QUEM GUARDA A CONSTITUIÇÃO?
Escândalos sucessivos, pedidos de impeachment paralisados e o silêncio calculado dos que deveriam agir expõem a República ao seu mais perigoso teste moral.
Editorial Mário Marcovicchio-olhar 360º graus:
Centro histórico da Cidade de SP, Domingo 026533333333322 de Fevereiro de 2026
Hoje assistimos, no grande palco montado em Brasília, a uma briga de gangsters, onde os maiores escândalos da República aparecem todos os dias. Os três Poderes centrais da República, que são os pilares da jovem democracia no Brasil, foram contaminados e viraram reféns do crime organizado que assola o país, com táticas de guerra, demonstrando força e ocupação de posições estratégicas de dominação, enquanto nós, inertes, vemos tudo ruir.
Pedidos de impeachment se amontoam no Senado contra ministros que ultrapassaram os limites da ética e da decência moral e legal, mas parece apenas ruído de um Brasil que grita e mostra que assim não pode continuar. Quem tem o dever legal constituído de cumprir seu protagonismo se omite. Sabe-se lá por quê. Está mais preocupado em se defender do que em exercer seu poder constituído, pois vê seus aliados, seus padrinhos e apadrinhados envolvidos em escândalos de corrupção, e isso pode respingar.
A pergunta que não quer calar: onde estão os guardiões da Constituição?
A pergunta que não quer calar: onde estão os guardiões da Constituição?
A história ensina que as Repúblicas não desmoronam de uma vez. Elas se desgastam.
Primeiro perdem a vergonha.
Depois perdem os limites.
Por fim, perdem o respeito.
Foi assim em Roma, quando o Senado deixou de ser fórum da virtude pública para se tornar arena de ambições privadas. Foi assim em tantas democracias que, corroídas por dentro, ainda ostentavam bandeiras e símbolos enquanto suas bases já estavam comprometidas.
Os gregos chamavam isso de hybris — o excesso, a arrogância do poder que acredita não haver consequência. E toda hybris, ensinavam os trágicos, é seguida pela némesis — o ajuste inevitável da história.
O Brasil atravessa um momento em que as instituições são testadas não apenas juridicamente, mas moralmente.
O que está em julgamento não são apenas nomes.São comportamentos.Não são apenas processos.É o próprio conceito de limite.Quando pedidos de impeachment se acumulam e não avançam; quando denúncias ecoam e se dissipam; quando cargos estratégicos se tornam escudos e não responsabilidades — instala-se algo mais perigoso que a crise: instala-se o cinismo.
E o cinismo é o veneno silencioso das democracias.
Os grandes oradores da Antiguidade sabiam que a força de um Estado não reside apenas em suas leis escritas, mas na disposição de cumpri-las contra amigos e contra inimigos. Contra adversários e contra aliados.
Porque a lei que só alcança uns não é lei. É instrumento.
E instrumento nas mãos erradas deixa de ser justiça para se tornar poder bruto. Tirania. Ditadura do Poder.
Não se trata aqui de clamar por rupturas. Ao contrário.
É justamente para evitar rupturas que se exige firmeza.
Uma República forte não teme investigação.Não teme transparência.Não teme cobrança.Teme apenas a omissão.
Se aqueles que juraram defender a Constituição preferem o cálculo político ao dever institucional, a erosão se torna inevitável. E quando a erosão avança, não há discurso que sustente o que já perdeu sua base moral.
A pergunta que ecoa não é partidária.Não é ideológica.É estrutural.
Quem fiscaliza os fiscalizadores?
Quem limita os que deveriam ser o limite?
Quem protege a Constituição quando os seus guardiões vacilam?
Porque quando o poder deixa de temer a lei,
o povo passa a temer o poder.
























































