DADOS SIGILOSOS DE ZANIN APARECEM EM PROCESSO DE DELTAN; TRE-PR ACIONA MINISTÉRIO PÚBLICO
Informações fiscais e bancárias foram anexadas pela defesa do candidato ao Senado; ministro do STF pediu providências e responsabilização dos envolvidos. Tribunal colocou documentos sob sigilo e deu 24 horas para manifestação
Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 5 de setembro de 2026
Mário Marcovicchio
LEITURA RÁPIDA — 1 MINUTO
Uma nova controvérsia envolvendo personagens da antiga Operação Lava Jato chegou à Justiça Eleitoral.
Documentos contendo dados fiscais e bancários do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, apareceram entre milhares de páginas juntadas pela defesa do ex-procurador da República Deltan Dallagnol, candidato do Novo ao Senado pelo Paraná, em processo que discute sua situação eleitoral.
As informações haviam sido obtidas anos atrás em investigações da Lava Jato no Rio de Janeiro, quando Zanin atuava como advogado de Luiz Inácio Lula da Silva.
Ao tomar conhecimento de que as informações estavam acessíveis no processo eleitoral, Zanin enviou ofício ao presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná e pediu providências para interromper a exposição dos dados e apurar eventual responsabilidade dos envolvidos, inclusive na esfera criminal.
O TRE-PR determinou o sigilo dos documentos, encaminhou o episódio ao Ministério Público e concedeu prazo de 24 horas para Dallagnol se manifestar.
A defesa do candidato afirma que não teve intenção de tornar públicos os dados de Zanin e sustenta que juntou integralmente procedimentos do Conselho Nacional do Ministério Público para responder às impugnações apresentadas contra a candidatura.
O episódio abre agora uma nova frente jurídica em uma candidatura que já é objeto de disputa na Justiça Eleitoral.
LEITURA INTEGRAL
Documentos de Zanin aparecem no processo eleitoral
O ex-procurador da República Deltan Dallagnol, candidato ao Senado pelo Paraná nas eleições de 2026, voltou ao centro de uma controvérsia envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal Cristiano Zanin.
A defesa de Dallagnol apresentou à Justiça Eleitoral uma grande quantidade de documentos para responder às contestações feitas contra sua candidatura.
Entre os arquivos estavam informações protegidas por sigilo fiscal e bancário de Zanin e de pessoas relacionadas a ele.
Também foram incluídas informações relativas à mulher de Zanin, Valeska Teixeira Zanin Martins, além de Roberto Teixeira, Larissa Teixeira e do escritório de advocacia relacionado à família.
Os documentos faziam parte de procedimentos que tramitaram no Conselho Nacional do Ministério Público.
Quando a defesa de Dallagnol apresentou cópias desses procedimentos à Justiça Eleitoral, o material foi juntado sem que inicialmente houvesse pedido para manutenção do sigilo das informações pessoais nele contidas.
Zanin reage
O caso veio a público neste sábado, 5 de setembro.
Cristiano Zanin encaminhou um ofício ao presidente do TRE-PR, desembargador Luciano Carrasco Falavinha Souza, solicitando providências.
O ministro pediu que fosse interrompida a exposição de seus dados e que fossem adotadas medidas destinadas à apuração da responsabilidade dos envolvidos, inclusive na esfera criminal.
TRE-PR coloca documentos sob sigilo
A Justiça Eleitoral reagiu ao episódio.
O TRE-PR determinou que os documentos envolvidos passassem a tramitar sob segredo de Justiça, impedindo que as informações permanecessem disponíveis para consulta pública.
O caso também foi encaminhado ao Ministério Público, para análise das providências eventualmente cabíveis.
Além disso, Dallagnol recebeu prazo de 24 horas para apresentar manifestação sobre o episódio.
A medida procura preservar os dados pessoais enquanto as circunstâncias da divulgação são analisadas.
De onde vieram os dados?
A origem dessas informações remonta às investigações da Lava Jato no Rio de Janeiro.
Em 2019, medidas judiciais determinadas pelo então juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, atingiram Zanin e outros advogados no contexto das apurações envolvendo a Fecomércio-RJ e entidades do chamado Sistema S.
Zanin, na época, era advogado de Lula.
Posteriormente, o caso chegou ao Supremo Tribunal Federal.
STF anulou atos de Bretas
É importante fazer uma distinção jurídica.
Não é tecnicamente correto afirmar que os dados bancários ou fiscais foram considerados falsos ou que seu conteúdo deixou de existir.
O que ocorreu foi que a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal considerou que a 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro não tinha competência para conduzir aquelas investigações.
Por maioria, o STF anulou atos praticados pelo então juiz Marcelo Bretas no processo.
A decisão atingiu medidas adotadas no decorrer da investigação, inclusive buscas e apreensões.
Portanto, a controvérsia atual envolve informações obtidas dentro de uma investigação cujos atos judiciais posteriormente foram anulados pelo Supremo por questão de competência jurisdicional.
Velho embate da Lava Jato reaparece
O novo episódio recupera um conflito que começou quando Zanin ainda atuava como advogado.
Em fevereiro de 2021, ele apresentou ao Conselho Nacional do Ministério Público uma representação contra Dallagnol e outros procuradores da Lava Jato.
Na ocasião, Zanin acusava integrantes da operação de terem acessado e compartilhado indevidamente informações referentes a ele.
A representação passou a tramitar no CNMP e continha documentos relacionados às investigações realizadas no Rio de Janeiro.
Anos depois, cópias de procedimentos dessa natureza passaram a ser utilizadas pela defesa de Dallagnol no processo eleitoral de 2026.
Defesa de Dallagnol nega intenção de divulgar dados
A defesa de Deltan Dallagnol apresentou outra versão sobre o episódio.
Segundo seus advogados, milhares de páginas de procedimentos foram anexadas para responder às impugnações apresentadas contra a candidatura ao Senado.
A defesa afirma que os documentos faziam parte de uma reclamação disciplinar anteriormente apresentada por Zanin ao CNMP e seriam necessários para que a Justiça Eleitoral conhecesse integralmente os fatos analisados.
Os advogados afirmaram ainda que não houve intenção de expor os dados pessoais do ministro.
Candidatura de Dallagnol está em disputa
O episódio acontece enquanto a situação eleitoral de Dallagnol é discutida novamente.
Em 2023, o Tribunal Superior Eleitoral cassou o registro da candidatura de Dallagnol a deputado federal nas eleições de 2022.
Naquele julgamento, o TSE entendeu que incidia uma causa de inelegibilidade relacionada à saída de Dallagnol do Ministério Público Federal enquanto procedimentos administrativos estavam pendentes de análise.
A discussão de 2026, entretanto, envolve um novo processo e novas alegações apresentadas pelas partes.
Dallagnol sustenta que a decisão de 2023 tratou especificamente do registro referente às eleições de 2022 e que novos elementos demonstrariam sua possibilidade de disputar o pleito deste ano.
Portanto, a situação eleitoral de 2026 deve ser tratada separadamente do julgamento realizado pelo TSE três anos atrás.
Nova frente jurídica
O aparecimento dos dados de Zanin acrescenta agora mais uma questão ao processo.
São duas discussões juridicamente distintas.
Uma delas trata da elegibilidade de Dallagnol para disputar o Senado em 2026.
A outra envolve a forma como documentos protegidos por sigilo chegaram a um processo de consulta pública e se houve responsabilidade jurídica na exposição dessas informações.
A adoção do segredo de Justiça evita, neste momento, a continuidade da divulgação dos dados.
Caberá agora à Justiça Eleitoral e ao Ministério Público analisar as circunstâncias em que o material foi disponibilizado e se existe alguma responsabilidade decorrente do episódio.
Dallagnol terá também a oportunidade de apresentar formalmente sua versão após a determinação do TRE-PR.
O caso reúne novamente personagens que estiveram em campos opostos durante os anos mais intensos da Lava Jato — agora em um cenário completamente diferente: Zanin como ministro do Supremo Tribunal Federal e Dallagnol como candidato ao Senado nas eleições de 2026.
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