CASO MASTER: MENSAGENS REVELAM PROXIMIDADE ENTRE PAULO GONET E DANIEL VORCARO
Procurador-geral teria dito sentir “saudades” do banqueiro, aceitado convite para evento em Londres e pedido a inclusão do filho; diálogos apreendidos pela PF ampliam questionamentos sobre relações de autoridades com o ex-controlador do Banco Master
Centro Histórico da Cidade de São Paulo — 1º de setembro de 2026
LEITURA RÁPIDA — 1 MINUTO
O jornal O Estado de S. Paulo publicou nesta terça-feira, em reportagem dos jornalistas Gustavo Côrtes, Aguirre Talento e Felipe de Paula, novos e surpreendentes fatos sobre a relação entre o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Segundo a reportagem, mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro mostram que o banqueiro conversou por telefone com Gonet e recebeu mensagens atribuídas ao procurador-geral por intermédio do advogado Ciro Soares.
Os diálogos revelados mostram um grau de informalidade até então desconhecido publicamente.
Em uma das mensagens encaminhadas pelo intermediário, Gonet teria afirmado sentir saudades de Vorcaro.
Em outra, ao saber de uma programação envolvendo uísque e charutos, teria chamado o banqueiro de “máquina”.
O material também indica que Gonet aceitou participar de uma programação em Londres e que seu filho foi incluído após consulta feita a Vorcaro.
Outro personagem importante aparece no episódio: Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, que, segundo a reportagem, também participou do evento em Londres.
As revelações chamam atenção porque Paulo Gonet ocupa o comando da Procuradoria-Geral da República, enquanto Andrei Rodrigues dirige a Polícia Federal, duas instituições diretamente envolvidas nas investigações do caso Banco Master.
Entretanto, é indispensável fazer uma distinção: a existência de relações sociais, mensagens pessoais ou participação em eventos não comprova, por si só, favorecimento, corrupção ou qualquer outro crime.
A atuação posterior da PGR também deve ser considerada. Em junho de 2026, Gonet rejeitou uma segunda proposta de delação premiada apresentada por Daniel Vorcaro, sob o argumento de que as informações oferecidas não traziam provas novas de suficiente utilidade para as investigações.
Procurada pelo Estadão para comentar as novas revelações, a Procuradoria-Geral da República informou que não comenta investigação sigilosa.
Diante do conjunto de mensagens que agora chega ao conhecimento público, uma pergunta torna-se inevitável:
qual era exatamente o grau de relacionamento entre algumas das principais autoridades encarregadas de fiscalizar, investigar e acusar e o banqueiro Daniel Vorcaro?
LEITURA INTEGRAL
O jornal O Estado de S. Paulo publicou nesta terça-feira, em reportagem dos jornalistas Gustavo Côrtes, Aguirre Talento e Felipe de Paula, novos e surpreendentes fatos sobre a relação entre o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
A nova reportagem amplia o quadro de relações pessoais e institucionais envolvendo o banqueiro que se encontra no centro das investigações sobre o Banco Master.
Segundo o material revelado, Daniel Vorcaro manteve conversas telefônicas e troca de mensagens com o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Parte desses contatos teria ocorrido por intermédio do advogado Ciro Soares.
Os registros foram encontrados no celular de Vorcaro e passaram pela análise da Polícia Federal no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master.
“ELE QUER FALAR COM VOCÊ”
Um dos episódios descritos pela reportagem ocorreu em março de 2025.
Ciro Soares teria enviado a Vorcaro uma fotografia ao lado de Paulo Gonet.
Logo depois, escreveu ao banqueiro informando que Gonet queria falar com ele.
Na sequência, segundo os registros analisados, ocorreram quatro chamadas de voz.
A existência dessas ligações demonstra que o contato entre o procurador-geral e o banqueiro não se limitava a encontros públicos ou institucionais.
O conteúdo integral dessas chamadas, entretanto, não foi divulgado.
Essa distinção é importante.
A existência do contato aparece nos registros mencionados pela reportagem. O teor completo das conversas telefônicas permanece desconhecido publicamente.
CONVITE PARA LONDRES
Naquele período, Vorcaro organizava uma programação em Londres que incluía uma degustação de uísque.
Segundo o Estadão, Paulo Gonet aceitou participar.
A reportagem afirma também que o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, participou da programação.
A proximidade ganha especial relevância em razão dos cargos ocupados pelas autoridades.
Paulo Gonet é o chefe da Procuradoria-Geral da República.
Andrei Rodrigues é o diretor-geral da Polícia Federal.
Daniel Vorcaro, por sua vez, viria a se tornar personagem central de uma das mais importantes investigações financeiras do País.
“JÁ ESTOU COM SAUDADE DE VOCÊ”
Treze dias depois de um dos contatos descritos pela reportagem, Ciro Soares teria encaminhado a Vorcaro uma mensagem atribuída ao procurador-geral da República.
Na mensagem, Gonet teria afirmado:
“Já estou com saudade de você!”
O próprio intermediário teria esclarecido ao banqueiro que a mensagem havia sido enviada por Gonet.
Vorcaro respondeu manifestando carinho e dizendo também sentir saudades.
Segundo os registros divulgados, Ciro Soares afirmou posteriormente que Gonet gostava de Vorcaro e confirmou sua participação na programação de Londres.
As mensagens revelam um grau de informalidade e proximidade pessoal que não era conhecido publicamente nessa dimensão.
UÍSQUE, CHARUTO E O APELIDO “MÁQUINA”
Outro diálogo chama atenção pelo tom informal.
Ao tratar da programação em Londres, uma mensagem atribuída a Gonet manifestaria expectativa pela presença de charutos e do uísque Macallan.
Depois, quando foi discutida a possibilidade de seu filho também participar, outra mensagem atribuída ao procurador-geral teria chamado Vorcaro de:
“máquina”.
O tom das conversas contrasta com a formalidade normalmente associada ao cargo de procurador-geral da República.
Mas é fundamental estabelecer uma fronteira clara:
proximidade pessoal não significa automaticamente prática de irregularidade.
O material revela a existência dessa proximidade.
Determinar se ela produziu alguma consequência institucional depende de provas.
FILHO DE GONET ENTRA NA HISTÓRIA
As mensagens também indicam que Ciro Soares perguntou a Vorcaro se o filho de Paulo Gonet poderia participar da programação em Londres.
Vorcaro respondeu positivamente.
Esse ponto exige esclarecimentos.
Quem pagou as passagens?
Quem arcou com hospedagem e demais despesas?
Qual era exatamente a natureza da viagem?
Tratava-se de compromisso institucional, evento privado ou atividade patrocinada?
Houve algum benefício pessoal oferecido por Vorcaro ou por pessoas ligadas ao Banco Master?
São perguntas objetivas que precisam de respostas igualmente objetivas.
ANDREI RODRIGUES TAMBÉM PARTICIPOU
A reportagem do Estadão afirma que Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, também participou da programação em Londres.
A presença de autoridades brasileiras em eventos relacionados a Vorcaro já havia sido objeto de outras reportagens.
A questão central não é criminalizar encontros sociais ou participação em eventos.
O ponto que precisa ser esclarecido é outro:
essas relações pessoais ou sociais interferiram, em algum momento, no exercício das funções públicas dessas autoridades?
Até o momento, o material divulgado não comprova que isso tenha ocorrido.
GONET REJEITOU DELAÇÃO DE VORCARO
Existe ainda um elemento importante para que a análise seja completa.
Em junho deste ano, Paulo Gonet rejeitou a segunda proposta de colaboração premiada apresentada por Daniel Vorcaro.
Segundo o entendimento atribuído ao procurador-geral, as informações apresentadas pelo banqueiro não traziam provas novas e tinham pouca utilidade para as investigações.
Esse fato é relevante porque demonstra que, apesar da proximidade revelada pelas mensagens anteriores, a Procuradoria-Geral da República posteriormente tomou uma decisão contrária aos interesses de Vorcaro.
A Polícia Federal também rejeitou proposta de colaboração do banqueiro.
Por isso, qualquer acusação de favorecimento exige prova concreta e não pode ser construída exclusivamente a partir da existência de amizade, mensagens pessoais ou encontros.
O CONTEXTO SE TORNA MAIS DELICADO
As revelações não aparecem isoladamente.
No mesmo período, vieram a público outros diálogos atribuídos a Daniel Vorcaro envolvendo o ministro Alexandre de Moraes.
Em mensagens encontradas no celular do banqueiro, Vorcaro teria mencionado “Paulo” e “Andrei”, referências interpretadas nas investigações como sendo Paulo Gonet e Andrei Rodrigues.
Também foram divulgadas mensagens nas quais Vorcaro buscava informações ou possíveis intervenções relacionadas às investigações.
Esse contexto torna ainda mais importante esclarecer se os contatos agora revelados ficaram exclusivamente no campo da convivência social ou se tiveram alguma repercussão institucional.
PGR NÃO COMENTA INVESTIGAÇÃO
Procurada pelo jornal O Estado de S. Paulo, a Procuradoria-Geral da República informou que não comenta investigação sigilosa.
A ausência de uma manifestação detalhada deixa perguntas em aberto.
Isso, porém, não representa admissão de irregularidade.
Da mesma forma, mensagens afetuosas, viagens, encontros ou participação em eventos não são, isoladamente, prova de crime.
AS PERGUNTAS QUE PRECISAM SER RESPONDIDAS
As novas revelações tornam legítimo exigir esclarecimentos transparentes.
Qual era exatamente a relação pessoal entre Paulo Gonet e Daniel Vorcaro?
Quantas vezes eles se encontraram?
Quantas vezes conversaram por telefone?
Quais assuntos foram tratados?
Quem financiou a participação de autoridades e familiares na programação em Londres?
Houve despesas pagas pelo Banco Master ou por Daniel Vorcaro?
O filho de Gonet recebeu algum benefício material ou financeiro?
Andrei Rodrigues teve despesas custeadas por Vorcaro ou pessoas ligadas ao banco?
Vorcaro alguma vez pediu diretamente a Gonet ou a Andrei Rodrigues intervenção em investigações?
Alguma autoridade atendeu a pedidos dessa natureza?
Essas perguntas não equivalem a acusações.
São questões de evidente interesse público.
TRANSPARÊNCIA É A ÚNICA RESPOSTA POSSÍVEL
Quando autoridades responsáveis por investigar, acusar e decidir mantêm relações pessoais com pessoas que posteriormente se tornam investigadas, a sociedade tem o direito de conhecer os limites dessas relações.
Isso não autoriza julgamento antecipado.
Mas também não permite que os fatos sejam ignorados.
O princípio deve valer igualmente para todos:
não se condena sem provas, mas também não se impede a investigação porque o personagem envolvido ocupa uma posição elevada na República.
As novas mensagens precisam ser examinadas integralmente.
As autoridades citadas devem ter amplo direito de apresentar suas explicações.
E a sociedade brasileira tem o direito de saber se essas relações permaneceram exclusivamente no campo social ou se, em algum momento, ultrapassaram a fronteira entre amizade e função pública.
Nem condenação antecipada. Nem blindagem institucional.
O que o caso exige agora é transparência.
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