📰 EDITORIAL 360° – Mário Marcovicchio-PROCURA-SE UM PRESIDENTE
Quando o poder entra em liquidação, TUDO OU NADA.
Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 01 de maio de 2026
Há semanas em que Brasília funciona como um relógio suíço. Em outras, parece um despertador quebrado na mão de quem insiste em dormir até tarde. Mas a última semana foi diferente. Não foi desorganização — foi exposição. O governo, por alguns dias, tirou a maquiagem e deixou claro: não está apenas perdendo o jogo, está perdendo o controle dele.
O primeiro ato veio com a rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Em Brasília, indicações ao STF costumam seguir um ritual previsível: discute-se para aprovar. Desta vez, o Senado decidiu contrariar o script. O “não” não foi técnico, foi político. E foi alto. Não houve erro de cálculo; houve ruptura. Enquanto Davi Alcolumbre conduzia a articulação, o Planalto percebeu, em tempo real, que sua capacidade de comando já não produz o mesmo efeito.
No dia seguinte, veio a confirmação de que não se tratava de um episódio isolado. O Congresso derrubou o veto presidencial sobre as penas relacionadas aos atos de 8 de janeiro. Mais do que o conteúdo da decisão, importa o gesto. O Legislativo não apenas discordou — ele se posicionou. Foi uma demonstração clara de autonomia, e, ao mesmo tempo, de disputa por narrativa.
A sequência dos fatos não deixa espaço para ingenuidade. Quando o Congresso começa a agir em bloco contra o Executivo, não estamos mais diante de divergências pontuais, mas de um redesenho de forças.
E então veio o silêncio.
Pelo segundo ano consecutivo, o presidente Lula não participou dos atos centrais do 1º de Maio. A justificativa pode ser estratégica. O efeito, inevitavelmente, é político. A ausência, em determinados momentos, fala mais do que qualquer discurso. Especialmente quando se trata de um líder cuja trajetória foi construída justamente nesses palanques.
A política não tolera espaços vazios. Quando o Executivo hesita, o Legislativo avança. E o sistema — sempre pragmático — se reorganiza sem pedir licença.
É nesse ambiente que surge o elemento mais sensível desta equação: o fator Alckmin. O vice-presidente, conhecido por sua postura discreta e previsível, começa a ser citado em conversas que antes não existiam. Não oficialmente, mas o suficiente para chamar atenção. Segundo apuração da jornalista Vera Magalhães, após as derrotas recentes, passou a circular entre setores políticos a hipótese de um reposicionamento para 2026.
Nada foi anunciado. Mas, em política, o que começa a ser cogitado já deixou de ser impossível.
O sinal é claro: quando o nome do vice passa a ser tratado como alternativa viável, não é porque ele mudou — é porque o ambiente mudou.
O que se observa, portanto, não é uma queda abrupta, mas um deslocamento progressivo. O poder, em Brasília, não desaparece. Ele migra. Muda de centro, de ritmo, de direção. E, sobretudo, de controle.
A pergunta que se impõe não é quem perdeu a semana. Isso é evidente. A pergunta relevante é outra: o que ainda pode ser controlado a partir daqui?
Porque há um momento específico na política em que o poder deixa de ser exercido e passa a ser negociado. E, quando isso acontece, a autoridade deixa de ser firme — passa a ser precificada.
E quando o poder entra em negociação, invariavelmente, ele já começou a sair em liquidação.

















































