Editorial Mário Marcovicchio-Olhar 360º graus- O petróleo agora é Meu !!!
A prisão de Maduro e o futuro do Brasil sob Lula
O avanço agressivo dos Estados Unidos sobre a América do Sul desmonta o discurso de liderança regional brasileira e expõe fragilidades de uma política externa baseada mais em afinidades ideológicas do que em poder real.
Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 07 de Janeiro de 2026
Editorial Mário Marcovicchio

A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos marcou um divisor de águas na crise venezuelana. O que inicialmente foi apresentado como uma ação de responsabilização internacional rapidamente revelou contornos muito mais profundos — e inquietantes. A declaração de Donald Trump, afirmando que os Estados Unidos passariam a administrar a Venezuela, já havia soado mal no cenário internacional. O impacto, porém, tornou-se ainda mais grave quando, questionado por uma repórter sobre quem governaria o país, Trump respondeu de forma direta e crua: “Eu.”
Não foi apenas uma provocação. Foi a exposição explícita de uma lógica de poder que dispensa disfarces.
Fica cada vez mais claro que o discurso do combate ao narcotráfico serviu como pretexto conveniente para uma operação muito maior: invadir, ocupar e controlar o poder na Venezuela. A máscara começa a cair. O que está em jogo nunca foi a democracia, os direitos humanos ou a reconstrução institucional do país. A verdadeira preocupação sempre esteve na riqueza venezuelana — petróleo, minerais raros, reservas energéticas e posição estratégica no tabuleiro geopolítico.
O resto é narrativa. Conversa para boi dormir.
Ao afirmar que governaria a Venezuela, Trump escancarou o paradoxo perverso do discurso internacional: critica-se Maduro, mas preserva-se — e até se recicla — a estrutura que permitiu o chavismo prosperar. Muda-se o comando, mas mantém-se a lógica. Troca-se o discurso, mas o sistema permanece. A soberania vira detalhe. O povo, figurante.
Esse movimento não apenas fere princípios básicos do direito internacional, como reforça a percepção de que o chavismo só é um problema quando atrapalha interesses estratégicos. Se servir ao petróleo, aos minerais e ao controle regional, torna-se tolerável. A Venezuela segue sendo tratada como ativo econômico — não como nação soberana.
No Brasil, o impacto político é inevitável e particularmente sensível. Lula, historicamente visto como aliado e amigo político de Maduro, atravessa um momento delicado em pleno ano eleitoral. Apesar de ainda liderar as pesquisas, o presidente sabe que números não blindam narrativas. O avanço agressivo dos Estados Unidos sobre a América do Sul desmonta o discurso de liderança regional brasileira e expõe fragilidades de uma política externa baseada mais em afinidades ideológicas do que em poder real.
O constrangimento é evidente. O presidente que sempre se apresentou como defensor da autodeterminação dos povos agora assiste, quase impotente, a uma potência estrangeira agir de forma explícita no continente. O silêncio pesa. A contradição cobra seu preço. A oposição explora o episódio, aliados se esquivam e o debate interno se contamina.
A questão central já não é apenas o destino de Maduro, mas o próprio papel do Brasil: como o país reagirá diante da tentativa de tutela estrangeira sobre um vizinho sul-americano? Defender a soberania regional ou aceitar o pragmatismo brutal das grandes potências?
Mais do que um episódio isolado, a crise escancara um jogo maior. Um jogo em que discursos sobre democracia convivem com interesses econômicos profundos. Um jogo em que a América do Sul volta a ser tratada como quintal — com a diferença de que, agora, o dono do quintal não faz mais questão de disfarçar.
O caminho político do Brasil rumo a 2026 passa, inevitavelmente, por esse debate. Não apenas sobre alinhamentos internacionais, mas sobre qual projeto de soberania, autonomia e liderança regional o país está disposto — ou não — a sustentar.
🖋 Mário Marcovicchio
Jornal25News – Editorial 360°

























































