Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 2 de novembro de 2026.
O paulistano que acorda antes do amanhecer e gasta a sola do sapato nas calçadas esburacadas da metrópole conhece de cor o chão sobre o qual constrói a própria vida. Entre os passos apressados para alcançar o ponto de ônibus ou a estação de metrô, o desenho geométrico em ladrilho hidráulico preto e branco que desenha o contorno do mapa do Estado de São Paulo sempre foi mais do que piso: é a marca visual de uma identidade coletiva esculpida pelo trabalho. Contudo, assistir a esse patrimônio de 60 anos ser arrancado na marreta e substituído por remendos grosseiros de cimento cinza escancara o descaso histórico do poder público com a memória viva da capital.
Criado em 1965 pela artista plástica e desenhista Mirthes dos Santos Bernardes, o emblemático piso paulista corre risco real de extinção nas ruas de São Paulo. Sem uma política municipal permanente de tombamento, manutenção subsidiada ou incentivo à restauração, o padrão que se tornou cartão-postal involuntário da cidade vem sendo gradualmente engolido pelo concreto moldado no local, pelo asfalto de baixa qualidade e por pisos intertravados mais baratos, transformando avenidas históricas em retalhos sem identidade estética ou padronização urbanística.
A ENGRENAGEM DO FATO: A história do piso remonta a um concurso público lançado em 1965 pelo então prefeito Faria Lima para eleger o desenho de calçamento que representasse a modernização de São Paulo. Funcionária da Secretaria de Obras, Mirthes Bernardes desenhou à mão livre a estilização do mapa paulista intercalando peças claras e escuras de ladrilho hidráulico. A proposta venceu arquitetos de renome e, no ano seguinte, começou a ser assentada em larga escala pela Rua Barão de Itapetininga e pela Avenida São Luís, espalhando-se rapidamente por bairros tradicionais e pelo interior.
A engrenagem do desaparecimento atual está na combinação de custo, mão de obra escassa e falta de legislação protetiva. Instalar e manter ladrilhos hidráulicos artesanais exige assentamento especializado e custa, em média, três a quatro vezes mais por metro quadrado do que uma camada simples de concreto desempenado. Como a legislação municipal atribui ao proprietário do imóvel lindeiro a obrigação exclusiva de reformar o passeio público sob pena de multa pela Lei das Calçadas, comerciantes e moradores optam por quebrar os mosaicos originais na primeira obra de esgoto ou fiação, aplicando soluções baratas e desprovidas de valor histórico.
VOZES E ANÁLISE: Historiadores da arte, arquitetos e pesquisadores do patrimônio urbano alertam que o abandono do piso paulista representa um apagamento simbólico da história do design nacional. Especialistas destacam que Mirthes Bernardes, que faleceu em 2020 aos 85 anos, nunca recebeu royalties proporcionais pela criação de um símbolo que foi apropriado por marcas, souvenirs e peças
de moda em todo o país. A ausência de um catálogo oficial da Prefeitura sobre onde ainda restam calçadas originais impede que zeladorias regionais exijam sua reposição em intervenções de concessionárias privadas de água, gás e eletricidade.
Por outro lado, associações de pessoas com deficiência e militantes da mobilidade ativa ressaltam que a preservação do desenho histórico não pode colidir com o direito sagrado à acessibilidade. O ladrilho hidráulico tradicional, quando mal instalado ou desgastado pelo tempo, costuma soltar peças, acumular limo e gerar desníveis que causam quedas frequentes de idosos e impedem o trânsito seguro de cadeirantes e carrinhos de bebê. Urbanistas apontam que cidades como Lisboa e Barcelona conseguiram compatibilizar calçadas históricas com pisos táteis modernos e superfícies antiderrapantes, modelo que a Prefeitura paulistana insiste em ignorar ao terceirizar o problema sem oferecer diretrizes técnicas adequadas aos cidadãos.
DADOS OFICIAIS:
- Origem da Obra: Concurso de desenho para calçamentos de São Paulo promovido na gestão Faria Lima em 1965.
- Autoria Histórica: Mirthes dos Santos Bernardes (1934-2020), artista plástica e servidora pública municipal.
- Material Padrão: Ladrilho hidráulico prensado (mosaico em concreto de alta resistência em placas de 20×20 cm).
- Áreas de Difusão Pioneira: Centro Novo da capital (Rua Barão de Itapetininga, Rua Conselheiro Crispiniano e entorno da Praça da República).
- Situação Jurídica do Símbolo: Marca registrada pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), mas sem tombamento integral unificado como patrimônio material pelo Conpresp/Condephaat.
- Impacto Social e Urbanístico: Perda gradual da identidade arquitetônica de São Paulo, falta de acessibilidade para pedestres e encarecimento da manutenção de calçadas para o proprietário comum.
O RIGOR DA LEI: O espaço urbano e a memória cultural são direitos difusos da população que devem ser defendidos com rigor inegociável. A Prefeitura de São Paulo não pode continuar lavando as mãos, multando o trabalhador que não tem dinheiro para comprar ladrilho nobre e, ao mesmo tempo, permitindo que concessionárias como Sabesp, Comgás e Enel destruam calçadas inteiras com valas abertas e remendos de asfalto podre que transformam a cidade em pista de obstáculos.
O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico (Conpresp) e o Ministério Público de São Paulo têm o dever indelegável de instituir um plano diretor de salvaguarda dos passeios públicos históricos, prevendo linhas de fomento municipal e fábricas públicas de ladrilhos para fornecer peças originais a preços populares. A calçada é o primeiro transporte do cidadão e o espelho da cidadania: preservar a arte de Mirthes Bernardes aliando o chão da história à segurança de quem anda a pé é obrigação elementar de respeito a São Paulo e à sua gente.
AGORA A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR:
Você acredita que a Prefeitura de São Paulo deveria assumir a responsabilidade e os custos de manter e preservar as calçadas históricas do mapa paulista, ou o desenho tradicional deve ser abandonado para dar lugar a calçadas modernas de concreto e acessibilidade mais baratas?

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