O presidente chinês Xi Jinping, em visita ao Peru, inaugurou no último dia 14 o porto de águas profundas de Chancay, um megaprojeto que posiciona o país sul-americano como um novo elo estratégico entre a China e a América Latina. Localizado a 80 quilômetros de Lima, o porto simboliza o crescente avanço da China na região, tradicionalmente vista como área de influência dos Estados Unidos.
Com um investimento total estimado em mais de US$ 3 bilhões, a estrutura será operada pela Cosco Shipping, gigante chinesa do setor marítimo, que detém 60% do empreendimento desde 2019. A primeira fase do projeto, que inclui a movimentação de navios menores, entra em operação ainda neste mês, enquanto o planejamento completo prevê 15 docas capazes de receber embarcações maiores que as admitidas pelo Canal do Panamá.
A cerimônia contou com a presença da presidente peruana Dina Boluarte, que celebrou o projeto como uma oportunidade histórica para transformar o Peru em um “centro nervoso” de comércio internacional, conectando a América do Sul à Ásia. É previsto que o porto gere 8 mil empregos e movimente cerca de US$ 4,5 bilhões em atividade econômica anual.
Interesses comerciais ou militares?
Apesar das promessas econômicas, o forte envolvimento chinês em Chancay tem gerado receios nos Estados Unidos. A general Laura J. Richardson, ex-chefe do Comando Sul dos EUA, alertou que o porto poderia ser utilizado para fins militares, como ponto de apoio para navios de guerra chineses. Em resposta, Pequim insiste que o projeto é exclusivamente comercial, parte da ambiciosa Iniciativa Cinturão e Rota.
Esse temor, porém, parece ter pouco impacto na América Latina, onde governos enxergam a China como parceira estratégica para alavancar o comércio e diversificar investimentos. “A América Latina e o Sul Global querem vender seus produtos para quem puder comprá-los. Esse tipo de receio americano não encontra ressonância aqui”, destacou Leolino Dourado, pesquisador do Centro de Estudos sobre a China e a Ásia-Pacífico da Universidad del Pacífico, em Lima.
Porto de Chancay: vetor de mudanças regionais
Quando concluído, o porto deve reduzir o tempo de transporte entre o Peru e a China em até 20 dias, fortalecendo o país como um centro logístico. O impacto regional poderá ser ainda maior, com projetos em estudo para uma ferrovia ligando Chancay ao Brasil, principal parceiro comercial da China na América Latina.
Além disso, empresas chinesas avaliam a possibilidade de estabelecer fábricas na região, como a montadora BYD, especializada em veículos elétricos. Dina Boluarte chegou a mencionar o porto como um atrativo para novos investimentos durante visita à China em junho.
Os laços entre China e Peru vão além da infraestrutura. Com investimentos de US$ 11,4 bilhões no setor de mineração, especialmente em cobre, e o controle parcial da distribuição de energia em Lima, Pequim consolida sua posição como maior parceiro comercial do país andino, respondendo por US$ 36 bilhões em trocas bilaterais no último ano.
Impasse e o futuro da geopolítica
Internamente, o projeto enfrentou críticas. A autoridade portuária peruana questionou os termos que concederam à Cosco exclusividade operacional por 30 anos, mas a contestação foi arquivada pouco antes da viagem de Boluarte à China. Enquanto isso, acadêmicos chineses reconhecem que o porto tem relevância geopolítica e preveem resistência dos EUA, que podem tentar enfraquecer o controle chinês sobre a instalação estratégica.
A inauguração do porto de Chancay marca um ponto de inflexão na presença da China na América Latina, fortalecendo sua posição como um dos principais atores econômicos e estratégicos na região. Para o Peru, o megaprojeto representa uma oportunidade sem precedentes de modernizar sua infraestrutura, impulsionar sua economia e se firmar como um hub logístico crucial no comércio global. No entanto, em meio às promessas de progresso, o porto também simboliza o cenário de disputas geopolíticas entre as potências globais, à medida que os Estados Unidos observam com preocupação o avanço de Pequim em um território historicamente ligado à sua esfera de influência.
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