A LIBERDADE É O MAIOR PATRIMÔNIO DO SER HUMANO
Centro Histórico da Cidade de SP, 04.08.26
Por Mário Marcovicchio Advogado criminalista há mais de 30 anos e jornalista
O advogado criminalista não trabalha com teses. Trabalha com carne viva. Com o que resta de um homem depois que a sociedade já o condenou, a imprensa já o enterrou e a família já o esqueceu. Trabalha com liberdade — o único patrimônio que não se recupera depois de perdido.
O ÚLTIMO DEGRAU
Carnelutti disse a única frase que importa nesta profissão: a advocacia criminal é sentar no último degrau da escada, ao lado do acusado, quando ninguém mais quer sentar.
Não é retórica. É descrição literal do trabalho. É visitar quem ninguém visita. É ler o processo que ninguém quer ler. É olhar nos olhos de quem cometeu o pior e dizer: mesmo você tem direito a um processo justo. Não porque o crime mereça perdão — mas porque o Estado, sozinho contra um homem, é a coisa mais perigosa que existe quando não tem freio.
Isso não é defesa do crime. É desconfiança do poder. E quem confunde uma coisa com a outra nunca entendeu nada de Direito.
Comecei como defensor público. Trinta anos depois, ainda carrego a mesma certeza: o criminalista não é cúmplice do cliente, é fiscal do Estado. Ele não pergunta “o que você fez” — pergunta “quem provou”. E enquanto ninguém provar, a Constituição fala mais alto que a indignação popular.
A FRASE QUE NÃO PASSA
Lula disse que advogado criminalista “defende bandido”.
Vinda de qualquer outra boca, seria ignorância. Vinda da boca dele, é traição à própria biografia. Foi advogado criminalista — vários — quem sentou no último degrau ao lado dele quando o Estado veio com tudo. Foi essa mesma advocacia que hoje ele chama de cúmplice do crime que o tirou da cadeia e o devolveu ao Planalto.
Não existe meio-termo aqui: ou a defesa que o livrou foi legítima, e então a advocacia criminal é legítima — ou não foi, e ele deve satisfações sobre a própria liberdade. As duas coisas juntas não cabem na mesma boca.
SOBRE OS 80 ANOS
Um presidente de 80 anos que erra a fala, se contradiz, perde o fio — isso levanta pergunta. Legítima. Devida. O país tem direito a transparência sobre quem segura o botão.
Mas pergunta não é diagnóstico. Ninguém aqui é neurologista de plantão, e transformar um deslize verbal em laudo médico à distância é tão irresponsável quanto o problema que se finge de solução. Idade não é sentença. Os Estados Unidos já viveram esse debate com Biden — e o que ficou foi política, não medicina.
Fica a pergunta. Não fica o veredito.
O QUE NÃO SE NEGOCIA
A frase de Lula não pede debate. Pede correção.
Um presidente pode errar. O que não pode é usar o microfone mais alto do país para jogar suspeita sobre os poucos que ainda descem ao último degrau. Porque no dia em que ninguém mais quiser sentar lá, o próximo a cair pode ser qualquer um — inclusive quem hoje ri do abismo de longe.
Sem advogado, não há defesa. Sem defesa, não há Justiça. Sem Justiça, não sobra democracia — sobra só o mais forte, decidindo quem merece viver livre.



























































