Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 07 de outubro de 2026.
Você que acorda de madrugada, enfrenta condução lotada e vê o seu salário evaporar com descontos de impostos na folha de pagamento, com certeza já sentiu revolta ao ver as calçadas tomadas de panfletos ou o seu celular bombardeado por anúncios políticos a cada segundo. A conta dessa caça descarada ao voto não sai do bolso dos candidatos: ela é paga com o suor de quem trabalha, através dos bilhões do Fundo Partidário e Eleitoral.
Nesta semana, os relatórios oficiais de prestação de contas dos seis candidatos a deputado (quatro federais e dois estaduais) que superaram a marca de 500 mil votos em São Paulo revelaram uma fratura escancarada na engrenagem política paulista. De um lado, a direita despejou a maioria massacrante dos seus orçamentos no impulsionamento massivo das redes sociais; do outro, a esquerda continuou drenando verdadeiras fortunas públicas na confecção de pilhas intermináveis de “santinhos” de papel.
A ENGRENAGEM DO FATO: A radiografia dos dados enviados à Justiça Eleitoral mostra que o dinheiro público correu em fluxos completamente antagônicos para produzir votações recordes. No campo da direita, o foco foi a conversão de cliques em votos através de um bombardeio algorítmico sem precedentes.
O campeão absoluto de votos para a Câmara Federal em São Paulo, Lucas Pavanato (PL), eleito com mais de 3 milhões de votos, torrou nada menos que metade de todo o seu orçamento de R$ 2,7 milhões apenas em redes sociais e estratégias digitais — foram R$ 1,35 milhão dedicados à internet, contra R$ 352,5 mil gastos em gráficas. A dobradinha se repetiu na Assembleia Legislativa (Alesp): Eduarda Campopiano (PL), a mais votada para deputada estadual com quase 2 milhões de sufrágios, concentrou 61,1% dos seus R$ 654 mil em despesas diretamente no mundo virtual, destinando apenas 11,5% ao material impresso.
Na contramão da era digital, as duas parlamentares mais votadas da bancada do PSOL despejaram cifras milionárias nas velhas gráficas para inundar as vias públicas. Reeleita para a Câmara dos Deputados, Erika Hilton (PSOL) aplicou R$ 453 mil (27,8% do total) em produção impressa, enquanto destinou apenas 11,5% às redes. O caso mais gritante, porém, veio da campanha de Sâmia Bomfim (PSOL): dos R$ 1,97 milhão declarados em despesas, uma bolada de R$ 775 mil — quase 40% de todo o caixa — virou panfleto e santinho impresso.
No meio do caminho, Kim Kataguiri (Missão) adotou um modelo híbrido na reeleição com 520 mil votos, dividindo seus R$ 469 mil de forma quase idêntica: 25,2% no digital e 24,7% em gráfica e correios. O contraste mais extremo foi registrado na campanha de Eduardo Suplicy (PT), reeleito para a Alesp aos 85 anos com 654 mil votos: enquanto os colegas torravam na casa dos milhões, Suplicy fechou as contas com modestos R$ 97,8 mil — dos quais apenas R$ 2 mil foram parar em gráficas.
VOZES E ANÁLISE: Para os especialistas em marketing eleitoral e sociologia urbana, as planilhas
confirmam o abismo ideológico das estratégias. A direita paulista estruturou sua máquina de mobilização diretamente nas telas dos smartphones, operando cortes rápidos e discursos incendiários que dispensam estrutura física intermediária. Já a esquerda ainda opera dependente da militância de rua tradicional, dos diretórios e do corpo a corpo em portas de fábricas e estações, onde o “santinho” na mão ainda serve de crachá de abordagem.
No entanto, especialistas em gestão pública alertam para o custo invisível que sobra para a cidade. O derramamento criminoso de toneladas de papel entope bueiros, piora os riscos de enchentes na capital e exige mutirões caríssimos de varrição da Prefeitura pagos pelos cofres municipais. Por outro lado, o impulsionamento digital desenfreado levanta alertas no Judiciário sobre o uso abusivo de poder econômico nas redes e a opacidade dos algoritmos que manipulam a opinião do eleitorado vulnerável.
DADOS OFICIAIS:
Candidatos Analisados: Os 6 deputados mais votados de SP acima de 500 mil votos (4 federais e 2 estaduais).
Maiores Votações e Gastos Digitais:
- Lucas Pavanato (PL): 3.038.438 votos | Despesas: R$ 2,70 milhões | Redes: R$ 1,35 milhão (50%) | Gráfica: R$ 352,5 mil (13%).
- Eduarda Campopiano (PL): 1.956.238 votos | Despesas: R$ 654,3 mil | Redes: R$ 400 mil (61,1%) | Gráfica: R$ 75 mil (11,5%).
Maiores Gastos com Gráfica e Santinhos:
- Sâmia Bomfim (PSOL): 583.107 votos | Despesas: R$ 1,97 milhão | Gráfica: R$ 775 mil (39,2%) | Redes: R$ 400 mil (20,2%).
- Erika Hilton (PSOL): 1.596.472 votos | Despesas: R$ 1,62 milhão | Gráfica: R$ 453 mil (27,8%) | Redes: R$ 188 mil (11,5%).
Modelos Alternativos:
- Kim Kataguiri (Missão): 520.071 votos | Despesas: R$ 469,2 mil | Redes: 25,2% | Gráfica/Postagem: 24,7%.
- Eduardo Suplicy (PT): 654.627 votos | Despesas: R$ 97,8 mil | Redes: R$ 30 mil | Gráfica: R$ 2 mil.
Impacto Social: O Fundo Eleitoral bilionário drena recursos do Orçamento da União que fariam a diferença direta no custeio de creches, hospitais e pavimentação de bairros periféricos.
O RIGOR DA LEI: O trabalhador honesto não aguenta mais ser feito de palhaço a cada biênio eleitoral. Ver milhões de reais bancados com dinheiro público virarem montanhas de lixo nas calçadas ou serem transferidos para os cofres de gigantes multinacionais de tecnologia é um tapa na cara da sociedade paulistana.
A legislação eleitoral precisa parar de contemporizar. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Ministério Público têm a obrigação de apertar o cerco: impor limites severos à poluição das campanhas impressas e auditorias cirúrgicas sobre os contratos de impulsionamento virtual. O voto consciente nasce da discussão de propostas para a comunidade, e não da compra desmedida de atenção — seja na calçada suja ou no algoritmo de aplicativo.
AGORA A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR:
Você acredita que a Justiça Eleitoral deveria proibir definitivamente a distribuição de santinhos de papel para acabar com a sujeira das ruas e o desperdício de dinheiro público, ou a internet dominada por anúncios caros representa um risco ainda maior de manipulação?
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