Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 13 de agosto de 2026
Você que enfrenta o asfalto quente e pega o transporte coletivo lotado na Zona Leste da capital, sabe muito bem o valor de uma sombra de árvore no ponto de ônibus ou na caminhada até a estação. Ver o poder público derrubar centenas de árvores consolidadas, em uma das áreas mais desprovidas de vegetação da cidade sob a promessa de um transporte mais rápido, expõe a velha lógica paulistana de trocar o bem-estar e a saúde do trabalhador por canteiros de concreto armado.
Nesta semana, relatórios técnicos do projeto de implantação do novo corredor de ônibus rápido (BRT) da Radial Leste acenderam um sinal vermelho na capital. A obra, projetada para ligar o Terminal Parque Dom Pedro II à Estação Penha do Metrô, prevê a erradicação de 493 árvores ao longo do trajeto de 9,8 quilômetros.
A ENGRENAGEM DO FATO: O corte atingirá 277 árvores de espécies exóticas e 216 espécimes nativas em bairros tradicionais como Mooca, Belém, Tatuapé e Penha. A Radial Leste é o principal eixo de circulação da Zona Leste, região que já ostenta o pior índice de área verde por habitante de toda a cidade de São Paulo.
O projeto do BRT Radial Leste prevê o investimento de R$ 385,9 milhões com recursos do Fundurb, para construir vias exclusivas de ônibus à esquerda do canteiro central, com capacidade estimada para atender 400 mil passageiros por dia e reduzir em até 50% o tempo das viagens. No entanto, para abrir espaço às paradas e às faixas de ultrapassagem, a vegetação histórica que garantia o microclima da via está sendo dizimada.
VOZES E ANÁLISE: A Prefeitura de São Paulo informou que o plano de compensação ambiental prevê o plantio de 4.031 novas mudas na área de influência da obra. Todavia, especialistas em urbanismo e meio ambiente alertam que a conta da compensação não fecha no curto prazo.
Para a professora e urbanista Loyde de Abreu, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, substituir árvores adultas por mudas não resolve o problema imediato do superaquecimento urbano. “Uma árvore consolidada funciona como um ar-condicionado natural. Ao retirá-la, perde-se o sombreamento e aumentam-se as ilhas de calor. Você pode plantar dez mudas, mas vai demorar 30 anos para recuperar a mesma capacidade ambiental”, explica a especialista.
Moradores da região também cobram soluções alternativas, apontando que o avanço do mercado imobiliário e das obras viárias na Zona Leste tem transformado bairros inteiros em desertos de asfalto e tijolo.
DADOS OFICIAIS:
• Total de Árvores Afetadas: 493 árvores (277 espécies exóticas e 216 espécies nativas).
• Extensão do Corredor: 9,8 quilômetros entre o Terminal Parque Dom Pedro II e a Estação Penha.
• Promessa de Compensação: Plantio de 4.031 mudas de árvores pela Prefeitura de SP.
• Investimento na Obra: R$ 385,9 milhões provenientes do Fundurb.
• Impacto e Demanda: 400 mil passageiros diários em trecho com alta densidade urbana e escassez crônica de áreas verdes.
O RIGOR DA CIDADE: O trabalhador paulistano não deve ser forçado a escolher entre o direito a um transporte público digno e o direito elementar de respirar um ar menos poluído e caminhar sob a sombra. Progresso urbano de verdade não se faz na base do trator contra a natureza.
A gestão municipal precisa entender que soluções modernas de mobilidade, devem caminhar juntas com a preservação do meio ambiente urbano. Derrubar árvores centenárias na região mais quente e menos arborizada de São Paulo é um retrocesso que custará caro à saúde pública das próximas gerações.
AGORA A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR:
Você acredita que a promessa de viagens mais rápidas de ônibus justifica a derrubada de quase 500 árvores na Zona Leste, ou a Prefeitura deveria readequar o projeto arquitetônico para preservar a vegetação já existente?
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