EDITORIAL 360 GRAUS-Mário Marcovicchio:
O PALANQUE QUE VIROU ENTERRO POLÍTICO
Lula tinha tudo para vencer, mas preferiu o risco da intolerância. A queda da escola é o retrato de um governo que perdeu o compasso.

Por Mário Marcovicchio
O tabuleiro estava montado.
As peças dançavam conforme a música.
O Rei assistia do alto, tranquilo, enquanto a direita se estapeava na arquibancada, dividida, perdida, sem maestro nem enredo.
Zona de conforto.
Pesquisas favoráveis.
Tempo como aliado.
Então… para quê?
O Mergulho no Próprio Abismo
Luiz Inácio Lula da Silva nunca foi amador. Sempre foi sobrevivente. Caiu, levantou, voltou. Leu o Brasil como poucos. Sabia esperar. Sabia sangrar adversários pelo cansaço.
Mas, de repente, escolheu o risco.
Escolheu o palco mais simbólico do país — a Sambódromo da Marquês de Sapucaí — para transformar festa em tensão. Onde deveria haver desfile, houve divisão. Onde deveria haver cultura, houve confronto narrativo.
A escola caiu.
E com ela, a aura de invencibilidade.
PARA QUÊ?
Samba do Crioulo Doido Político
A direita fragmentada? Deixa brigar.
Os egos inflados? Deixa rachar.
Os candidatos múltiplos? Deixa se neutralizar.
Era o cenário perfeito. Bastava administrar.
Mas o governo preferiu incendiar.
O que era vantagem virou ruído.
O que era liderança virou exposição.
O que era estratégia virou impulso.
Entrar num barco furado quando se está em primeiro lugar não é coragem. É imprudência.
O Punhal da Intolerância
O erro não foi apenas estético. Foi simbólico.
Ao permitir que o enredo descambasse para a provocação religiosa, abriu-se uma ferida num país onde a fé é estrutura social. O eleitorado evangélico não é nicho. É base crescente, organizada, articulada.
Não se trata de concordar ou discordar. Trata-se de cálculo político.
- A Troca: respeito por aplauso momentâneo.
• O Risco: narrativas de inelegibilidade, discursos de impeachment, questionamentos sobre uso da máquina pública.
• O Custo: erosão silenciosa no eleitorado moderado.
A Sapucaí deveria ser catarse cultural. Virou arena ideológica.
Foi estratégia fria?
Ou arrogância quente?
O Barril de Pólvora
O Brasil está polarizado, tensionado, exausto.
E quando se risca o fósforo na fé do povo, o fogo não avisa antes de subir.
Lula não precisava disso.
Não precisava comprar briga onde não havia necessidade.
Não precisava dar discurso para quem estava perdido.
Quando se está na frente, o maior risco é acreditar que o jogo já acabou.
O BRASIL RESPONDE
O Brasil não é plateia passiva.
O Brasil é rua. É feira. É culto. É samba. É rodeio. É procissão. É favela e é fazenda.
E quando o povo percebe que tem algo fora do compasso, ele reage.
No Nordeste se diz: “Quem não pode com o pote, não segura na rodilha.”
No Sul ecoa: “Cavalo encilhado não passa duas vezes.”
No Centro-Oeste: “Fogo em capim seco espalha ligeiro.”
No Norte: “Rio calmo também transborda.”
No Sudeste: “Quem mexe com fé, mexe com o coração do povo.”
O Brasil pode até dançar, mas não dança conforme qualquer música.
Porque na política, como no samba, quem perde o compasso não é vaiado só na avenida — é lembrado nas urnas.
No fim das contas, a pergunta continua ecoando nos quatro cantos do país:
Valeu a pena?
Porque como diz o ditado antigo:
“Quem planta vento, colhe tempestade.”





















































