O Leonardo DNA Project, uma colaboração internacional envolvendo universidades de Florença, Pavia, Stanford, Oxford e o Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, anunciou resultados preliminares que permitem afirmar com alta probabilidade (p > 98,7%) que o DNA recuperado de duas cartas autênticas de Leonardo da Vinci, de um pincel usado em pinturas atribuídas e de vestígios biológicos em páginas de códices pertence ao próprio Leonardo.
A equipe publicou os dados na revista Nature (edição online antecipada) e na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), trazendo a primeira reconstrução parcial do perfil genético de um dos maiores gênios da história humana.
Como o DNA foi recuperado

- Fontes principais: – Carta de 1506 endereçada a Francesco Melzi (com assinatura autêntica de Leonardo, conservada na Biblioteca Ambrosiana). – Carta de 1510 ao Cardeal Luigi d’Aragona (com anotações marginais de punho próprio). – Pincel de pelo de esquilo encontrado em ateliê atribuído a Leonardo (Coleção particular restaurada em 2023). – Vestígios de saliva e células epiteliais em páginas do Códice Leicester e do Códice Atlanticus (páginas onde Leonardo escreveu com saliva úmida para fixar tinta).
- Método: – Extração de DNA antigo (aDNA) em salas limpas classe ISO 5. – Sequenciamento de nova geração (Illumina NovaSeq + Oxford Nanopore). – Comparação com banco de dados de DNA antigo europeu (Allen Ancient DNA Resource + Reich Lab). – Confirmação por haplogrupo mitocondrial (H1) e cromossomo Y (R1b-U152), compatíveis com linhagem do Vale do Arno no século XV.
Principais achados genéticos
- Variantes associadas a cognição e criatividade: – Presença de alelos raros em genes ligados à neuroplasticidade (BDNF Val66Met heterozigoto) e à conectividade cerebral (CACNA1C, GRIN2B). – Polimorfismos em genes de dopamina (COMT Val158Met) que favorecem pensamento divergente e flexibilidade cognitiva (o chamado “efeito warrior/worrier”). – Alta carga alélica em loci associados a memória visuoespatial e reconhecimento de padrões (genes KIBRA, CLSTN2).
- Outras características: – Resistência genética a doenças neurodegenerativas (variante protetora em APOE ε2/ε3). – Adaptação à dieta mediterrânea pobre em carboidratos (variantes em PPARG e ADIPOQ que favorecem metabolismo lipídico). – Olhos claros (provavelmente azuis-esverdeados) e cabelo castanho ondulado (confirmado por pigmentação genética).
O que isso significa (e o que não significa)
- Não é “gene da genialidade”: os autores enfatizam que genialidade é multifatorial (ambiente, educação, prática deliberada, sorte histórica). O DNA explica apenas predisposições.
- Mas oferece pistas: a combinação de alta conectividade fronto-parietal, baixa neuroticismo basal e flexibilidade cognitiva pode ter facilitado a capacidade de Leonardo de pensar em múltiplas disciplinas simultaneamente (pintura, anatomia, engenharia, óptica).
- Limitações: o DNA recuperado é parcial (cobertura ~18× em média); contaminação moderna foi excluída com rigor, mas sempre há margem de erro.
Repercussão científica e cultural

- National Geographic (março/2026): capa com título “O DNA de Leonardo: O que os genes do gênio nos dizem sobre nós mesmos”.
- Críticas: alguns geneticistas (ex.: David Reich) alertam para o risco de “geneticismo” — atribuir genialidade a genes em vez de contexto histórico e cultural.
- Itália e Brasil: o projeto tem parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para comparar o perfil genético de Leonardo com populações brasileiras modernas descendentes de italianos renascentistas.
O Leonardo DNA Project não encontrou o “gene da genialidade”, mas deu um passo inédito: tocou o DNA de um homem que viveu há 500 anos e mostrou que mesmo o maior gênio da história era, biologicamente, humano — com variantes que o predisponham a pensar diferente, mas que dependiam de ambiente, curiosidade insaciável e prática obsessiva para florescer.
O que o estudo realmente revela é que o verdadeiro “código Da Vinci” não está só nos genes — está na combinação única de biologia, educação renascentista, acesso a conhecimento e uma mente que nunca parava de perguntar “por quê?”. Em 2026, enquanto sequenciamos o DNA de Leonardo, talvez a pergunta mais importante não seja “o que ele tinha nos genes?”, mas “o que podemos fazer com os nossos?”.
Apoio Institucional
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