Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 27 de outubro de 2026.
OPINIÃO — EDITORIAL DO JORNAL25NEWS
Mario Marcovicchio
Leitura Rápida — 1 Minuto
- A fala: o presidente nacional do PT, Edinho Silva, disse na segunda-feira (26) que o partido vai mobilizar a população e “pôr gente nas ruas” se a vitória de Lula não for reconhecida.
- O plano: a Executiva Nacional do PT se reúne na quinta-feira (29), com movimentos sociais, para discutir um plano de mobilização.
- O contexto: Flávio Bolsonaro disse que era “impossível reconhecer” o resultado, e Donald Trump afirmou, sem provas, que a eleição “pareceu fraudada”.
- O perigo: o país já registrou agressões, tiros e carros depredados entre apoiadores dos dois lados desde o domingo da votação.
- Nossa posição: quem lidera tem o dever de pacificar. Convocar militância para as ruas, de qualquer lado, é jogar gasolina numa fogueira já acesa.
Leitura Integral
O que disse o presidente do PT
Em entrevistas à CNN Brasil e à BandNews TV na noite de segunda-feira (26), Edinho Silva afirmou que, se a vitória de Lula não for reconhecida, o PT vai mobilizar e “pôr gente nas ruas”. Também disse que o partido vai “criar um plano” de mobilização. Ele chamou de “inaceitável” a postura de Flávio Bolsonaro e acusou o senador de ter respaldo de Donald Trump.
É verdade que a ameaça veio com uma condição: o “se”. Mas, na boca do presidente do partido que governa o país, uma condição dessas soa como aviso de mobilização. E aviso de mobilização, num ambiente inflamado, é convite ao confronto.
Um país que já sangra nas ruas
A fala não caiu no vazio. Desde a noite da apuração, o Brasil acumula episódios de violência política. Em Rio Verde (GO), pessoas de vermelho e de amarelo entraram em confronto. Em Campo Grande (MS), apoiadores de Lula que comemoravam foram agredidos, e um carro teve o vidro quebrado a pauladas. Em Porto Velho (RO), veículos de quem celebrava a reeleição foram alvo de tiros e depredação. Na Zona Sul de São Paulo, um homem foi preso em flagrante por atirar contra duas pessoas depois de uma discussão política. Em Três Pontas (MG), circularam imagens de agressão contra uma mulher e uma adolescente durante um ato político.
Esse é o terreno onde se fala em “pôr gente nas ruas”. Quando um lado anuncia que vai ocupar as ruas, o outro se sente convocado a responder. Já vimos onde isso termina.
A irresponsabilidade não tem um lado só
Este jornal não fecha os olhos para o que veio antes. Flávio Bolsonaro disse, no domingo (25), que era “impossível reconhecer” o resultado e anunciou que pediria a anulação da eleição. Na segunda, integrantes da própria campanha disseram à CNN que ele desistiu do pedido. O PL, presidido por Valdemar Costa Neto, reconheceu o resultado.
Donald Trump, por sua vez, disse sem apresentar provas que a eleição brasileira “pareceu fraudada”, embora tenha afirmado que gosta de Lula e que não comanda o Brasil. O vice-presidente Geraldo Alckmin chamou a fala de “totalmente equivocada”. O presidente do TSE afirmou que não houve irregularidades e que a prorrogação do horário de votação não comprometeu a lisura do pleito.
Ou seja: as instituições funcionaram, o partido derrotado reconheceu o resultado e o próprio candidato recuou do pedido de anulação. Justamente por isso, a ameaça de mobilização de rua é desnecessária. A democracia brasileira não precisa ser defendida com militância nas calçadas. Ela é defendida nos tribunais, no Congresso e no voto.
Metade do país não é inimiga
Lula venceu com cerca de 52% dos votos válidos. Isso significa que quase metade dos brasileiros votou no outro lado. Essas pessoas são vizinhos, colegas de trabalho, clientes e comerciantes da 25 de Março e do Brás. Não são um exército adversário a ser enfrentado na rua.
Um presidente de partido que fala em mobilizar massas, num momento de tiros e agressões, assume uma responsabilidade enorme. Se a tensão escalar e alguém se ferir, a fala de segunda-feira será lembrada. O mesmo vale para quem, do outro lado, alimenta a desconfiança nas urnas sem provas.
O que o Brasil precisa agora
O Brasil precisa de líderes que baixem a temperatura: um gesto público de reconhecimento por parte de Flávio Bolsonaro, um recuo do PT na retórica de mobilização e firmeza das forças de segurança contra quem usa a política como pretexto para a violência.
A reunião da Executiva do PT na quinta-feira é uma oportunidade. Que dela saia um chamado à paz, e não um plano de ocupação das ruas.
O Jornal25News continuará acompanhando o caso.
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