JORGINHO MELLO ACUSA LULA DE OFENDER CATARINENSES E ANUNCIA REPRESENTAÇÃO À PGR
Governador afirma que declarações sobre racismo e “hegemonia branca” ultrapassaram o debate político; Planalto ainda não havia respondido
Centro Histórico da Cidade de São Paulo, domingo, 28 de junho de 2026
O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, do PL, anunciou que apresentará uma representação à Procuradoria-Geral da República contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo o governador, Lula teria cometido xenofobia e atingido a honra da população catarinense ao falar sobre racismo durante uma visita a Itajaí, no litoral norte do estado.
A representação deverá ser protocolada na segunda-feira, 29 de junho.
A acusação feita por Jorginho Mello ainda terá de ser examinada pela Procuradoria-Geral da República. O anúncio de uma representação não significa que tenha sido reconhecida a existência de crime ou que algum processo tenha sido aberto contra o presidente.
DISCURSO EM ITAJAÍ
A controvérsia começou durante um evento realizado na sexta-feira, 26 de junho, em Itajaí.
No discurso, Lula criticou o governador e a política estadual relacionada às cotas raciais nas instituições de ensino.
O presidente declarou que a população não deveria permitir que o racismo prevalecesse em Santa Catarina. Também defendeu tratamento igualitário entre brasileiros de diferentes regiões, origens e cores de pele.
Ao desenvolver o argumento, Lula afirmou que uma pessoa branca não pode ser considerada superior a uma pessoa negra e que um nordestino não pode ser tratado como inferior a alguém do Sul do país.
O presidente mencionou Adolf Hitler e declarou que não se poderia aceitar uma ideia de “hegemonia branca” sobre o restante do Brasil.
Na sequência, classificou esse pensamento como uma “hegemonia da ignorância”.
GOVERNADOR CONSIDERA FALA OFENSIVA
Jorginho Mello interpretou as declarações como uma generalização contra os moradores de Santa Catarina.
Para o governador, Lula teria insinuado que os catarinenses são racistas, possuem sentimento de superioridade e discriminam brasileiros de outras regiões.
Jorginho afirmou que críticas dirigidas ao seu governo fazem parte do debate político, mas considerou que as declarações ultrapassaram esse limite ao atingir toda a população do estado.
“Uma coisa é o presidente me criticar ou vir a Santa Catarina dizer coisas que não condizem com a realidade. Isso faz parte do debate político e nós respondemos com fatos. Outra coisa, muito diferente, é chamar o povo catarinense de racista”, declarou o governador.
Jorginho classificou a fala como preconceituosa e afirmou que o presidente deverá responder por ela perante as instituições competentes.
DISCUSSÃO COMEÇOU COM AS COTAS RACIAIS
A fala de Lula ocorreu no contexto de uma disputa política e jurídica sobre as cotas raciais em Santa Catarina.
O governo estadual apoiou uma legislação que buscava impedir a adoção de cotas raciais em universidades estaduais e em instituições privadas que recebessem recursos públicos do estado.
A medida foi contestada judicialmente e teve sua validade suspensa.
Ao abordar o assunto, Lula defendeu as políticas de ação afirmativa e acusou seus adversários de estimularem divisões entre brasileiros.
O governador, por outro lado, nega ter atacado pessoas negras ou defendido qualquer forma de discriminação racial.
O QUE A PGR PODERÁ FAZER
Após receber a representação, a Procuradoria-Geral da República poderá analisar se os fatos narrados apresentam elementos jurídicos suficientes para alguma providência.
A PGR poderá pedir informações, determinar o arquivamento da representação ou avaliar outras medidas previstas na legislação.
A simples apresentação do documento não transforma automaticamente o presidente em investigado, denunciado ou réu.
Também caberá à Procuradoria examinar o contexto completo do discurso, o conteúdo das declarações e se houve efetivamente alguma conduta com relevância penal.
EMBATE GANHA DIMENSÃO POLÍTICA
O episódio intensifica o confronto entre Lula e Jorginho Mello, que pertencem a campos políticos adversários.
Jorginho é aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro e um dos principais nomes do PL na Região Sul.
Lula, por sua vez, aproveitou a passagem por Santa Catarina para criticar a política estadual de cotas e defender medidas de combate ao racismo.
O embate ocorre em um ano eleitoral e tende a ampliar a disputa política entre o governo federal e a administração catarinense.
PLANALTO NÃO HAVIA SE MANIFESTADO
Até a divulgação do anúncio feito pelo governador, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República não havia apresentado uma resposta específica sobre a representação anunciada.
O governo federal também não havia informado se Lula pretendia esclarecer ou comentar novamente as declarações feitas em Itajaí.
O QUE VOCÊ PRECISA SABER
Quem apresentará a representação: Jorginho Mello, governador de Santa Catarina.
Contra quem: presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Onde será apresentada: Procuradoria-Geral da República.
Quando: previsão para segunda-feira, 29 de junho.
Motivo alegado: declarações que, segundo o governador, associaram os catarinenses ao racismo e a uma ideia de superioridade regional.
Situação jurídica: trata-se, até o momento, de uma representação anunciada. Não há decisão da PGR reconhecendo crime ou determinando investigação.
OLHAR 360º — MÁRIO MARCOVICCHIO
O combate ao racismo é uma obrigação permanente do Estado e de toda a sociedade brasileira.
Da mesma maneira, autoridades públicas devem evitar generalizações capazes de atingir toda a população de um estado ou de uma região.
O debate político pode ser firme, mas precisa ser responsável.
A representação à PGR deverá ser analisada tecnicamente, sem antecipação de culpa e sem transformar divergências políticas em condenações automáticas.
É necessário separar três pontos: o conteúdo exato do discurso, a interpretação apresentada pelo governador e a avaliação jurídica que caberá às instituições.
Em uma democracia, ninguém deve estar acima da lei.
Mas ninguém também deve ser considerado culpado antes que os fatos sejam examinados com equilíbrio, contraditório e respeito ao devido processo legal.
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