FUNERAL DE KHAMENEI VIRA DEMONSTRAÇÃO DE FORÇA E PROJETA NOVA DISPUTA NO ORIENTE MÉDIO
Multidão ocupa as ruas de Teerã; governo iraniano tenta transformar sobrevivência após a guerra em poder de negociação, mas divisões internas e dúvidas sobre a sucessão permanecem
Centro Histórico da Cidade de São Paulo, terça-feira, 7 de julho de 2026
Por Redação Jornal25News — Internacional
LEITURA RÁPIDA — 1 MINUTO
O funeral do aiatolá Ali Khamenei transformou as ruas de Teerã em uma demonstração de luto, mobilização política e desafio aos Estados Unidos e a Israel.
Khamenei, que comandou o Irã durante mais de três décadas, morreu aos 86 anos nos ataques aéreos realizados por forças americanas e israelenses em 28 de fevereiro. A ofensiva marcou o início da guerra em território iraniano.
Na segunda-feira, 6 de julho, uma extensa procissão acompanhou os caixões de Khamenei e de quatro familiares mortos no mesmo ataque. Imagens exibidas pela televisão estatal mostraram a multidão ocupando quilômetros de uma das principais avenidas de Teerã. Não houve uma contagem independente e imediata do público.
Para o governo iraniano, o ato demonstrou que a República Islâmica sobreviveu à ofensiva militar e continua capaz de mobilizar seus apoiadores. Analistas ouvidos pela Reuters avaliam que Teerã pretende transformar essa resistência em poder de negociação, principalmente sobre o Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o comércio mundial de petróleo e gás.
A manifestação também foi marcada por ameaças de vingança contra o presidente americano Donald Trump e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Cartazes, bandeiras e discursos responsabilizaram os dois governos pela morte do líder iraniano.
Apesar da demonstração pública de unidade, há dúvidas sobre o futuro político do país. Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá e anunciado como seu sucessor, não compareceu à principal cerimônia e ainda não apareceu publicamente desde os ataques de fevereiro.
LEITURA INTEGRAL
UM FUNERAL QUE SE TRANSFORMOU EM ATO POLÍTICO
O funeral do falecido líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, foi muito além de uma cerimônia religiosa ou de uma despedida nacional.
A mobilização realizada em Teerã foi apresentada pelas autoridades iranianas como uma resposta direta aos Estados Unidos e a Israel. A mensagem oficial foi a de que os ataques militares não conseguiram destruir a estrutura política e religiosa construída depois da Revolução Islâmica de 1979.
Khamenei morreu no dia 28 de fevereiro, quando ataques aéreos americanos e israelenses atingiram seu complexo na região central de Teerã. Ele tinha 86 anos e estava havia aproximadamente 36 anos no posto mais poderoso do país.
Sua morte abriu uma das fases mais delicadas da história recente do Irã: guerra em território nacional, pressão econômica, disputa pela sucessão e necessidade de preservar a autoridade das instituições religiosas e militares.
Analistas já alertavam, porém, que a eliminação do líder não provocaria necessariamente o colapso imediato do regime. O sistema iraniano distribui poder entre o clero, a Guarda Revolucionária, os órgãos de segurança, o Parlamento e diferentes redes políticas e econômicas.
MULTIDÃO OCUPA AS RUAS DE TEERÃ
Na segunda-feira, uma multidão acompanhou a passagem do veículo que transportava os caixões de Khamenei e de quatro integrantes de sua família mortos no mesmo ataque.
Imagens aéreas mostraram pessoas ocupando uma longa extensão da Avenida Azadi. O cortejo avançou lentamente por cerca de 12 horas até o Aeroporto Internacional de Mehrabad.
Bombeiros lançaram água sobre os participantes para aliviar o forte calor. Autoridades utilizaram alto-falantes para pedir que as pessoas não corressem, não empurrassem e permanecessem afastadas do veículo.
O governo não divulgou imediatamente uma estimativa oficial verificável. A Reuters informou que não conseguiu confirmar o número de presentes, embora as imagens aéreas indicassem centenas de milhares de pessoas.
O cortejo foi o principal momento de uma semana de cerimônias programadas pelo governo iraniano.
PALAVRAS DE ORDEM E AMEAÇAS DE VINGANÇA
Parte da multidão carregava bandeiras do Irã, retratos de Khamenei e faixas pedindo vingança pela morte do líder.
Manifestantes atiraram pedras contra uma imagem de Donald Trump instalada em um viaduto. Outros queimaram bandeiras dos Estados Unidos e do Reino Unido.
Também foram exibidos cartazes com ameaças contra Trump e contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
A missão iraniana nas Nações Unidas responsabilizou Washington e Israel pelo ataque e declarou que a morte de Khamenei alimentaria um sentimento duradouro de vingança entre os iranianos.
As ameaças, no entanto, representam manifestações de participantes e declarações de autoridades iranianas. Não constituem prova de uma operação militar ou de um plano concreto contra os líderes estrangeiros.
SOBREVIVÊNCIA COMO ARMA DE NEGOCIAÇÃO
A principal leitura política do funeral está relacionada à tentativa do Irã de demonstrar que continuou de pé mesmo depois da ofensiva militar.
Segundo autoridades regionais, diplomatas e especialistas consultados pela Reuters, Teerã pretende utilizar essa sobrevivência institucional para ampliar seu poder nas negociações do pós-guerra.
O centro dessa estratégia não seria apenas o programa nuclear, mas o controle exercido pelo Irã sobre o Estreito de Ormuz.
A passagem marítima liga o Golfo Pérsico ao Mar da Arábia e é uma das rotas mais importantes para o transporte mundial de energia. Aproximadamente um quinto das remessas globais de petróleo e gás natural liquefeito passa pela região.
Para Teerã, o domínio sobre Ormuz oferece influência econômica, militar e diplomática.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, classificou o estreito como o principal instrumento de poder do país e afirmou que o governo não pretende abrir mão dos direitos que reivindica sobre a região.
PROGRAMA NUCLEAR PODE FICAR EM SEGUNDO PLANO
Um cessar-fogo preliminar estabeleceu um período de 60 dias para a busca de um acordo mais amplo.
Washington esperava utilizar esse prazo para retomar as negociações sobre o programa nuclear iraniano. Porém, segundo a análise da Reuters, Teerã estaria retardando as conversas para consolidar primeiro sua posição no Estreito de Ormuz.
O governo iraniano nega que pretenda construir uma bomba atômica.
Analistas avaliam que o Irã poderá exigir o reconhecimento de sua influência sobre Ormuz, a liberação de recursos financeiros congelados no exterior e o alívio de sanções antes de aceitar novas limitações relacionadas ao enriquecimento de urânio.
A estratégia iraniana parece baseada na percepção de que o tempo favorece Teerã e aumenta a pressão sobre o governo americano para alcançar um acordo definitivo.
AUSÊNCIA DO NOVO LÍDER GERA DÚVIDAS
Enquanto a cerimônia demonstrava mobilização nas ruas, a ausência de Mojtaba Khamenei provocava questionamentos sobre a condução do país.
Mojtaba, filho de Ali Khamenei, foi apontado como sucessor no posto de líder supremo. Entretanto, não apareceu durante o principal cortejo nem nas cerimônias anteriores realizadas ao lado dos caixões.
Fontes citadas pela Reuters afirmam que ele teria sofrido ferimentos graves no ataque de 28 de fevereiro. Desde então, não foi visto pessoalmente em público.
Três outros filhos de Ali Khamenei participaram das orações, mas Mojtaba permaneceu ausente.
A falta de aparições públicas alimenta especulações sobre seu estado de saúde, sua capacidade de exercer o cargo e o verdadeiro equilíbrio de poder entre o clero, o governo eleito e a Guarda Revolucionária.
MULTIDÃO NÃO SIGNIFICA APOIO INTEGRAL AO REGIME
Embora o governo iraniano utilize o funeral como demonstração de força, especialistas alertam que o comparecimento às cerimônias não pode ser interpretado automaticamente como apoio político à República Islâmica.
Algumas pessoas entrevistadas pela Reuters disseram que compareceram por dever religioso, curiosidade ou interesse em testemunhar um acontecimento histórico — e não necessariamente por fidelidade ao regime.
O Estado também ofereceu transporte, alimentação e hospedagem subsidiados para facilitar a participação nos atos.
O Irã continua enfrentando inflação elevada, perda do poder de compra, desvalorização da moeda, impacto das sanções e descontentamento relacionado à repressão política.
Por isso, a imagem de unidade projetada pelo funeral não elimina as divergências internas.
O país continua dividido entre apoiadores do regime, grupos reformistas, setores que exigem maior liberdade e uma parcela da população concentrada principalmente nas dificuldades econômicas.
CORPO SERÁ SEPULTADO EM MASHHAD
Depois da cerimônia em Teerã, o caixão de Khamenei foi levado de helicóptero para Qom, centro religioso e de formação do clero xiita iraniano.
As homenagens prosseguem nesta terça-feira na cidade.
A programação prevê ainda cerimônias nas cidades sagradas de Najaf e Kerbala, no Iraque. O sepultamento está previsto para quinta-feira, em Mashhad, próximo ao santuário do imã Reza.
Ali Khamenei nasceu em Mashhad e deverá ser enterrado em um dos locais religiosos mais importantes do Irã.
OLHAR 360º — MÁRIO MARCOVICCHIO
O funeral de Ali Khamenei revelou duas realidades que existem simultaneamente no Irã.
A primeira é a capacidade do Estado de organizar uma mobilização gigantesca, preservar suas instituições e projetar uma imagem de resistência mesmo depois de uma guerra devastadora.
A segunda é a permanência de profundas incertezas.
O comparecimento de uma multidão não representa, por si só, aprovação popular ao sistema político. O país continua enfrentando crise econômica, repressão, disputas internas e dúvidas sobre a saúde e a autoridade do novo líder.
O Irã não saiu intacto da guerra. Perdeu seu líder supremo, sofreu ataques dentro de seu território e enfrenta uma sucessão cercada de perguntas.
Mas também não foi desmantelado.
Agora, Teerã tenta transformar a própria sobrevivência em vantagem política, colocando o Estreito de Ormuz no centro das negociações com Washington.
O funeral encerra um ciclo de quase quatro décadas de poder de Ali Khamenei. Ao mesmo tempo, abre uma nova disputa pelo comando do Irã e pelo equilíbrio de forças no Oriente Médio.
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