma fotografia incômoda: entre Moraes e Dino, com Zanin observando ao fundo.
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