LEITURA RÁPIDA — 1 MINUTO
CASO MASTER: PF APONTA 74 LIGAÇÕES E 5H30 DE CONTATOS ENTRE JAQUES WAGNER E EX-SÓCIO DO BANCO
Relatório tornado público pelo STF reúne registros telefônicos, viagens, presentes e articulações políticas atribuídas ao senador; defesa nega favorecimento ao Master
Elos de Vorcaro | Reportagem Especial de Investigação
Jornal25News | Política e Justiça
São Paulo, sexta-feira, 31 de julho de 2026
Centro Histórico da Cidade de SP
Por Mário Marcovicchio
Editor- MTB/SP 71.710/SP
A Polícia Federal identificou 74 ligações concluídas entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. Os contatos ocorreram entre novembro de 2023 e maio de 2025 e totalizaram aproximadamente cinco horas e 30 minutos de conversas. Os dados foram extraídos do telefone de Augusto Lima e constam de documentos tornados públicos pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
O material integrou as apurações que resultaram na nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de junho. Jaques Wagner foi alvo de busca e apreensão e, dias depois, deixou a liderança do governo no Senado. A senadora Teresa Leitão foi indicada para substituí-lo.
A investigação menciona ainda uma possível viagem do senador e de sua esposa à chamada Ilha da Paixão, o uso de aeronaves relacionadas a Augusto Lima, uma lista de presentes de fim de ano destinada a políticos e a tentativa de organizar um encontro reservado entre o empresário e uma pessoa identificada pela PF como possível referência ao advogado-geral da União, Jorge Messias. Messias declarou que nunca participou dessa reunião.
A defesa de Wagner ainda não havia respondido especificamente às novas informações sobre as 74 ligações até a última atualização das reportagens consultadas. Em manifestações anteriores, porém, negou que o senador tenha atuado para favorecer o Banco Master e afirmou que seus atos parlamentares contrariaram interesses da instituição.
Os fatos permanecem sob investigação. A autorização de buscas e outras medidas cautelares não representa denúncia recebida, condenação ou prova definitiva de crime.
LEITURA INTEGRAL
Relatório foi liberado depois da operação
Documentos da Polícia Federal relacionados à investigação sobre os vínculos entre Jaques Wagner, Augusto Ferreira Lima e executivos do Banco Master foram tornados públicos na quinta-feira, 30 de julho, por determinação do ministro André Mendonça, relator do caso no STF.
O material havia servido de fundamento para medidas cautelares cumpridas em 18 de junho, durante a nona fase da Operação Compliance Zero. Na ocasião, a PF realizou buscas em endereços ligados ao senador, a Augusto Lima e a outros investigados na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal.
A investigação apura se empresários ligados ao Banco Master ofereceram vantagens econômicas e pessoais ao parlamentar em possível troca por interlocução política ou atuação em assuntos de interesse da instituição financeira.
Jaques Wagner deixou a liderança do governo no Senado em 24 de junho, em decisão anunciada como tomada de comum acordo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Setenta e quatro ligações em 555 dias
Segundo o relatório, foram identificadas pelo menos 74 chamadas de voz concluídas entre Wagner e Augusto Lima no período de 17 de novembro de 2023 a 25 de maio de 2025.
As ligações totalizaram mais de cinco horas e 30 minutos. A chamada mais longa teria durado aproximadamente 19 minutos. Considerando os 555 dias analisados, os dois mantiveram, em média, uma ligação a cada sete dias e meio.
A PF afirma que Wagner e Augusto Lima demonstravam preferência por ligações de voz em aplicativos, em vez de conversas escritas. Para os investigadores, esse comportamento dificultaria a recuperação posterior do conteúdo das comunicações.
A existência de chamadas frequentes, entretanto, não revela, por si só, o conteúdo das conversas nem comprova a prática de crime. Os investigadores analisam os registros em conjunto com mensagens, viagens, encontros e possíveis vantagens mencionadas em outros documentos.
Localização do celular foi acompanhada por dez dias
Antes da operação, André Mendonça autorizou a Polícia Federal a acessar registros telefônicos e acompanhar, durante dez dias, a localização aproximada do aparelho utilizado por Jaques Wagner, por meio das antenas das operadoras.
A autorização incluiu históricos de chamadas, registros de SMS sem acesso ao texto, identificação dos aparelhos, conexões de internet e estações de telefonia utilizadas pela linha.
O ministro não autorizou interceptação telefônica nem acesso ao conteúdo das conversas do senador. Tratou-se de acompanhamento de registros e localização, e não de escuta das ligações.
Na decisão, Mendonça mencionou risco de vazamento porque teria recebido um pedido de audiência de um dos investigados no mesmo dia em que a PF protocolou pedidos de busca e monitoramento. O ministro considerou a coincidência relevante para justificar a urgência das diligências.
Encontro “mais protegido e discreto”
Conversas examinadas pela Polícia Federal indicam que Wagner tentou marcar, em abril de 2024, um encontro entre Augusto Lima e uma pessoa chamada “Messias”.
Os investigadores consideraram que o nome poderia ser uma referência ao advogado-geral da União, Jorge Messias. Em mensagem de áudio, Wagner teria dito que seu gabinete seria um ambiente “mais protegido e discreto” e explicado uma forma de entrada que dispensaria a identificação convencional do visitante.
Procurada, a Advocacia-Geral da União negou que Jorge Messias tenha participado da reunião. O ministro declarou que nunca esteve com Augusto Lima no gabinete de Jaques Wagner no Senado.
Portanto, o relatório registra uma tentativa ou articulação de encontro, mas a participação efetiva do advogado-geral da União não foi confirmada e foi expressamente negada por ele.
Lista de presentes incluía seis políticos
A PF encontrou no celular de Augusto Lima uma conversa com uma secretária sobre uma lista denominada “Lembranças de Fim de Ano”, datada de dezembro de 2024.
A relação incluía:
- Jaques Wagner;
- Rui Costa;
- Jerônimo Rodrigues;
- ACM Neto;
- Bruno Reis;
- Antônio de Rueda.
Na sequência, foram discutidas opções de garrafas de vinho com preços entre aproximadamente R$ 2,5 mil e R$ 5,3 mil. Fotografias posteriores mostrariam embalagens com identificações destinadas a “Jaques” e a “Tio Guiga”, apontado como pessoa próxima do senador.
A presença dos nomes na conversa não comprova que todos os políticos tenham efetivamente recebido os produtos. Antônio de Rueda declarou que não recebeu garrafa de vinho. Os demais citados não haviam respondido à reportagem original até sua publicação.
A Polícia Federal investiga se eventuais presentes estavam relacionados apenas a uma prática social de fim de ano ou se poderiam representar vantagens oferecidas em razão de cargos ou influência política.
Viagem à Ilha da Paixão
Outro trecho do relatório indica que Wagner e sua esposa, Maria de Fátima Carneiro de Mendonça, teriam visitado, em outubro de 2023, a denominada Ilha da Paixão, localizada no litoral da Bahia e associada a Augusto Lima.
Mensagens indicariam que o senador confirmou a participação no passeio e posteriormente recebeu o prefixo de uma aeronave e o horário do deslocamento. Depois do fim de semana, a esposa do parlamentar enviou mensagens de agradecimento à família do empresário.
A PF identificou ao menos quatro situações em que Wagner teria sido transportado em aeronaves disponibilizadas por Augusto Lima ou operadas por pilotos vinculados ao grupo do Banco Master. Segundo o relatório, não foram localizados registros de pagamento ou contraprestação pelos deslocamentos.
A ausência de registro de pagamento é considerada um indício pelos investigadores, mas ainda deverá ser confrontada com explicações, documentos e possíveis provas apresentadas pelas defesas.
PF investiga possível atuação no Congresso
A Polícia Federal também analisa mensagens relacionadas à chamada “Emenda Master”, proposta que pretendia ampliar para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos por pessoa física.
Segundo os investigadores, Augusto Lima mantinha Wagner informado sobre negociações do Master, alterações societárias, avaliações de crédito, conversas envolvendo o BRB e movimentações políticas relacionadas ao banco.
A PF sustenta que o senador acompanhou diretamente a tramitação de assuntos de interesse da instituição.
A defesa contesta essa interpretação. Os advogados afirmam que Wagner não apresentou a chamada Emenda Master e que a única alteração legislativa de sua autoria relacionada ao tema procurava limitar juros e proteger consumidores.
A defesa também sustenta que o senador se posicionou contra a proposta de ampliação da cobertura do FGC e que o relator da matéria declarou nunca ter sido procurado por Wagner para tratar do assunto.
Apartamento, ingressos e outras suspeitas
Os relatórios mencionam ainda tratativas para a aquisição de um apartamento avaliado em aproximadamente R$ 2,45 milhões, em Salvador. A PF suspeita que o imóvel poderia representar vantagem destinada ao senador ou a sua família.
Também são investigados ingressos para um show da cantora Taylor Swift, supostamente adquiridos por uma empresa ligada ao núcleo financeiro investigado, além de viagens em aeronaves e outros presentes.
Wagner afirmou anteriormente que pediu ajuda a Augusto Lima para viabilizar a compra do imóvel, mas que pretendia ressarcir os valores. A defesa nega que tenha existido propina ou benefício indevido.
O que dizem as defesas
Em recurso apresentado ao STF, os advogados de Jaques Wagner pediram a anulação das buscas. Sustentaram que o senador jamais atuou no Congresso para beneficiar o Banco Master e que os valores em dinheiro apreendidos tinham origem lícita e documentada, incluindo diárias de viagens oficiais e operações cambiais realizadas regularmente.
Sobre as novas informações divulgadas em 30 de julho — incluindo as 74 ligações, a lista de presentes e os detalhes da viagem —, a defesa ainda não havia apresentado resposta específica até as últimas atualizações consultadas.
A defesa de Augusto Lima declarou anteriormente que as buscas eram desnecessárias porque o empresário já estava à disposição das autoridades. Os advogados afirmaram que as investigações demonstrariam que sua atuação foi lícita e respeitou as normas do sistema financeiro e da administração pública.
Investigação ainda não terminou
Os relatórios da Polícia Federal apresentam hipóteses investigativas e elementos usados para justificar medidas cautelares. Os fatos ainda precisam ser submetidos ao contraditório, à análise do Ministério Público e às decisões do Supremo Tribunal Federal.
Até o momento, os documentos divulgados não representam condenação criminal. Jaques Wagner, Augusto Lima e os demais citados têm direito à presunção de inocência e à apresentação de suas versões e provas. A decisão que autorizou as buscas reconheceu a existência de elementos suficientes para investigar, mas não equivale ao recebimento de uma denúncia criminal. (reuters.com)
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