Enquanto o mundo discute a preservação de pandas, tigres e florestas, um grupo de cientistas brasileiros, norte-americanos e europeus está construindo uma “Arca de Noé microbiana” — um banco global de microrganismos que visa impedir a extinção silenciosa de bactérias, fungos, arqueias e vírus que sustentam a vida no planeta. O projeto, batizado de Microbial Noah’s Ark (MiNA), foi oficialmente lançado em dezembro de 2025 e já conta com financiamento inicial de US$ 120 milhões (cerca de R$ 680 milhões) da Fundação Bill & Melinda Gates, Wellcome Trust e FAPESP.
Por que os micróbios estão em risco de extinção?

Estudos recentes mostram que a perda de biodiversidade microbiana é muito mais rápida do que a perda de biodiversidade macroscópica (animais e plantas). Principais causas:
- Desmatamento e mudanças de uso do solo: a Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica perderam bilhões de toneladas de solo orgânico, levando à extinção local de comunidades microbianas únicas.
- Uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos: altera o microbioma do solo e dos oceanos, eliminando bactérias fixadoras de nitrogênio e fungos micorrízicos.
- Poluição por antibióticos e metais pesados: cria “superbactérias” resistentes, mas extingue linhagens sensíveis que são essenciais para ciclos biogeoquímicos.
- Aquecimento global: altera temperaturas e padrões de precipitação, tornando habitats microbianos inabitáveis (ex.: permafrost derretendo libera vírus antigos, mas destrói ecossistemas microbianos atuais).
Estima-se que 30–50% das espécies microbianas conhecidas já tenham sido extintas localmente nas últimas décadas, e o número real pode ser muito maior, pois 99% das espécies microbianas ainda nem foram descritas.
O que é a “Arca de Noé” microbiana (MiNA)
- Objetivo principal: Criar um banco global de linhagens microbianas vivas com capacidade para preservar 1 milhão de isolados únicos até 2035.
- Localização inicial: Sede principal no INPA (Manaus) e no Smithsonian Institution (EUA), com nós regionais no Brasil (Manaus, São Paulo, Recife), África (Quênia), Ásia (Índia) e Europa (Alemanha).
- Métodos de preservação:
- Congelamento criogênico em nitrogênio líquido (-196 °C).
- Liofilização (freeze-drying) para linhagens resistentes.
- Bancos de DNA e RNA para sequenciamento futuro.
- Prioridade: microrganismos de solos tropicais, ambientes extremos (salinas, fontes termais), rizosfera de plantas nativas e microbioma humano indígena (povos isolados da Amazônia).
Por que salvar micróbios é urgente?

- Ciclo do nitrogênio e carbono: bactérias e arqueias fixam nitrogênio e reciclam carbono — sem elas, a agricultura colapsa e o CO₂ atmosférico aumenta.
- Saúde humana: o microbioma intestinal humano depende de diversidade microbiana. Perda de espécies pode estar ligada ao aumento de doenças autoimunes, obesidade e depressão.
- Biotecnologia: muitos antibióticos, enzimas industriais e biofertilizantes vêm de microrganismos raros. Se eles se extinguirem, perdemos recursos valiosos.
- Resiliência climática: microrganismos do solo ajudam a sequestrar carbono e a adaptar plantas ao estresse hídrico e térmico.
Repercussão e perspectivas para o Brasil
- O Brasil, com a maior biodiversidade microbiana do planeta (devido à Amazônia e ao Cerrado), é considerado o “epicentro” do projeto MiNA.
- O INPA e a Embrapa já preservam mais de 15 mil isolados e serão o maior nó da rede global.
- A FAPESP destinou R$ 45 milhões para o Brasil participar ativamente do MiNA em 2026–2030.
- Críticas: alguns cientistas alertam para o risco de “biopirataria legalizada” se o acesso ao material genético não for regulado rigorosamente.
A “Arca de Noé microbiana” já começou a coletar e preservar linhagens em Manaus, com meta de 100 mil isolados brasileiros até 2030. O projeto é visto como um dos mais estratégicos da ciência contemporânea: enquanto salvamos pandas e onças, micróbios invisíveis sustentam a vida — e sua perda pode ser irreversível.
O Jornal 25News acompanha o avanço do MiNA e como o Brasil pode se tornar o guardião global da biodiversidade microbiana. Porque o verdadeiro tesouro da Amazônia não é só o ouro ou o petróleo — é o que vive invisível no solo, na água e dentro de nós. E esse tesouro está desaparecendo mais rápido do que imaginávamos.
Apoio Institucional
Ibrachina – Instituto Sociocultural Brasil-China
APECC – Associação Paulista de Empreendedores
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Calabria – Oportunidades de Negócios
Advocacia Marcovicchio
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