O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) divulgou nesta segunda-feira (02/03) o relatório “The Cost of Inaction: The Financial Imbalance Between Nature-Based Solutions and Nature-Destructive Subsidies”, que quantifica pela primeira vez de forma global e detalhada o desequilíbrio financeiro entre preservação e destruição ambiental. O dado central é alarmante: para cada US$ 1 investido em soluções baseadas na natureza (restauração de ecossistemas, conservação, agricultura regenerativa, proteção costeira etc.), US$ 30 são gastos em atividades que degradam ou destroem a natureza.
Os números mais impactantes do relatório

- Subsídios destrutivos totais: US$ 7,0 trilhões por ano (média 2023–2025) – Combustíveis fósseis: US$ 3,3 trilhões (inclui subsídios explícitos e implícitos como isenções fiscais e preços regulados) – Agricultura industrial não sustentável: US$ 2,1 trilhões (fertilizantes sintéticos, pesticidas, monoculturas com alto uso de água, desmatamento indireto) – Pesca predatória e sobre-exploração: US$ 0,9 trilhão – Outros (mineração destrutiva, infraestrutura em áreas sensíveis, desmatamento legal): ~US$ 0,7 trilhão
- Investimento em soluções baseadas na natureza: US$ 230–260 bilhões por ano (média global 2023–2025) – Restauração florestal e recuperação de solos: ~US$ 80–90 bilhões – Proteção de áreas marinhas e costeiras: ~US$ 40–50 bilhões – Agricultura regenerativa e agrofloresta: ~US$ 60–70 bilhões – Conservação de biodiversidade: ~US$ 40–50 bilhões
- Relação financeira: 1 : 30 (para cada dólar investido em preservação/restauração, US$ 30 vão para atividades que destroem ou degradam ecossistemas). – Em países de renda média-baixa (incluindo Brasil), a relação chega a 1 : 45–50.
Impactos destacados no relatório

- Subsídios fósseis: mesmo após a COP28 (2023) e COP29 (2024), os subsídios explícitos e implícitos a combustíveis fósseis continuam crescendo em termos absolutos (+8% em 2025 vs 2024), principalmente por causa de controles de preço em países emergentes e isenções fiscais em nações ricas.
- Agricultura: US$ 2,1 trilhões em subsídios anuais financiam práticas que causam desmatamento indireto, erosão do solo, perda de biodiversidade e contaminação de aquíferos.
- Retorno sobre investimento em natureza: o Pnuma estima que cada US$ 1 investido em soluções baseadas na natureza gera entre US$ 7 e US$ 30 em benefícios econômicos (serviços ecossistêmicos, regulação climática, segurança alimentar, saúde humana).
Repercussão e posicionamento
- Achim Steiner (diretor-executivo do Pnuma): “Estamos financiando a destruição da natureza 30 vezes mais do que sua proteção. Isso não é apenas um erro contábil — é uma escolha política e econômica que coloca em risco a estabilidade do sistema planetário.”
- Governo brasileiro: O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) divulgou nota afirmando que o Brasil já reduziu em 38% os subsídios implícitos a combustíveis fósseis desde 2023 e que o Plano ABC+ (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) será ampliado em 2026–2030 com foco em práticas regenerativas.
- Críticas: Organizações como Greenpeace e 350.org acusam o relatório de “suavizar” o papel de bancos multilaterais e fundos soberanos que ainda financiam projetos fósseis. A bancada ruralista no Congresso brasileiro chamou os dados de “alarmismo” e defendeu que “a agricultura brasileira já é a mais sustentável do mundo”.
O relatório do Pnuma de março de 2026 não traz surpresas qualitativas — todos já sabiam que o mundo subsidia muito mais a destruição do que a preservação. A novidade está na quantificação precisa (1 : 30) e na urgência do momento: com os impactos climáticos acelerando (secas no Centro-Sul, enchentes no Sul, queimadas recordes na Amazônia em 2025), o custo da inação já é visível.
A pergunta que fica: em um mundo que gasta US$ 7 trilhões por ano destruindo a natureza e apenas US$ 250 bilhões protegendo-a, quem vai ter coragem de inverter essa conta? Em 2026, os números estão gritando — resta saber se alguém vai escutar antes que o rio mude de curso de vez.
Apoio Institucional
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