Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 08 de outubro de 2026.
Seja no chão de fábrica, no comércio ou nos circuitos culturais que moldam o pensamento do país, o protagonismo da mulher nunca foi concessão: sempre foi território conquistado com luta, enfrentando preconceitos e quebrando barreiras erguidas por séculos de exclusão.
Nesta temporada cultural em São Paulo, essa trajetória de emancipação ganha um palco de peso histórico. A mostra coletiva “Por Elas, com Elas: Do Moderno ao Contemporâneo” entra em cartaz articulando um diálogo inédito e corajoso entre diferentes gerações de artistas visuais.
Ocupando simultaneamente duas unidades da tradicional Dan Galeria — nos Jardins e no Itaim Bibi —, a exposição coloca frente a frente esculturas, pinturas e instalações que desafiam o público a refletir sobre o papel da mulher, o corpo, a intimidade e a preservação do meio ambiente.
A ENGRENAGEM DA MOSTRA: A engenharia curatorial montada pela historiadora e crítica Maria Alice Milliet divide o acervo em dois eixos complementares que amarram o passado de luta à vanguarda atual. De um lado, a exposição revisita a força seminal de pioneiras que abriram caminhos na arte nacional a partir de meados do século 20, enfrentando o conservadorismo da sociedade brasileira da época.
Entre as presenças de maior destaque está a escultura histórica em bronze “Cheia de Graça (Sombra)”, concebida pela lendária Maria Martins, artista cuja obra desafiou a moralidade tradicional e levou a sensualidade e o mistério para as galerias do mundo.
Na outra ponta, o circuito dá voz à produção contemporânea de artistas que mantêm o compromisso com o tempo presente. Nomes como Patricia Furlong, Adriana Rocha, Denise Milan, Laura M. Mattos, Greicy Khafif e Roberta Goldfarb trazem trabalhos que fogem do lugar-comum decorativo e mergulham fundo em feridas abertas: as queimadas e o desequilíbrio ecológico, as pedras portuguesas como símbolo da resistência urbana e as cobranças sociais que ainda recaem de forma desmedida sobre a mulher no mercado e na família.
VOZES E ANÁLISE: Para a curadora Maria Alice Milliet, o encontro dessas matrizes não é mero exercício
estético, mas uma tomada de posição cultural em um país ainda marcado pela desigualdade. Segundo a especialista, as obras foram selecionadas em torno de duas urgências que se cruzam diariamente: a relação predatória da humanidade com a natureza e a batalha cotidiana pelo reconhecimento e pela autonomia feminina.
Críticos de arte e sociólogos apontam que exposições desse porte desempenham um papel de reparação histórica. Durante décadas, os grandes acervos e museus foram hegemonizados por homens, relegando criadoras brilhantes a papéis secundários. Ao reunir instalações têxteis, bronzes monumentais e telas de grande densidade visual criadas exclusivamente por mãos femininas, a cidade de São Paulo reafirma a arte não como privilégio de bolhas elitizadas, mas como instrumento pedagógico que educa as novas gerações para o respeito e para a equidade.
DADOS OFICIAIS:
Exposição: Por Elas, com Elas: Do Moderno ao Contemporâneo.
Curadoria: Maria Alice Milliet.
Período de Visitação: Em cartaz até 07 de novembro de 2026.
Endereços em SP: Dan Galeria (Rua Estados Unidos, 1.638 — Jardins) e Dan Galeria Contemporânea (Rua Amauri, 73 — Itaim Bibi).
Artistas em Destaque: Maria Martins, Denise Milan, Patricia Furlong, Adriana Rocha, Roberta Goldfarb, Laura M. Mattos, Greicy Khafif, Elizabeth Dorazio e Anke Eilergerhard.
Temas Centrais: A condição feminina na contemporaneidade, intimidade, identidade e defesa dos ecossistemas naturais.
Impacto Social: Fortalecimento do patrimônio cultural brasileiro através do protagonismo feminino e conscientização comunitária contra a invisibilidade de gênero.
O RIGOR DA HISTÓRIA: Cultura de qualidade e valorização da cidadania não são perfumarias; são direitos fundamentais garantidos pela Constituição e indispensáveis para a construção de uma sociedade equilibrada. Não é aceitável que a genialidade feminina só seja aplaudida tardiamente ou tratada como exceção à regra.
A força produtiva de São Paulo é erguida dia após dia pelas mãos de milhões de mulheres trabalhadoras, mães de família e chefes de lar que sustentam a economia do estado. Reconhecer essa potência no meio artístico é dar o recado claro de que o tempo do apagamento acabou. O rigor da história exige espaço, visibilidade e justiça para quem produz a alma e o pensamento do país. Lugar de mulher é na liderança, no trabalho e no topo do pódio cultural.
AGORA A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR:
Você acredita que eventos culturais focados exclusivamente na produção artística feminina aceleram a quebra de preconceitos na sociedade, ou o acesso do trabalhador comum às galerias de arte ainda é um gargalo que precisa ser democratizado com urgência nas periferias?
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